O ódio na política e a política do ódio

A divisão do Brasil de alto abaixo, as idéias raivosas que poluem as redes sociais e lamentáveis episódios de truculência e intransigência fazem relembrar, nesta virada de ano, um dos grandes filmes de Bernardo Bertolucci: 1900. Não é o caso de analisar sua genial narrativa, um pouco maniqueísta, é verdade, da luta de classes no século passado e da ascensão de duas ideologias totalitárias tão marcantes do século XX; o fascismo e o comunismo.

A cena final serve como exemplo do risco do ridículo que corre a atual polarização político-ideológica, se continuar na mesma toada. Só para relembrar, nela Bertolucci satiriza com muito bom humor a luta de classes, em vez de legitimá-la. Já velhinhos, de bengala e se arrastando, os personagens Olmo (Gerard Depardieu) e Alfredo (Robert De Niro) prosseguem com sua briga incansável, enfadonha e inútil, como se assim marchassem para o fim de suas vidas.

Relembrar a cena magistral do cineasta italiano nos faz rir mas, na vida real, no Brasil de hoje, não tem a menor graça. Tudo o que foi construído por um meio de uma longa e custosa engenharia política, onde a travessia da ditadura para a democracia e a transição do governo FHC para governo Lula foram dois marcos, vem sendo consumido pelas chamas da insensatez, pelas labaredas da intolerância, que queimam o Brasil no norte a sul, de leste a oeste.

Sabe-se como isso começou e qual é a cota que cabe a cada um neste latifúndio. Mas é melhor não esmiuçar, até para não jogar mais lenha em uma fogueira já em alta combustão. Importa aqui chamar a atenção para dois sentimentos negativos que urge sejam combatidos.

O primeiro deles é o ódio à política. Até certo ponto e grau é perfeitamente compreensível o senso comum de largos contingentes da sociedade, segundo o qual a política é uma coisa abjeta, exercida para que muitos possam dela se servirem. Os sucessivos escândalos dos últimos 13 anos, o mundo carcomido da política real, elevaram tais sentimentos a um novo patamar.

Compreender não é sinônimo de aceitar ou concordar. E muito menos de não lutar para sua superação. Tal como está posta, a rejeição à política gera uma postura niilista, conformista. Além de abrir espaço para novos Messias e aventureiros.

Sim, Churchill tinha razão. “A democracia é o pior forma de governo, excetuando-se todas as demais”. Fora da política, a barbárie.

A segunda onda é mais deletéria. É a política do ódio, algo elaborado e praticado por forças que se apossam do senso comum das massas, do seu desencanto, para introduzir na nossa cultura a intolerância, a intransigência. Com vistas a objetivos obscuros e totalitários.

Estamos, portanto, diante de um ódio elaborado, erigido à ideologia, a uma espécie de religião, a uma nova cruzada. É uma nova concepção totalitária que se manifesta a destra e a sinistra, a montante e a jusante. Que entende o ódio como a continuidade da política por outros meios, numa deformação grosseira do pensamento do gênio militar Clauzewitz.

Errado!

O ódio é a negação da política no seu sentido mais nobre. Aquele descoberto pela Grécia Antiga, como o meio civilizado de a humanidade equacionar os seus conflitos.

Neste final de ano, além do filme de Bernardo Bertolucci, vem à mente um fato marcante da eleição de 1974. Naquele ano, um político ainda jovem se elegeu senador em Pernambuco. Seu nome, Marcos Freire. Seu slogan: “Sem ódio e sem medo”.

É o que desejo a todos em 2016.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 30/12/2015.

Um comentário para “O ódio na política e a política do ódio”

  1. Sem medo do ódio, é o novo slogam. Continuamos vestindo vermelho à imagem do filme de Bertoluccia quem o maniqueismo desagrada.
    Bom lembrar o velho e bom Darcy Ribeiro:
    “Eles acreditam que somos fortes, gosto de acreditar que somos mesmo”.

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