Nunca houve governo tão incompetente (12)

Depois de dez horas de reunião, no sábado 25 de abril de abril, Dilma Rousseff constatou que andava em círculos, sem saber por onde começar o corte de investimentos em obras e a redução dos serviços de manutenção da infraestrutura. Era noite quando despediu-se de ministros e presidentes de bancos federais.

Nos dias seguintes o Ministério da Fazenda começou a negociação dos cortes. O ministro dos Transportes, Antonio Carlos Rodrigues, contou a senadores como foi:

— Aconteceu uma coisa engraçada. Eu estava lá na Fazenda e me falaram: “Faça um corte linear de 25%.” Então, eu disse: “Ah, tudo bem. E na hora em que eu chegar a uma ponte, eu construo só 75% e ponho uma balsa para eles atravessarem?”

O governo parou, antes de recomeçar. Sete meses depois de reeleita, Dilma ainda não conseguiu formular um plano administrativo consistente. Sequer definiu o tamanho dos cortes em despesas e investimentos que se vê obrigada a realizar, por incúria no primeiro mandato.

Na escuridão gerencial, começaram a proliferar na Esplanada dos Ministérios ideias avulsas — algumas inócuas, outras malucas —, entre elas a imposição de limites ao tempo de uso da internet.

Ontem, passados 130 dias da posse, não havia ministro que soubesse qual será o seu orçamento nos próximos sete meses. Quase todos renegociavam débitos de 2014 pendentes com fornecedores. Poucos devem chegar ao fim do mês com as dívidas de janeiro resolvidas.

A escassez não é só de dinheiro.

Na Saúde, caso exemplar é o projeto do Hospital do Câncer de Sergipe. Aliados locais de Dilma protestam porque, depois de cinco anos com “dinheiro na conta”, esse empreendimento não recebeu um único tijolo. Talvez continue no papel até a próxima eleição presidencial.

Em Transportes, simbólica é a duplicação da BR-101 entre Santa Catarina e o Rio Grande do Sul. Lula “inaugurou” a obra três vezes nos últimos 12 anos, e Dilma renovou a promessa no ano passado. Até hoje não tem projeto definitivo e nem aparece na listas de prioridades governamentais.

Na Educação, a confusão gerencial que redundou em agonia para milhares de estudantes foi produzida da seguinte forma, conforme relato feito no Congresso por Amábile Pacios, da Federação Nacional das Escolas Particulares:

— No dia 9 de dezembro, nós tivemos uma audiência com o então ministro Henrique Paim (da Educação) e eu perguntei: “Ministro, vai haver mudanças no Fies?” Ele disse: “De forma nenhuma. A presidente prometeu, na campanha, não mexeremos no Fies.” No 26 de dezembro, recebemos um e-mail do MEC: “O gato subiu no telhado.” No dia 29, a gente soube da notícia. As regras foram mudadas exatamente nas férias escolares.

No centro do poder há mais de uma década, Dilma permanece um enigma, prisioneira de uma nuvem de generalidades e posições óbvias, em geral a favor da luz elétrica, da água encanada, da erradicação da miséria e do analfabetismo. Atravessou quatro anos repetindo formulações rudimentares como “meu olhar principal não é para os números do PIB nem para a taxa de juros, é para as pessoas”.

É compreensível seu estupor diante do desastre gerencial que construiu, mas precisa agir rápido para resgatar o governo que subiu no telhado e lá permanece, catatônico.

Este artigo de José Casado foi publicado em O Globo, em 12/5/2015.

Dois textos explicam de forma clara, quase didática, como o recente relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) colocou a nu a “contabilidade criativa” do primeiro governo Dilma.

6 Comentários para “Nunca houve governo tão incompetente (12)”

  1. FALTAM APENAS 1329 DIAS PARA O FIM DO GOVERNO INCOMPETENTE. ANTES SÓ GOLPE.

    Vivemos uma situação de pouca democracia neste Brasil, e não é culpa do governo atual e sim da vigilância imposta por um grupo desesperado para assumir o poder e que se frustrou e muito na última eleição, parece até que assumiram um compromisso de ganhar a eleição e como não conseguiram estão tentando “mostrar para o patrão trabalho sério”.
    NOSSO MEDO e que cheios e ódio (sangue nos zóio) querendo guerra a qualquer preço, não pensam que a guerra só destrói e ninguém sairá vencedor, talvez o patrão PIG seja guerreiro e goste de se envolver em conflitos para preservar seus interesses.

    O ódio que tem dominado a disputa política no Brasil interdita o verdadeiro debate e leva questões de natureza ideológica a assumirem uma proporção exagerada. Ora, é impensável a escolha de um ministro para a mais alta Corte do país que nunca tenha manifestado publicamente suas ideias e opiniões. Aliás, é desejável que o tenha feito. A apatia em relação às questões politicas, sim, seria desaconselhável. A indiferença em relação aos problemas públicos e da coletividade é que seria impedimento. Afinal, a função de ministro do Supremo não é só jurídica, mas também política, de sacerdócio público, de alguém que tenha naturalmente preocupação com as questões da polis, com o interesse coletivo.

    O que é prejudicial à Corte e ao País, definitivamente, não é a inclinação político-ideológica de seus membros, mas o empenho que ditos formadores de opinião têm em desvirtuar o debate e impedir alguém pela sua postura cidadã participativa, quando deveriam, ao contrário, estimular que todos se envolvessem com as questões coletivas. Transformar o ambiente público em um ambiente de diálogo, compreensão e solução dos problemas comuns deveria ser papel de todos em uma vida republicana. Mas o clima de pugilato, de conflito ideológico menor que tem contaminado qualquer tema da vida pública brasileira, inclusive a nomeação de ministros, demonstra que a estrada é longa e o percurso, dos mais acidentados para o real amadurecimento de nossa democracia

  2. IMPRENSA EM QUESTãO > BOQUINHA PROVIDENCIAL

    Balanço da Petrobras salvou a receita de maio

    Por Alberto Dines em 13/05/2015 na edição 850

    Confirmou-se mais uma vez a generosidade da Petrobras com os três jornalões (+ Valor). Além das fortes emoções produzidas pela Operação Lava Jato que ainda consegue animar um jornalismo sonâmbulo, a publicação do balanço da petroleira no dia 8 de maio, sexta-feira, permitiu às maiores empresas jornalísticas do país tirar a barriga da miséria.

    Com as lojas desertas e as vendas desastrosas na temporada do Dia das Mães, a impressão e o encarte de um portentoso suplemento de 32 páginas em papel especial, quatro cores dos dois lados, salvou o faturamento de maio.

    A Petrobras foi uma mãe, e em troca ninguém reclamou contra a prodigalidade de uma empresa em estado quase falimentar. A publicação de balanços das empresas de capital aberto é obrigatória, a transparência é uma exigência da lei e constitui a chamada “publicidade legal”. Não seria suficiente publicar o documento num único veículo?

    Apesar do atraso de cinco meses, o resumo foi divulgado na TV pelo próprio presidente da companhia, Aldemir Bendine, 13 dias antes com tremenda repercussão internacional.

    O leitor não especializado já conhecia os números mais expressivos, e para atender a legislação e ao mercado bastaria publicar o cartapácio em apenas um jornal, digamos o Valor Econômico, com tiragem infinitamente menor e um público-alvo mais do que adequado. Com a vantagem adicional de beneficiar as duas empresas proprietárias (Globo e Folha).

    Ninguém contestou a nova exibição de liberalidade da maior empresa do país. Dinheiro do contribuinte jogado acintosamente pela janela e ninguém bota a boca no trombone? Quem ousaria (ou conseguiria) fazê-lo? Os veículos beneficiados, aqui, na Pátria do Compadrio e das boquinhas abertas? Impraticável.

  3. O professor FACHIN reconheceu e exaltou a participação do senador ALOYSIO NUNES no processo de redemocratização do país. O antes vendedor de laranjas, advogado, procurador do estado, o futuro ministro do STF, sempre foi um professor, cátedra maior de um homem honrado, submetido as chicanas de sete senadores mais preocupados com os holofotes da tv e com compromissos politiqueiros. FACHIN mais uma vez desempenhou sua natural capacidade, deu uma aula de 10 horas, agora pela TV para todo o Brasil. Se os senadores deixarem, teremos um professor como ministro no supremo.

  4. Batalha de Curitiba: a direita começou a perder

    Análise dos fluxos nas redes sociais revela: após muitos meses, partidários do conservadorismo e repressão isolaram-se, no debate público

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