Nota baixa

Algaravia é uma tremenda duma palavra feia. Mas existe. E se existe podemos, então, usá-la.

Segundo os dicionários, algaravia é uma confusão de vozes, linguagem confusa, embrulhada. Algo assim como um discurso de Cantinflas, aquele cômico mexicano que recitava longas algaravias, recheadas de muitas palavras e nenhum sentido.

O rebaixamento do grau de investimento do Brasil pela agência de risco Standard & Poor’s provocou uma tremenda algaravia nas hostes de governistas e assemelhados próximos ou distantes.

A primeira voz, claro, é do condestável da República, o Grande Timoneiro Lula, que é ao mesmo tempo inventor e sustentáculo do governo Dilma e mentor da “oposição por dentro” aos apertos orçamentários que ela precisa mas não consegue fazer.

Lula disse que o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P “não significa nada”. Quando a S&P deu o grau de investimento ao Brasil em 2008, ele mesmo disse que estavam dando ao Brasil um “atestado de país sério”. Quando foi que ele falou bobagem: ontem ou em 2008? Não éramos sérios antes ou não somos agora?

Mas o diz-e-depois-desdiz de Lula não significa nada, diante do histórico de contradições que compõem sua trajetória de metamorfose ambulante.

Significativo é que a declaração de Lula tenha sido feita num momento em que ele estava em Buenos Aires ao lado de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, simbolizando que o caminho para a “argentinização” da nossa economia talvez esteja mais perto do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

Nelson Barbosa, o ministro do Planejamento, disse que a decisão da agência de risco foi “uma surpresa”. Parece que todos sabiam, menos o ministro que planeja.

A algaravia ganhou a participação especial do heróico ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chamado a dar explicações sobre o rebaixamento da nota do Brasil ao Jornal da Globo, ancorado por William Waack, que o bombardeou com perguntas incomodamente pertinentes.

Levy, com aquele olhar levemente vagotônico de quem não entende bem como é que foi parar no meio de um governo sem eira nem beira, onde é visto como uma borboleta num formigueiro, se pôs a recitar algumas banalidades, tipo:

“A baixa popularidade é uma possibilidade de aumentar ela”. Ou: “O rebaixamento (da nota) do Brasil é apenas uma avaliação”. Ou ainda: (A Operação Lava Jato) é uma coisa bacana do Brasil”.

Mas essas não foram as frases mais chocantes de Levy. Para o dia seguinte ao do programa da Globo, ele guardou a iguaria mais fina:

“Os brasileiros devem encarar o aumento de impostos como um investimento.”

Essa frase foi demasiada até para um extraterrestre como Joaquim Levy, tanto que ele nem tentou dar-lhe um sentido. Limitou-se a dizer que “o país agora precisa trocar a fiação” e que o governo vai tomar algumas medidas até o fim do mês. Quais medidas? Um mistério.

O governo está estudando aumentos de impostos que não tenham que passar pelo Congresso, simplesmente porque pelo Congresso não passariam. Nem Renan Calheiros nem Eduardo Cunha, presidentes das duas casas do Legislativo, querem ter algo a ver com as desgraças econômicas do País, embora parte da responsabilidade pela aprovação de projetos arrasa-quarteirão dos cofres públicos tenha que ser dividida com eles.

Também do Congresso, que ultimamente tem produzido mais escuridão do que luz, veio o protesto do deputado petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, que não levou a sério o rebaixamento da nota do Brasil “por aquela agenciazinha lá do fim do mundo”. (Nota: José Guimarães nasceu em Quixeramobim.)

Mas do meio da tremenda algaravia produzida pela nota da Standard & Poor’s (que no dia seguinte, por sinal, rebaixou também a classificação da Petrobrás), o silêncio que se tornou mais eloquente foi o da presidente Dilma. Um silêncio ensurdecedor.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 11/9/2015. 

2 Comentários para “Nota baixa”

  1. É a Globo que dá ao Brasil uma nota de mau pagador.
    São os jornalistas da Globo, como Bonner e Waack, que dizem que a nota é um ‘atestado de mau pagador’.

    ISSO É MENTIRA E ESCONDE INÚMEROS INTERESSES.

    CALOTE NELES! ENTÃO.
    Entre todas as patifarias ideológicas vomitadas pela Velha Mídia, sobretudo pela TV Globo, relativamente às decisões das chamadas agências de risco, a mais sórdida é a que define a nota emitida por elas como um atestado de bom ou mau pagador. Ora, como se pode dar atestado de mau pagador antes que se saiba que a empresa ou país pagaram suas obrigações? Seria um atestado de não pagamento futuro? Se é assim, é melhor para o país que não pague agora; assim, ficará com algum dinheiro em caixa para eventualidades!

    QUAL A NOTA DO BOM PAGADOR E A NOTA DO MAU?
    É claro que isso tudo é um absoluto nonsense. Não há a mais remota possibilidade de o Brasil suspender o pagamento de suas dívidas em função do que dizem as agências de risco. Temos reservas internacionais de quase 400 bilhões de dólares. É verdade que, sobretudo por erros acumulados na política cambial do passado, e sobretudo por causa da estúpida taxa de juros, temos também muitas dívidas externas de curto prazo. Contudo, o balanço nos é ainda favorável. E não precisamos, para isso, de nota de bom pagador de agências de risco.

    A NOTA DA GLOBO MERECE VAIA!
    O fato extraordinário de que não é a agência, em si, que usa essa terminologia – ela libera apenas uma nota -, mas a forma como a TV Globo, por sua conta e risco, “explica” a nota. São os jornalistas da Globo, como Bonner, que dizem que a nota é um “atestado de mau pagador”. Como consequência, caindo a nota, perdemos o status de bom pagador mesmo que nada nos tenha sido cobrado e a economia funcione como antes.

    NÃO SABEM DE NADA, MAS NÃO SÃO INOCENTES!
    NOTA BEM AFERIDA OU OPINIÃO!
    A embromação não para aí. A nota das agências é um expediente tremendamente arbitrário. Se tivesse um mínimo de cientificidade não teria havido o desastre de 2008, no qual todas as agências de risco – rigorosamente, todas – haviam dado nota de “bom pagador” AAA a empresas, bancos e títulos que, por suas fraudes, quase destruíram o sistema financeiro mundial. Sob aperto do Congresso para explicar o que, afinal, havia acontecido, todas combinaram a mesma resposta: O que fizemos foi dar nossa opinião, mais nada.

    QUAL O INTERESSE DA GLOBO?
    Então qual é a razão para a Grade Imprensa dar tanta atenção às agências? Simplesmente porque elas funcionam como a vanguarda dos interesses financeiros, e são os interesses financeiros que dão suporte à Velha Imprensa. No caso atual, a agência está dando um sinal para que o Governo brasileiro mantenha taxas de juros básicas extorsivas e estrangule o orçamento público para tapar o déficit primário, irrisório em relação ao orçamento como um todo, o qual, caso mantido, não traria qualquer consequência negativa para a economia real.
    É a Globo que dá ao Brasil uma nota de mau pagador.

    MENTIRAS DOS WILLIAMS.
    São os jornalistas da Globo, como Bonner e Waack, que dizem que a nota é um ‘atestado de mau pagador’. Isso é mentira e esconde inúmeros interesses.

    O VAIA SE ENGANA E NOS ENGANA.

  2. Democracia ou liberdade? (em todos os significados possíveis das palavras)

    A questão verdadeira deveria ser: “como essas coisas podem ser mesmo ‘possíveis’, ao longo prazo, sob a dominação capitalista?” O capitalismo este monarca absolutista, intolerante e anti-democrático.
    Os governantes quer sejam, de direita, “extremo-centro” ou pseudo esquerda, quer sejam conservadores, democratas cristãos ou social-democratas, eles servem fanaticamente ao poder de veto de Sua Majestade o Capital Financeiro Internacional.
    Em outras palavras, nossa esperança para o futuro é a indignação popular, e os movimentos sociais, que estão em ascensão, particularmente entre os jovens e mulheres, em muitos países. Para os movimentos sociais, está ficando cada vez mais óbvio que a luta pela democracia é contra o neoliberalismo e, em última análise, contra o próprio capitalismo, um sistema antidemocrático por natureza, como Max Weber já apontava, cem anos atrás.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.