Dias tristes

Não consigo compreender a explosão de alegria no plenário da Câmara ao saber que Eduardo Cunha acolhera o pedido de impeachment contra a presidente da República.  Ela, incompetente e arrogante, ele, um parlamentar acusado de corrupção, vinham travando uma batalha há meses, cada um preocupado com seu destino, nenhum dos dois preocupado com o Brasil. Não vejo motivos para alegria.

Da minha parte, fiquei triste. É o início do verão do nosso desconsolo. A corda do cabo de guerra – com barganha dos dois lados – esticou de tal modo que esfiapou e anteontem acabou por arrebentar. Agora teremos mais paralisia ainda, pois a economia que já está em seu nível mais perigoso, terá que aguardar toda a longa tramitação do processo de impeachment. Que não é pequeno.

O duelo entre dona Dilma e Cunha foi uma vergonha. Seja lá qual for o desfecho, o fato é que os inúmeros passos dos combatentes são uma mancha da qual não nos livraremos, nem tão cedo.

Dona Dilma, no mais curto discurso que fez à Nação desde que recebeu a faixa pela primeira vez, procurou se fazer de vítima impoluta de um algoz, cujo nome ela não cita, que é puro pecado. Eduardo Cunha se apresenta como um Sir Galahad com a armadura enferrujada. Declarou não ter nenhuma felicidade no ato que praticava: o pedido de impeachment da presidente!

Ela, a presidente, só sabe dizer que é honesta. Como se isso fosse uma qualidade extraordinária. Dona Dilma com certeza pensa que desonesto é só quem bate carteiras ou assalta bancos. Era bom que alguém lhe dissesse que enganar eleitores, como ela fez para vencer na última campanha, é desonesto.

Do lado dele, confesso, é muito estranho, mas cada vez que Eduardo Cunha se aproxima de um microfone quando está dentro do Congresso, eu me lembro do filme O Iluminado, de Stanley Kubrick, e fico com a mesma sensação de medo. Não sei se é seu olhar fixo, se é seu sorriso frio, se é o ambiente daquela Casa que devia ser do povo, mas que é tudo, menos isso. Sei lá, o que sei é que fico com medo.

Lula, Dilma e o PT se gabam das conquistas sociais nestes últimos doze anos. A maior delas: a possibilidade de cada família brasileira abrir um crediário para poder comprar os eletrônicos e o carro que lhes dá a ilusão de ter ascendido à classe média. Possibilidade que agora se esvai.

O ex-presidente bate no peito para dizer que nunca ninguém criou tantas universidades quanto ele.  Só esqueceram de lhe dizer que universidade não é só o prédio: é muito mais do que isso e esse muito mais não foi lembrado…

Alias, por falar na figura do ex-presidente em exercício, era melhor ele ter continuado calado do que dizer o que disse ontem aqui no Rio: que o pedido do impeachment é uma insanidade. De quem? De quem cutucou o homem-bomba com um longo alfinete ao não acreditar do que ele era capaz, ou dele, do cutucado?

Estamos numa fase negra: inflação desembestando, parcas conquistas sociais se desfazendo, o desemprego a níveis impressionantes, a fome começando a bater nas portas e, além disso, tudo, o maior inimigo à solta, o aedes aegypti.

Essa, que deveria ser a maior preocupação dos brasileiros preocupados com o futuro, com certeza vai ficar congelada à espera do resultado do processo de impeachment.

Ou você, leitor, acha que algum dos grão-duques da Nação vai parar para pensar na devastação feita por esse infeliz mosquito que se vale das precárias condições de saneamento em que muitos brasileiros vivem? Ou que só vão pensar em esmagar ou em incensar o crescimento do processo que começou ontem?

Como comemorar, seja lá o que for, Natal, réveillon, carnaval, impeachment, Olimpíadas, sabendo que até agora já são mais de 1.200 os bebês abatidos pelo zika vírus?

Dias tristes, isso sim.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 4/12/2015. 

6 Comentários para “Dias tristes”

  1. Tristes dias. Muito cinismo, a direitona que flertou com Cunha, bateu panelas, fabricou pixulecos, agora cinicamente se omite e se exime da prática do golpe. Agora, hipocritamente, escudam-se através das virtudes democráticas e do devido processo legal. Tinham um objetivo, estão prestes a alcançar, golpearão a presidente, e as conquistas sociais serão minimizadas por governo sucessor. A velhacaria quer se eximir desde já da responsabilidade pelo desemprego, redução do bolsa família, prouni, mais médicos, minha casa minha vida,acesso á classe média, escolas técnicas, entre outras medidas populistas que não foram de forma alguma dádiva dos governos e sim concessões para não perder os anéis.
    São pequenas conquistas que os próximos governantes não poderão revogar sob pena de se serem execrados pela opinião pública e não pela mídia golpista de sempre.
    O recuo do governador de São Paulo em relação a sua regressiva política educacional mostra e alerta os atuais golpistas, cuidado, muito cuidado, não se engana o povo o tempo todo.
    Dilma, Cunha, PT , abandonaram o povo, a direita e a classe média sempre fizeram pouco do povo.
    O povo repudia o cinismo. Vamos para a ruais!

  2. Não podemos esquecer que o pedido de impeachement é de autoria de Bicudo e Reali. Cunha é apenas um ex-integrante do esquema de poder petista, ocasião em que teve oportunidade de também participar do butim. Porém, ele desagradou a máfia quando se rebelou e ousou buscar uma posição mais relevante, derrotando o candidato petista a presidente da Câmara. Nos últimos dias, para salvar Dilma, o PT tentou atrair Cunha, com a promessa de retirar a corda do pescoço dele. Mas parece que Lula preferiu queimar Dilma para ver se salva o PT. Só não podemos é cair na conversa petista de transformar o impeachment pedido por Bicudo em obra do Cunha. Eles sabem que não seria fácil bater em Bicudo. Por isso disfarçam e batem num cachorro morto.

  3. Caríssimo tucano. A incompetência fez a oposição se valer dos dissidentes da esquerda tradicional. Tristemente vejo Gabeira e Ferreira Gullar e agora Hélio Bicudo servindo à direita. O trabalho levado ao presidente da câmara não poderia ser coisa de tucanos, foi feito por verdadeiro indignado! Bicudo, REALE e advogada Janaína Paschoal fizeram a obrigação com força! O corajoso Bicudo não merece as críticas dos próprios filhos e nem da militância petista.
    A política é terreno para profissionais, Dilma sente na carne as consequências de sua incompetência e habilidade política. Mirar contracunha mostra sua inabilidade guerrilheira, deveria mirar contra os golpistas representados momentaneamente pelo
    lamentável senador Aécio, que será descartado no momento propício. No momento atual. Ponto para os golpistas que detestam ser assim chamados.
    O suicídio de Vargas foi uma renúncia histórica. Que Dilma renuncie mas que seja com um tiro no coração dos golpistas. Dilma deve sair atirando! O povo ficou com Vargas e aniquilou os golpistas da UDN. Que o povo possa aproveitar o espólio do falecido petismo.

  4. Não vejo com tristeza, mas sim com orgulho e esperança, o fato de nessa multidão de meliantes que povoam a cena política brasileira, ainda sobreviverem pessoas íntegras e corajosas como Gabeira, Gullar e Bicudo. Os três são inteligentes e têm cultura política e histórico suficientes para não serem usados por qualquer corrente política. Quando denunciam o PT, inclusive chamando-o de máfia ou de quadrilha, eles estão servindo é ao Brasil, defendendo a democracia e o princípio da honestidade. Estão revelando ao Brasil o que presenciaram dentro do partido. Além deles, também saíram correndo do PT, quando conheceram sua verdadeira face, gente de qualidade, como Christovam, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo Delgado, Erundina, Eduardo Jorge e muitos outros. Bicudo afirma que depois da saída dos intelectuais e da esquerda católica, só ficou no PT a máfia sindical, segundo ele, capaz de mentir, difamar adversários, roubar e até matar para se manter no poder e não perder suas benesses. Diz que conheceu Lula pobre, morando num apartamentinho, e hoje se envergonha ao perceber que ele virou um multimilionário. O sociólogo Chico Pereira, fundador do partido, que conviveu muito com Lula, diz que ele não tem caráter, nunca foi de esquerda e não passa de um oportunista capaz de qualquer coisa pelo poder. Essas duas entrevistas podem ser encontradas no YouTube. Outro fundador, Paulo de Tarso, conta que quase apanhou dos capangas de Dirceu quando, ingênuo, tentou denunciar o mensalão ainda em seu início, durante reunião do partido. Foi muito ameaçado, impedido de falar e expulso. Confessou que teve muito medo ao ver o que aconteceu com Celso Daniel. Hoje, só restaram no PT nulidades como Sibá Machado, Edinho Silva, Berzoini e Dilma Rousseff. Pessoas que não sentem o mínimo constrangimento de se associarem a Maluf, Collor, Sarney, Calheiros, Lobão, etc. Tudo somado, deixo aqui o meu delicado protesto por ver você, Miltinho, achar apropriado desqualificar Gabeira, Christovam, Gullar, Plínio, Paulo Delgado e muitos outros, inclusive fundadores do partido, para defender o elenco de mediocridades e de fichados na polícia que hoje integram o PT,

  5. Tucanos odeiam ser chamados de golpistas. Incompetentes resolvem se valer dos dissidentes para amealhando-lhes a histórica para fazer frente ao partido moribundo. Sem o alimento para o seu ódio os tucanos morrerão todos após consumado o golpe legal e constitucional. O golpe agora é coisa de Bicudo e não de bicudinhos coloridos.
    Sinto imenso orgulho quando a direita reacionária se rende a nomes como Plinio, Cristóvão, Paulo Delgado, Erundina, Eduardo Jorge, Ivan Valente, os Chicos, todos eles o Buarque, o Alencar e o Pereira. A direita sempre se ressentiu da grandeza dos nomes citados e de muitos outros que sempre combateram à esquerda independente de siglas partidárias. Falando em grandeza me veio a lembrança de Darcy Ribeiro porque seria?

  6. PT E A ESQUERDA. A ESQUERDA E O PT..

    Por Rui Martins
    Texto publicado originalmente no Correio do Brasil, 28/11/2015, sob o título ” Esta não é a nossa esquerda!”

    Marx e Trotsky achavam que a corrupção no governo era uma consequência lógica do capitalismo, onde as empresas para escoarem seus produtos e as empreiteiras para ganharem obras públicas lançam mão das propinas.

    Para ambos, a maneira de se evitar a infecção e propagação da corrupção nos países socialistas seria a de entregar o governo aos trabalhadores com salários médios de um operário para exercer essas funções. Trotsky não chegou a testar sua receita anticorrupção mas o comunismo não conseguiu impedir que a corrupção chegasse aos burocratas e aos dirigentes, mesmo se, como acontece na China, vez ou outra um processo por corrupção derruba e leva à prisão altos dirigentes.

    Na França e na Alemanha, os casos mais flagrantes de corrupção ao nível partidário ou governamental envolveram tentativas de financiamento de partidos. O maior e mais famoso envolveu o CDU partido democrata cristão alemão e o chanceler Helmut Kohl. Para financiar suas campanhas eleitorais o partido mantinha diversas contas secretas, caixas dois, financiadas até por empresas estrangeiras envolvendo armamentos, empreiteiras e petróleo. O próprio presidente francês François Mitterrand teria autorizado a empresa Elf Aquitaine a fazer doações secretas para favorecer a reeleição de Helmut Kohl.

    O fio do novelo que levou à queda de Helmut Kohl foi a descoberta pelo rigoroso fisco alemão de uma vultosa soma, um milhão de marcos alemães, não declarada pelo ex-tesoureiro do CDU, partido de Helmut Kohl. Como no processo brasileiro da Lava Jato, cada caso de fraude e caixa dois leva a outro, envolvendo empresas estrangeiras italianas e suíças até chegar ao chanceler Helmut Kohl. Apesar de suas insistentes negativas, Kohl acabou sendo obrigado a se demitir. A lição deve ter servido para o CDU, pois não existe mais a suspeita de corrupção, quando esse partido retornou ao poder com a atual chanceler Angela Merkel.

    Há dois anos, foi o prefeito de Montreal, no Canadá, o demitido e processado por corrupção, num momento em que a imprensa local falava em corrupção generalizada, esta nem sempre ligada ao financiamento de partido.

    Na França, o ex-primeiro-ministro Alain Jupé e atual prefeito de Bordeaux, chegou a ser condenado num processo por corrupção, ligado a financiamento de partido,e passou algum tempo impedido de exercer cargo público.

    A tentação de permanecer no poder é sempre grande e estimula em alguns partidos a idéia de obter financiamentos ocultos e não declarados. Estes casos estariam próximos do nosso « Mensalão », pois o dinheiro recolhido tem só o objetivo de financiar o funcionamento do partido e suas campanhas eleitorais.

    Já não se pode definir como financiamento de partido, quando certos políticos negociam facilidades e vantagens para certas empresas ganharem concorrências públicas, ficando com eles mesmos as propinas obtidas. É o caso do nosso « Petrolão ».

    Uma diferença fundamental existe entre esses casos citados e o Brasil – nesses países onde tem ocorrido casos de corrupção, a Justiça tem toda liberdade de agir sem se criar no país um clima de crise institucional.

    No Brasil, a descoberta do Mensalão, solução encontrada para o PT governar mas até hoje negada pelo partido, quase provocou a queda do presidente Lula. O atual caso do Petrolão, novamente negado contra todos os fatos pelo PT, estimula uma campanha contra o Judiciário, incompreensível para quem
    está de fora. E acontece on inacreditável – a maioria dos processados corruptos é considerada vítima pelos próprios eleitores pobres petistas, manipulados para não verem que o rombo da corrupção nas empresas públicas vai custar caro para o Brasil e indiretamente para todos os contribuintes.

    O cenário, como já escrevi em outra oportunidade, tem tudo de uma ópera bufa ou palhaçada, tantos são os argumentos furados e esfarrapados utilizados pela direção petista para ludibriar seus seguidores. No caso atual, da prisão do senador Delcídio, chega a provocar risos a rapidez com a qual a direção petista tentou desvincular o senador corrupto do seu partido, mesmo sendo ele o líder da bancada petista no senado.

    Para a esquerda brasileira, esse festival de bandalheira que assola o país é, além de desolador, uma tragédia, porque o PT nascido com a estrela vermelha esquerdista vai estigmatizar, se já não estigmatizou, toda tentativa de esquerda para recolocar o país nas reformas sociais e dentro dos valores éticos normais. É também dramático porque os petistas, ao invés de cobrarem de seus dirigentes esse vergonhoso desvio, insistem em reafirmar sua confiança no partido, culpando a grande imprensa e a oposição, recusando todas as evidências de corrupção. Ou então justificam, afirmando ter sido a mesma coisa nos governos anteriores, numa inesperada perversão ética.

    Outros dizem serem obrigados a desculpar tudo isso, em favor da plataforma de mudanças sociais feitas no país pelo PT. Houve realmente grandes avanços no Brasil em favor da grande parte da população antes excluída, mas o trabalho não foi concluído e com a virada econômica do atual governo, muita coisa pode se perder. O Brasil viveu bons momentos nos últimos anos em grande parte pelas importações chinesas de nossas matérias primas. Entretanto, infelizmente o Brasil seguiu a velha cartilha e não aproveitou essa fase de progresso para desenvolver ou construir suas bases e estruturas industriais, satisfazendo-se com a euforia do consumismo proporcionado pelas ajudas sociais.

    Infelizmente esse quadro internacional favorecendo exportações a bons preços acabou. Teremos muitos anos magros pela frente que poderão provocar agitações sociais e a esquerda, hoje estigmatizada p0ela corrupção, terá dificuldade para se afirmar junto ao povo. Só uma alternância no poder permitirá o processo de depuração necessário, para que a verdadeira esquerda surja com seus verdadeiros projetos sociais de mudanças.

    Está na hora de todas as esquerdas brasileiras se unirem para desmistificar a farsa atual decorrente da mentira eleitoral. É inadmissível se justificar ou se continuar aceitando esse escandaloso acordo pelo qual Cunha não é cassado por corrupção para garantir não haver impeachment.

    Essa dita esquerda que está aí não é a minha esquerda. Que também não seja a sua.

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