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Renato Pompeu devia estar mesmo muito doente, pois anteontem, sábado, queixou-se a um amigo que não tinha vontade de ler. Renato Pompeu dedicou sua vida ao jornalismo, a ler e escrever. Publicou 22 livros, e resenhou um número incontável de obras. À noite passou mal. Levado para um hospital, morreu às 10h de ontem, aos 72 anos, de causa ainda não determinada. Talvez septicemia, infecção generalizada do organismo.

zzrenato1Andava muito feliz. Em outubro concluiu um curso à distância e se formou em História. Tinha encontro marcado com um professor para tratar da pós-graduação.

Renato marcou sua passagem por redações de jornais e revistas (Folha de S.Paulo, Jornal da Tarde, Veja, entre outras) não apenas pela qualidade do seu trabalho, mas por suas tiradas surpreendentes, às vezes desaforadas. Durante desentendimento com seu superior na Folha, Leão Serva, disse-lhe: “Leão, indubitavelmente você é o rei dos animais”. Serva achou graça, e passou a repetir o episódio.

Sua capacidade de resenhar livros surpreendia. Fernão Mesquita, então diretor de redação do Jornal da Tarde, recorda: “Ele deglutia um livro de 400 páginas em uma noite”. Perguntou-lhe como conseguia a proeza. “Disse que ia devagar nas primeiras 40 páginas, para entender o esquema mental do autor; depois era fácil.” E as resenhas, diz, “eram impecáveis”.

Fernão também experimentou o estilo do redator Renato. Certo dia, entrou na sala do diretor e disse que queria se demitir. Fernão respondeu que, se ele quisesse não podia impedi-lo. O redator resolveu-se por ficar, mas apresentou uma série de exigências, uma delas ter uma cadeira exclusiva para si.

Fernão concordou. Lembra que Renato escrevia seu nome atrás da cadeira. E todos viam que ficava muito zangado quando um colega a levava para usar.

Renato não escondia que sofria de esquizofrenia. Em anos passados, quando sentia aproximar-se uma crise, ia a um hospital e se internava. Passada a crise, voltava ao trabalho. Não teve nenhum problema ao contar episódios da internação, em uma entrevista a Jô Soares. A platéia a princípio estranhou sua voz grave e a fala pausada. Mas logo não conseguia parar de rir com a forma irônica com que descreveu os fatos.

Nas redações, os jornalistas procuravam se esmerar em fazer títulos criativos para as matérias. Certo dia, quando se falava sobre isso, Renato disse (com sua voz grave e pausada): “Eu sonho em dar o seguinte título: leia a matéria abaixo”.

Em certa redação surgiu um problema, durante a ditadura, com um repórter de uma sucursal. Tinha ido ao comando do Exército acusar um jornalista. O diretor da revista reuniu seus editores. Concluiu-se que o fato era verdadeiro, mas alguém disse que o colega deveria ser poupado, porque certamente estaria fora de si. Surge a voz de Renato: “Eu protesto. Sou louco, mas nunca dedei ninguém”.

Na virada de 1960 para 1970, Renato teve militância ativa contra o regime militar. Seu sobrinho Sérgio Pompeu diz que foi preso e torturado no DOI-Codi, instalação de repressão de São Paulo. “Apesar do seu jeitão, participou de algumas das ações.” Sérgio conta que sua avó escondia os livros do filho no forro da casa.

O jornalista e escritor morou em uma república com, entre outros, o cineasta Jorge Bouquet e a atriz Sônia Braga. “Diziam que não era um lugar underground, mas overground”, recorda um amigo. Em entrevista, a atriz lembraria esses fatos e as tiradas criativas de Pompeu.

Em certa época, Renato entrou como sócio em uma farmácia, existente no térreo do prédio em que morava. A clientela tinha direito a brindes literários. Quem gastava pouco, levava um texto já escrito. Gastos maiores, davam direito à cópia de texto mais elaborado, com a assinatura do autor. E quem consumia muito, podia dar o tema que uma história seria especialmente elaborada com ele.

Por muitos anos, Renato morou em um apartamento da Rua Cardeal Arcoverde. Um corredor levava ao interior da casa, mas era mais do que isso. Nas paredes, havia bandeiras de times de futebol do interior, destacando-se as da Ponte Preta, de Campinas – o do coração.

José Maria dos Santos, editor-responsável do Diário do Comércio, para o qual Renato colaborava com suas resenhas, diz que o jornalista “tinha uma visão cultural do futebol”. Torcedor fervoroso, e dono de memória impecável, tinha lembrança de jogadores como Bipe e Pitico, e de Oscar, da Seleção brasileira, que haviam se destacado também na Ponte Preta.

Nos anos de 1980, Renato Pompeu e José Guilherme Melchior, critico literário e ensaísta, se envolveram em acirrada polêmica, que rendeu textos em jornais. José Maria descreve Pompeu como “um cometa reluzente em ambientes restritos”.

“Pertenceu a uma família de grandes jornalistas.” O pai, alto, elegante, era diretor de revistas do grupo Visão. Os filhos Sérgio, falecido, e Renato, seguiram-lhe o caminho. Sérgio Pompeu, filho de Sérgio, também se destaca na profissão.

Renato nasceu em Campinas, mas viveu em São Paulo. Fez o curso de Ciências Sociais da USP, que não pôde terminar. Ganhou três prêmios Abril e um Esso de Jornalismo. Em 1960, entrou no curso de ciências sociais da USP e no mesmo ano começou a trabalhar como jornalista. De seus 22 livros, destacam-se Quatro Olhos, de ficção, e Memórias da Loucura, de não ficção.

O amigo Marcos Fernandes Gomes, também jornalista, encontrava-se todo sábado com Pompeu – na casa de um e de outro, alternadamente. Marcos havia organizado em sua estante de livros, todos os de Renato. “Ele estava ansioso para ver.” Há um mês, Renato informou a Marcos que estava relendo Em Busca do Tempo Perdido, de Proust.

Todo dia, Renato ligava para o amigo para comentar o trecho que acabara de ler. “Se eu não estava, ele deixava mensagem, e toda vez repetia o número de seu telefone.” No último sábado, um compromisso de Renato impediu o encontro.

Sérgio Pompeu, o sobrinho, contou que ontem, apesar de não se sentir bem, o tio atualizou seu blog. “Ele vinha se queixando, na última semana, de estar com moleza. Pensávamos que era por causa do calor.” Anteontem à tarde os dois se falaram. “Tudo bem?”, perguntou Sérgio. “Tudo bem”, foi a resposta.

No fim da noite, a empregada notou que Renato estava com febre alta e confusão mental. Foi levado a um hospital, depois a outro, com deficiência respiratória aguda e febre de 41°C. Pouco depois de chegar, faleceu.

Por pouco escapou do clichê da crônica policial, que Renato jamais escreveria: “Faleceu ao dar entrada no hospital”.

Este texto foi publicado no Diário do Comércio em 10/2/2014. 

4 Comentários para “Leia a matéria abaixo”

  1. LI A MQTÉRIA ACIMA.
    Delícia, Valdir mostra que jornalistas não são deuses pretensos detentores da verdade. A verdade é que são gente, humanos da melhor espécie.

  2. Belo texto sobre uma figura muito interessante, Valdir. Aqui tem Brasília, em vez de uma farmácia, temos um açougue cultural. Todos podem retirar livros da estante, que fica na calçada. Mas é prudente devolvê-los e também doar alguns exemplares ocasionalmente, pois não se deve entrar em atrito com açougueiros. O açougue promove ainda o Encontro com Escritores, um bate-papo com escritores locais e que também já recebeu gente de renome, como Ignácio Loyola, Frei Beto, Zuenir Ventura, Marina Colassanti,entre outros. Duas vezes por ano acontece a Noite Cultural, com apresentações na rua (aqui chamamos de Superquadra) de cantores como Geraldo Vandré, Erasmo Carlos, Belchior, Flávio Venturini, além de artistas locais. Os Shows, gratuitos, atraem para a frente do açougue um público entre 10 e 15 mil pessoas. Tudo começou em 1994, quando Luis Amorim, o proprietário, teve a idéia de emprestar livros para os clientes da loja se distraírem enquanto aguardavam o atendimento. A mania de emprestar livros levou Amorim a criar finalmente a incrível Parada Cultural, que mantém trinta e cinco pontos de ônibus com bibliotecas em toda a Avenida W3 Norte, cada uma com cerca de 600 livros. Funcionam 24 horas por dia, sem ninguém vigiando. Ao todo, elas emprestam diariamente dois mil livros. O passageiro pode ler enquanto espera o ônibus e, se achar o livro interessante, levá-lo para ler em casa ou nas outras viagens. Depois, é só recolocá-lo na estante de qualquer parada da W3 Norte. Para retirar livros, ninguém precisa ser sócio ou ter carteirinha. Por mais impossível que pareça, muito raramente alguém deixa de devolvê-los. Luis Amorim era engraxate e analfabeto até os 16 anos. Leu o primeiro livro aos 18. De engraxate passou a ajudante de açougueiro, em 1987, e ganhou um lugar para dormir na loja. Provavelmente era um sujeito esforçado, pois naquele tempo não existia bolsa de nada – nem mesmo bolsa açougueiro: um dia os proprietários colocaram o açougue à venda. Amorim juntou suas economias, fez um empréstimo bancário e acabou comprando o estabelecimento e criando essa maravilha. Logicamente o açougue tem uma enorme e fiel clientela e recebe muitas doações de livros. Como você pode ver, Miltinho, Brasília não é só política. Aqui também tem gente que presta.
    PS: para seu conhecimento, espanto e inveja, Miltinho, quando o brasiliense fala em artistas locais, modestamente está se referindo a Renato Russo, Zélia Duncan, Ney Matogrosso,Cassia Eller, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Raimundos, Natiruts,Osvaldo Montenegro, etc, tudo gente que nasceu ou começou a carreira aqui.
    PS do PS: Para você, Miltinho, não achar que Brasília é só corrupção, não posso deixar de citar pratas da casa como Oscar Smith e seu irmão Tadeu Smith, Nelson Piquet, Kaká e Lúcio da Seleção, Ana Paula Padrão, os atores Mateus Solano, Murilo Rosa, Juliano Cazarré, Patrícia Pillar, Alcione Mazzeo, Maria Paula (do Casseta e Planeta), Tande, Paula Pequeno e Leila do voley, o corredor Joaquim Cruz e muitos outros. E não me acuse de bairrista, Miltinho: nasci no Rio.

  3. Neste espaço pessoas como Valdir e Luis Carlos me trazem conhecimento, me espantam e me causam uma inveja verdadeira. Sou carioca e não acho que Brasília é só política pelo contrário as pessoas citadas acima, mais o Luiz Carlos e Luis Amorim, dão a cidade projetada por execrado comunista, onde Galdino Jesus dos Santos foi incendiado por
    jovens brasilienses, uma característica idêntica a RIO, SP, BH, etc…a violência urbana cotidiana. Luiz e Luis melhoram Brasília, qundo eu for fazer um rolêzinho por lá vou visitar a Praça do Compromisso, o açougue cultural e conhecer a luisada. Na ocasião levarei, como doação, uma coleção dos Pensadores que teima em ocupar espaço em uma estante qualquer.

  4. Luiz Carlos, esse seu texto é uma total delícia. E informativo: eu nunca tinha ouvido falar nessa atividade cultural toda junto de açougue de Brasília! Esse texto tem é que ser publicado, com título e destaque!

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