Palavras que o vento não leva

Em 2003, numa cena patética nos corredores do Congresso, Maria do Rosário e Jair Bolsonaro discutiram em termos bem pouco edificantes.

Indefensáveis os dois, em minha opinião.

Agora, nove anos depois, Bolsonaro, essa figura saída das sombras de 64, ao discursar em plenário, falou:

— Não saia, não, Maria do Rosário, fique aí. Fique aí, Maria do Rosário. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei que eu não estuprava você porque você não merece. Fique aqui para ouvir.

Foi ótimo ele julgar nove anos como poucos dias. Assim, ele não vai poder fazer coro com os que dizem que 64 é coisa do passado. Não é. É coisa de sempre, que marcou profundamente o Brasil não somente pelas barbaridades cometidas pelo Estado contra presos indefesos, como pelo cultivo cuidadoso da Impunidade.

Às vezes, temos uns surtos de indignação e reagimos à falta de decoro em nosso Parlamento.  Às vezes, no entanto, somos lenientes em demasia.

Em 2006, Angela Guadagnin foi penalizada pela sua ridícula “dança da pizza”, quando rebolou no plenário da Câmara para comemorar a absolvição de um colega de partido. Num dos tais surtos de indignação que às vezes o Brasil demonstra, ela não foi reeleita deputada federal.

Não foi o que o Rio de Janeiro fez com a figura deletéria de Jair Bolsonaro que revelou considerar a tortura um método eficiente para obter confissões.  Não contente com essa revelação infeliz, ele agora se disse capaz de estuprar, se achasse que sua vítima merecia entrar no rol dos merecedores de um estupro.

Numa semana que tinha tudo para ser de alívio e festa, com a quebra de um silêncio revoltante e a luz do sol que entra pelas janelas que recém começam a ser abertas e iluminam o passado, Bolsonaro ofendeu seus eleitores.

O Rio vota muito mal há muito tempo, mas estou certa que não escolheria um estuprador.

Será que, na reforma política que tanto se faz necessária, não dá para criar a figura do recall para eleitos que não merecem estar onde estão?

Sem muita burocracia, apenas um voto na mesma urna eletrônica que os enviou para o Parlamento?

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 12/12/2014.

2 Comentários para “Palavras que o vento não leva”

  1. Bolssonaro fala o que pensa, é autêntico pelo menos. Pena que no Rio muitos pensam como ele e votam nele.

  2. Ao Miltinho:

    Devo retornar ao Século XII para relatar o aprendizado do Khan, ao chegar ao poder mongol absoluto:

    Aprendeu a ter COMEDIMENTO. Aquele que foi mais assassino do que o Hitler soube se envolver pela arte da diplomacia. Teve embaixadores e os enviou, embora com maus resultados, ao Usbequistão.

    O Bolsonaro (chamado de “Bolsa” por LGBTs) deveria aprender alguma coisa com os mestres Hitler e Ghinggis Khan.

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