O realismo mágico

Gabo morreu e deixou aí o seu realismo mágico.

Falta um narrador de sua qualidade literária para descrever a espécie de Macondo em que se transformou a novela da Petrobrás, desde o momento que emergiu a tenebrosa história da compra da refinaria de Pasadena até o capítulo da CPI que o governo quer transformar, como Nizan Guanaes quer fazer com a Copa, na CPI de todas as CPIs.

Tudo começou com a posse de Graça Foster, funcionária de carreira da Petrobrás, de perfil marcadamente técnico, engenheira química de formação, na presidência da empresa, em fevereiro de 2012, em substituição a José Sérgio Gabrielli.

No discurso de posse prometeu “metas mais realistas” no planejamento da empresa, demitiu quatro diretores diretamente ligados a Gabrielli, mandou rever todos os contratos referentes a projetos fundamentais aprovados pelo seu antecessor e deixou um certo tom de perplexidade no ar — afinal de contas para um acionista meia palavra basta.

Prometer metas “mais realistas” não deixa margem a outra leitura: as metas que estavam no planejamento eram irrealistas.

A imprensa, na época, procurou explicar a que se referia a nova presidente, falou nas metas não cumpridas, e antes que os ânimos se acirrassem um pouco além do que é conveniente à convivência política entre criaturas políticas gêmeas, ainda que não univitelinas, apareceu a turma dos panos quentes.

Graça amenizou a sua linguagem, e para responder à exacerbação de quem atribuía a ela “a desconstrução da gestão Gabrielli” (que durara 7 anos), fez novos discursos dizendo que a sua gestão seria “uma gestão de continuidade”. Comme il faut.

Depois que se tornou público o episódio da refinaria de Pasadena, a diplomacia político-empresarial da gigante petrolífera voltou a derrapar e os pelos dos gatos ficaram eriçados de novo.

A presidente da República, que na época de Pasadena era presidente do Conselho da Petrobrás, disse que baseou seu voto favorável num parecer técnico (na verdade um sumário executivo, um resumo do contrato) “falho e incompleto”.

Gabrielli demorou mas respondeu dizendo que a presidente deveria “assumir suas responsabilidades” na aprovação do negócio e Graça Foster, depondo no Senado, foi enfática: definitivamente, não foi um bom negócio.

No meio do caminho, um diretor preso pela PF, um diretor demitido em plenas férias, e algum anjo Gabriel tocando as cornetas na tentativa de hipnotizar a platéia defendendo, contra todas as evidências e os depoimentos de todos os envolvidos, que, afinal, foi um bom negócio “para a época”. (Para quem? — persiste o mistério).

O governo, a Petrobrás, a base aliada em sua luta contra a CPI exclusiva, reafirmada pelo STF, cabem no realismo mágico que Gabo retratou assim na página 261 de “Cem anos de solidão”: “Dotados de recursos que em outra época eram reservados à Divina Providência, modificaram o regime das chuvas, apressaram o ciclo das colheitas e tiraram o rio de onde ele sempre esteve”.

 Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 25/4/2014. 

Um comentário para “O realismo mágico”

  1. Se fosse uma PETROBRAX não haveria CPI. Para descrever nosso Macondo nada como um Merval.
    Quem assistiu ao depoimento da Graça Foster entendeu bem, hoje a compra da refinaria foi evidente mau negócio, ou seja o que na época parecia bom, com o passar do tempo e novas condições técnicas e comerciais, se tornou péssimo!Se empresa fosse privada.como a VALE, não se cogitaria de analisar o resultado, vide a derrocada de Eike Batista e sua OGX. Em Macondo os recursos divinos estavam com os poderosos de plantão! Sai Gabrieli entra Graça, sai Dilma…

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