No corredor da morte

Glenn Ford tinha 38 anos quando foi condenado à morte. Agora, aos 64, depois de passar 26 anos, 9490 dias, 227.760 horas numa cela à espera que o Estado cumprisse a sentença do Tribunal e o matasse, foi liberado e sai do corredor da morte um homem livre. E rico. Será indenizado com uma quantia que pode ir de U$25 mil a U$250 mil “por ano perdido e mais U$ 80 mil pela perda das oportunidades na vida”.

Entre as oportunidades que perdeu na vida será que contabilizaram a oportunidade de ver seu filho, que era um bebê quando ele foi preso, começar a andar, aprender a dizer papai, correr para ele ao fim do dia para um abraço apertado, fazer a barba pela primeira vez, se apaixonar pela menina da casa ao lado, cantar no chuveiro, dançar, chorar e rir muitas vezes?

Não vou repetir aqui as perguntas tolas que lhe fizeram, tipo “o que você está sentindo?”, “guarda ressentimentos?” Não creio que o Blog do Noblat mereça que eu faça isso. O que importa é saber que Ford foi injustamente condenado, teve péssimos advogados e é negro, o que, como se sabe, ainda pode ser um agravante nos estados do sul dos EUA.

Não foi essa obviedade que me levou a escrever sobre Glenn Ford e a crueldade que sofreu. Foi o aumento da violência em nosso país. Crianças sendo torturadas e queimadas, pais matando filhos, netos matando avós, adolescente seviciando a namorada e filmando a cena para divulgar em redes sociais, crimes que, por Deus, nem sei como classificar. E a cada vez mais recorrente “só mesmo a pena de morte”. Frase que expeli uma vez, aqui mesmo, e da qual me arrependo até o mais fundo de minha alma.

Em um dos bons programas da BBC, o Hard Talk, o entrevistador Stephen Sackur recebeu o Dr. Allen Ault, psicólogo, ex- Diretor do Departamento de Execuções do Estado da Georgia. Data do programa: 23/02/2014.

Segundo o entrevistador, a maioria dos entrevistados entra no estúdio em guarda, suas defesas preparadas. Mas Dr. Ault simplesmente enfrentou as câmeras e desnudou sua alma. E Sackur disse mais: “esse foi um dos testemunhos mais dolorosos, pungentes e corajosos que jamais ouvi”.

Durante a entrevista, muitas vezes ele parecia esquecer onde estava e revivia as terríveis experiências que viveu. “Ainda tenho pesadelos”, confessou. “É a mais premeditada forma de assassinato que você pode imaginar e ela fica na sua mente para sempre”.

Assassinato. Essa palavra dita pelo homem que fora responsável pela morte de cinco condenados, era inesperada. O que aconteceu com Allen Ault? O que aconteceu com esse leal servidor do sistema judiciário americano que o transformou num apaixonado combatente contra a pena de morte?

Foi justamente coordenar e assistir à execução das sentenças. Talvez a que mais o afetou tenha sido a de um rapaz de 17 anos, Christopher Burger, uma mente nem sadia nem doente e que fora condenado por estupro com requintes de crueldade, e por assassinato.

Burger ficou 17 anos no corredor da morte e Dr. Ault viu a transformação que ele sofreu. O jovem recebeu aulas na cadeia e seu cérebro desenvolveu e amadureceu. Ele era culpado de um crime hediondo, sim, mas aos 34 anos estava desesperadamente arrependido.

Ao descrever a execução de Burger, as palavras do Dr. Ault e mais ainda seus silêncios angustiados mostraram que duas décadas depois, a carga de remorso e culpa ainda o martirizam. “Pude ver o choque da eletricidade correndo por seu corpo. Sua cabeça foi jogada para trás e depois foi o silêncio total … e eu sabia que o tinha matado”.

Por que você não se demitiu?

Foi o que eventualmente fiz, ele sussurrou.

Mas já era tarde?

Sim. E vivo a vida arrependido por cada momento e cada assassinato.

Isso foi em 1995. Desde então Dr. Ault faz terapia para aceitar-se a si mesmo e desculpar-se pela tremenda culpa que carrega. Hoje, é um dos mais ardentes defensores do fim da pena de morte nos EUA e rejeita terminantemente a ideia de que a pena capital seja o fato que evitará novos crimes. Além de achar que nenhum governo tem o direito de condenar um de seus funcionários a se martirizar pelo resto da vida por cometer assassinatos, embora autorizados pelo Estado.

Se quiser assista o Hard Talk com o Dr. Ault. Tem 24m25s e está em inglês:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=r8xrGCVrENk

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 14/3/2014.

6 Comentários para “No corredor da morte”

  1. Como seria um concurso público para carrasco no Brasil? Quais seriam os pré-requisitos?
    Na verdade, o caso do nosso amigo com nome de astro de cinema, assim como o de outros recentemente libertados por exames de DNA, é mais um argumento contra a pena de morte. Além da possibilidade de erro judicial, a execução em si é desumana. Se fizermos um plebiscito aqui, por causa da enorme impunidade, dará pena de morte na cabeça. Mas não com meu voto: sou um ateu contra pena de morte, qualquer que seja a idade da vítima, o que inclui, portanto, as crianças vítimas de aborto. Com ou sem pena de morte, sempre haverá assassinatos. O que o Brasil precisa é acabar com a impunidade, aplicar penas mais rigorosas e que sejam realmente cumpridas, e não encurtadas por uma série de benefícios. O criminoso precisa saber que corre o risco de ser punido severamente. Saber que o Estado considera que uma vida humana tem muito valor. Precisa pensar duas vezes antes de puxar o gatilho. E, se for menor, precisa saber que o Estado não o tratará como um retardado.

  2. “Para não ser um ato de violência contra o cidadão, a pena deve ser essencialmente pública, pronta, necessária, a menor das penas aplicáveis nas circunstâncias dadas, proporcionada ao delito e determinada pela lei”.

    Bom reler “Dos delitos e das penas” de César Becharia.

  3. NO CORREDOR DA MORTE.
    No Brasil, um homem está a mais de 50 anos no corredor da morte. Desde 1964 esteve na mira da repressão, ultrapassou os anos de chumbo, combateu o capitalismo e foi condenado impiedosamente por um tribunal de alma negra. Aguarda no corredor da morte a sua pena capital para satisfação dos seus opositores.

  4. Miltinho, essa aí escapou da minha capacidade de compreensão. Você poderia nos esclarecer a quem você se refere? Seria o Comandante Dirceu? O Comandante Genoíno?
    Sérgio

  5. Tanto faz. Mas objetivamente o condenado ao corredor da morte é o “comandante(?)” Genoíno. Creio que não sairá vivo, pena capital para quem sempre militou à esquerda.

  6. Com relação aos petralhas, não cabe aboná-los agora. Se o presente deles é podre, convém a punição, mesmo que antes tenham buscado a emancipação do povo brasileiro. Ponto.

    Vamos ao zeitgeist das ruas:

    Vários conhecidos falam em pena de morte como única punição, em golpe militar como solução etc. São simples trogloditas que desconhecem princípios básicos de civilização.

    Não sou expert em temas penais, mas uma bela SOLUÇÃO seria a adoção de colônias agrícolas, onde o apenado iria, pela primeira vez na vida, trabalhar em prol do coletivo, a este fornecendo frutas e hortaliças, em vez de ficar o dia inteiro em celas às nossas custas – até porque passar anos numa maldita cela é degradante; mais interessante é que os presos ocupem suas mentes de um modo construtivo.

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