Na beleza de um, a beleza do outro

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Ela meteu-lhe os dedos à boca e salvou-lhe a vida. É bom que se saiba que eles se ama­ram. Podem não se ter amado em géne­ros, mas fosse qual fosse o amor que se tive­ram, Eli­za­beth Tay­lor e Mont­go­mery Clift amaram-se. O coup de fou­dre aconteceu-lhes em A Place in the Sun, filme encan­de­ado pela beleza dos ros­tos deles.

Fil­ma­vam Rain­tree County e Liz e Clift tinham jan­tado em Hollywood, acom­pa­nha­dos por Kevin McCarthy, actor, casado, pai de filhos, dizem que amor de Clift tam­bém. Dei­xa­ram Liz em casa, no topo de uma colina, uma estra­di­nha trai­ço­eira. Monty, como Liz o cha­mava, con­du­zia mal com’ ò cara­ças – tinha ausên­cias ao volante e Kevin vinha no carro dele, à frente do carro de Monty, para ele não se despistar.

O des­tino é um argu­men­tista melo­dra­má­tico e já esta­mos a ver o carro de Monty enfai­xado, retor­cido monte de lata con­tra um poste ou uma árvore, sabe-se lá. Kevin, his­té­rico, vol­tou a casa de Liz. O metro e cin­quenta de Liz enfiou-se, cheio de oh meu amor e medo, pelo vidro tra­seiro e con­se­guiu puxar o incons­ci­ente Monty, um feio ras­gão da sobran­ce­lha à boca, nariz que­brado, o maxi­lar infe­rior des­go­ver­nado, caverna de san­gue no lugar dos den­tes. Sentindo-o sufo­car, Liz abre-lhe a boca, mete lá den­tro dois dedos aman­tes e tira os den­tes par­ti­dos que lhe entu­piam a garganta.

Amava-o. Quando os fotó­gra­fos che­ga­ram, disse-lhes que se o foto­gra­fas­sem nunca mais fariam uma foto­gra­fia em Hollywood. E não há uma única foto do rosto des­pe­da­çado de Clift.

Clift viveu uma ator­men­tada homos­se­xu­a­li­dade, dizem. Qual tor­mento! No viri­lís­simo Red River, filho adop­tivo de John Wayne, Clift vive a coisa com humor e boa pon­ta­ria. A cena é com John Ire­land, seu amante durante as fil­ma­gens. Tro­cam de revól­ve­res – “mostra-me o teu que eu mostro-te o meu” e cada um aca­ri­cia o revól­ver do outro. “Mas que linda pis­tola que tu tens”, e já estão aos tiros a uns alvos que fazem voar e des­fa­zem no ar, em puro júbilo afirmativo.

O tor­mento de Clift começa, sim, na noite do aci­dente. Apavorou-o, amargurou-o a perda da pele lisa, desse olhar azul, implo­ra­tivo, a pedir que esti­vés­se­mos sem­pre do lado dele.

E se amava Liz Tay­lor era por­que a beleza dela era o espe­lho da beleza dele. Em Sud­denly Last Sum­mer, último filme que fize­ram jun­tos, Clift já fecha os olhos para não ver nos olhos dela os des­tro­ços da sua beleza per­dida, irremediável.

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Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Um comentário para “Na beleza de um, a beleza do outro”

  1. Muito bom. Pela primeira vez consegui saber detalhes sobre o acidente que deformou o rosto do Montgomery Clift. Nem imaginava que ele tinha sido socorrido por Liz Taylor. O episódio daria um bom filme.

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