Emmylou conta a tragédia de Lillian

A história de Lillian, moça pobre do interiorzão bravo, daquele lugar de fim de mundo de terra vermelha, é triste a não mais poder. É uma daquelas histórias de gente que não teria saída nenhuma na vida mesmo – estava fadada a ser tragédia.

Faz lembrar um conto de Luiz Vilela, escrito num momento em que o autor estava miseravelmente pessimista, que começa assim: “Deus sabe o que faz, e por isso a criança nasceu cega”.

Talvez não seja esta a frase exata – eu a transcrevi sem consultar o livro, só pela memória, com todo o risco de não ter sido literal ao lembrar a abertura de um conto mais de meio século depois de lê-lo.

zzemmylou1A história de Lillian do interiorzão do Alabama de terra vermelha é triste como a da criança que nasceu cega, na imaginação do escritor mineiro de Ituiutaba. Triste, desesperançpada e desesperada como as histórias de tantos personagens fadados à miséria e à tragédia criados pelo curitibaníssimo Dalton Trevisan.

São, todas elas – a história de Lillian, aquela história de Luiz Vilela, as tantas histórias de Dalton Trevisan –, belos contos, essa forma literária aparentemente simples (ah, é só uma historinha curta, um desavisado poderia dizer), e na realidade tão difícil de se fazer com maestria.

A única diferença é que a história de Lillian é um conto que tem melodia. Foi escrita por Emmylou Harris, essa artista fantástica, surpreendente, única.

***

O conto, a canção, se chama “Red dirt girl”. Eis o texto aí, em toda sua tristeza – e sua beleza esplendorosa. Em seguida, tentarei fazer uma tradução, próxima, embora não literal, mas que, evidentemente, terá muito pouco da beleza do original:

Me and my best friend Lillian
And her blue tick hound dog Gideon,
Sittin on the front porch cooling in the shade
Singin every song the radio played
Waitin for the Alabama sun to go down
Two red dirt girls in a red dirt town
Me and Lillian
Just across the line and a little southeast of Meridian.

She loved her brother I remember back when
He was fixin up a ’49 Indian
He told her ‘Little sister, gonna ride the wind
Up around the moon and back again”
He never got farther than Vietnam,
I was standin there with her when the telegram come
For Lillian.
Now he’s lyin somewhere about a million miles from Meridian.

She said there’s not much hope for a red dirt girl
Somewhere out there is a great big world
Thats where I’m bound
And the stars might fall on Alabama
But one of these days I’m gonna swing
My hammer down
Away from this red dirt town
I’m gonna make a joyful sound

She grew up tall and she grew up thin
Buried that old dog Gideon
By a crepe myrtle bush in the back of the yard,
Her daddy turned mean and her mama leaned hard
Got in trouble with a boy from town
Figured that she might as well settle down
So she dug right in
Across a red dirt line just a little south east from Meridian

She tried hard to love him but it never did take
It was just another way for the heart to break
So she dug right in.
But one thing they don’t tell you about the blues
When you got em
You keep on falling cause there ain’t no bottom
There ain’t know end.
At least not for Lillian

Nobody knows when she started her skid,
She was only 27 and she had five kids.
Coulda’ been the whiskey,
Coulda been the pills,
Coulda been the dream she was trying to kill.
But there won’t be a mention in the news of the world
About the life and the death of a red dirt girl
Names Lillian
Who never got any farther across the line than Meridian.

Now the stars still fall on Alabama
Tonight she finally laid
That hammer down
Without a sound
In the red dirt ground

***

Sem a beleza do original, seria algo assim:

Eu e minha melhor amiga Lillian e seu cachorrão Gideon, sentados na varanda da frente, nos escondendo na sombra, esperando que o Sol do Alabama descansasse. Duas garotas vermelhas de poeira em uma cidade vermelha de poeira, eu e Lillian, no limite da cidade, um pouco ao Sudeste de Meridian.

Ela amava o irmão dela; me lembro de quando ele estava consertando um Indian de 49, e dizia para ela, “irmãzinha, vamos viajar através do vento, até a Lua e de volta”. Ele nunca foi mais longe que o Vietnã. Eu estava lá quando o telegrama chegou para Lillian, e agora ele está a um milhão de milhas de Meridian.

Ela dizia que não há muita esperança para uma garota vermelha de poeira, e que em algum lugar lá fora há um mundo grande, e é pra lá que eu vou, e as estrelas podem cair sobre o Alabama, mas um dia desses eu vou sumir desta cidade de poeira vermelha, vou fazer um som alegre.

Ela cresceu, ficou alta e magra, enterrou o velho cachorro Gideon no quintal. Seu pai ficou ruim e sua mãe apanhou. Se meteu em problema com um garoto da cidade, imaginou que poderia sossegar, e então fincou raízes num lugar de poeira vermelha logo ao sudeste de Meridian.

Fez de tudo para amá-lo, mas não deu certo. Era só outro jeito de seu coração quebrar, e então ela se enfiou naquilo.  Mas tem uma coisa que  não contam pra você sobre a tristeza, é que quando você a pega, você fica caindo sempre, porque não tem fim, pelo menos para Lillian.

Ninguém sabe quando ela começou a derrapar de vez. Com apenas 27 anos já tinha cinco filhos. Pode ter sido a cachaça, podem ter sido as pílulas. Pode ter sido o sonho que ela estava tentando matar. Mas não vai sair no jornal nada sobre a vida e a morte de uma garota vermelha de poeira chamada Lillian que nunca foi além dos limites de Meridian.

***

zzemmylou2Emmylou nasceu, sim, no Alabama, Sul Profundo, aquela coisa igual à África do Sul no tempo do apartheid. Mas nasceu em cidade grande, em Birmingham, e não numa cidadezinha pequena, perdida no meio do nada.

Emmylou é da minha geração: nasceu em 1947. Isso significa que, quando os Estados Unidos aboliram definitivamente as leis segregacionistas que ainda estavam em vigência no Sul Profundo, em 1964, ela tinha 17 anos. Viveu sua adolescência num lugar em que preto não podia ir ao mesmo banheiro que branco.

Emmylou tem um carreira solo de brilho, como pouca gente tem. Paralelamente, acompanha outros artistas, divide seu talento com outros. Foi a melhor segunda voz de Bob Dylan, aquele taquara rachada terrível que, ao cantar junto com  Joan Baez, parecia fazer questão de mostrar que sua voz era uma coisa horrorosa, pavorosa, assassina de canções.

Sempre tive certeza de que, ao cantar ao lado de Joan Baez, Dylan usava o pior do pior do pior que sua traquéia poderia exibir, só pra não ficar bonito. Para impedir que ficasse bonito.

No disco Desire, de 1975, Emmylou foi a segunda voz – e não há,  ao longo de toda a imensa, longa, sem fim carreira de Dylan,  coisa mais bela, em termos de vozes que se complementam, que se comprazem, que se juntam, que as de Dylan e Emmylou.

Emmylou é uma artista gigantesca que finge que nem percebe que é. Fez segunda voz para Bob Dylan, para Neil Young, gravou em trio com Dolly Parton e Linda Ronstadt.

Faz segunda voz para Mark Knopfler.

zzemmyloumarkNa verdade, fez um axé maravilhoso com Mark Knopfler. Reuniram-se inicialmente num projeto multi-artistas, um disco em homenagem ao Santo Hank Williams, de 2001. Gostaria de saber quem ali conquistou quem, quem se apaixonou perdidamente pelo talento de quem – mas o fato é que o melhor guitarrista do mundo e a mais perfeita cantora de country do mundo se reuniriam em 2006 no disco All the Roadrunning. Fariam em seguida uma turnê, que resultaria num novo disco, ao vivo, Real Live Roadrunning Live.

Nessa turnê, Emmylou cantou “Red Dirt Girl”, que havia gravado inicialmente em seu disco solo de 2000, o 27º de sua carreira, e que leva o título exatamente dessa canção.

É um momento em que Mark Knopfler se retira do centro do palco, que ele ocupa durante quase todo o tempo. Afasta-se do centro do palco, toca seu violão acústico extraordinário, como tudo que toca – e o centro do palco, neste momento, é de Emmylou.

Emmylou é uma das coisas mais maravilhosas que já vi na vida.

25 de novembro de 2014

Há no YouTube várias gravações de “Red Dirt Girl”. Aí vão duas:

Ao vivo no festival Farm Aid de 2005.

Ao vivo em Verona, na Itália.  

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