De volta ao passado

Quem apostou suas fichas no mantra “governo novo, ideias novas”, pode perder as esperanças. Pelo andar da carruagem, o movimento do governo Dilma se dará no sentido contrário, ou seja, um mergulho no passado em busca do modelo que assegurou os anos de bonança do governo Lula.

Claro, os tempos de vacas gordas da era Lula tiveram muito a ver com o céu de brigadeiro da conjuntura internacional. Eles representaram uma oportunidade de ouro onde o Brasil poderia ter completado as reformas estruturais, mas as condições favoráveis foram desperdiçadas.

Para não falar do quanto seu governo foi beneficiário da estabilização promovida por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

Os tempos são outros. Os ventos que varrem a economia mundial são tempestivos, há um profundo desarranjo das contas públicas, a economia anda de lado, quando não anda para trás. E os indicadores sociais mostram retrocessos inaceitáveis.

Para tentar reverter o quadro, Dilma tem de apelar para uma fórmula antiga, que ela sempre rejeitou: ortodoxia na economia, com a escolha de uma equipe com credibilidade perante os investidores, e modelo de governabilidade tipo guarda-chuva onde cabe todo mundo.

A alternativa seria o aprofundamento da deterioração da economia e das finanças públicas com mais intervencionismo, mais congelamento dos preços administrados, mais subsídios e mais empréstimos do BNDES a grupos empresariais amigos do Rei.

Essa receita Dilma usou no primeiro mandato e deu no que deu.

A “Realpolitik” está levando a presidente a se render ao pragmatismo lulariano: disputa-se eleição com um discurso e governa-se de maneira oposta.

Nesse modelo há espaço para o braço esquerdo do lulo-petismo, mas como penduricalho.

Assim foi na era Lula. Enquanto Palocci e Meirelles ditavam a política econômica, os movimentos sociais foram “contemplados” com Secretarias com status de Ministérios, mas irrelevantes, de peso pena. Ou foram cooptados pela via do amancebamento, pelo acesso às benesses das verbas públicas.

Mas isto não passou de uma quinquilharia quando comparado à parte que coube aos partidos tradicionais na repartição do latifúndio estatal, haja vista a esbórnia operada nas poderosas diretorias da Petrobrás.

O novo ministério começa a ser formado. O Henrique Meirelles de hoje chama-se Joaquim Levy, o homem que pode acalmar o mercado e que provavelmente votou em Aécio. E o Gilberto Carvalho do segundo governo de Dilma será Miguel Rosseto, a quem caberá a missão receber bem os movimentos sociais e dar tapinhas nas costas de lideranças sindicais.

O Incra e o Ministério do Desenvolvimento Agrário ficarão com a esquerda petista, tocando a reforma agrária com o mesmo passo de tartaruga desses últimos 12 anos. O que pesará mesmo na balança será Kátia Abreu no Ministério da Agricultura.

O modelo está desenhado.  A conferir se o retorno ao passado é factível. Ou se a busca pelo elo perdido será mais uma aventura da presidente Dilma.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/11/2014.

Um comentário para “De volta ao passado”

  1. Joaquim Levy, o homem que pode acalmar o mercado, coloca a opoaição de cobertor curto, ou cobre a cabeça ´com que pensa ou conbre os pés com que chuta. Dilma desagradou o PT e flerta com o PSDB, precisa acalmar o PMDB e acomodar os aliados que são muitos para poucos ministéros.
    Até quando a governança brasileira ficará refém dos políticos, empreiteiras, banqueiros e rentistas.
    A presidenta tem duas árduas tarefas, encaminhar a reforma política criando uma forma de participação da sociedade e uma reforma da mídia que permita a sociedade seja informada sem o monopólio da verdade.

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