Da agenda do vô (47)

P1120672

No domingo agora, dia 23, Marina, sentadinha na cadeira dela no banco de trás do carro da mãe, olhou para o avô, séria, sem sorrir, e, depois de alguns segundos, levantou o braço em direção a ele. Queria dizer: Me pega pra gente caminhar, vô!

Na terça, dia 25, Marina, sentadinha no cadeirão na cozinha da casa dela, já tendo jantado direitinho (ainda sobravam alguns poucos grãos de comida no prato), olhou para o avô que acabava de chegar, e esticou o braço em direção a ele. Me pega pra gente caminhar, vô!

Algum tempo depois, Marina, do colo do pai dela, esticou o braço em direção ao avô: Me pega pra gente caminhar, vô!

E ainda teve uma outra hora em que, depois de pular na geringonça pula-pula emprestada pelo Tiago da Ana e do Gabriel, e de rir muito, e de dançar, e de dar gritinhos de pura alegria, Marina esticou o braço em direção ao avô: Me pega pra gente caminhar, vô!

No domingo e na terça, Marina deu quatro mostras explícitas de que gosta do avô! Ou, no mínimo, no mínimo, de que associa o avô a caminhadas – prazerosas – com ele segurando as mãozinhas dela.

***

Quando caminha – seja com o avô, com a mãe, com o pai –, Marina demonstra uma alegria fantástica, sensacional.

Dá gritinhos de alegria. Fala aquela língua enrolada de bebê delícia. Olha pra cima pra ver a cara de quem está lá no alto segurando as mãozinhas dela. E, quando me abaixo pra vê-la, a carinha dela está com um sorriso aberto, prazeroso.

O auge da alegria é quando a Cláudia brinca que é um au-au e vai pegá-la. Aí Marina entra em alfa de felicidade. Dá gritinhos felizes, dá passadas largas pra fugir do au-au – e aí pára e vira pra trás pra ter certeza de que o au-au está em seu encalço. Isso feito, se vira pra frente, dá novos gritinhos de alegria e novas passadas largas pra fugir do au-au.

***

Nesta terça, Marina deu três passinhos absolutamente sozinha, lá embaixo, na área do térreo. Depois deu outros quatro passinhos. Só a Cláudia viu.

Deixei a Cláudia desapontada, chateada.

Depois que cheguei, ao final do jantar de Marina, Cláudia me disse que tinha uma novidade para mostrar. Fomos pra sala, Cláudia botou Marina de pé, a alguns passos dela, a alguns passos de mim.

A bonequinha ficou ali, de pé, em cima dos sapatinhos brancos em que está escrito I Love Dad em um e I Love Mom em outro – sapatinhos danados de jeitosos, ingleses, presente do Beto e da Sabrina.

Por mais lindos e mais ingleses que sejam os sapatinhos, fico imaginando que seria melhor ela fazer esses testes descalça, mas tudo bem.

De pé, linda de doer, Marina olhava para a Cláudia, olhava para o avô.

Olhava para um e para outro, pedido de ajuda no rosto lindo. Cláudia incentivava: venha, venha, dê uns passinhos!

Marina estendeu o bracinho pra mim. Quase dei a mão para ajudá-la, mas a Cláudia falou para eu ficar quieto.

Marina fez um chorinho. Quase dei a mão, mas a Cláudia me chamou às falas.

Na terceira vez em que Marina estendeu o bracinho na minha direção, não resisti: peguei a mãozinha dela. Furibunda, Cláudia foi embora pra cozinha.

Avô não tem responsabilidade. A responsa é toda de pai e mãe. Avô tem coração mole, não aguenta ver o bichinho pedir ajuda e ficar frio.

Marina está pertinho de andar. Pertinho. Vai andar dentro de um mês, talvez antes. Mas, se depender do avô, se depender de o avô ter sangue frio para não ajudá-la quando ela pede ajuda, vai demorar. Faz parte inerente da condição de avô ter coração mole e sangue de barata.

Não me lembro quantos meses minha filha tinha quando começou a andar. Merda! Na época, não anotei, não fiz Diário de Fernanda. E é o tal negócio: se não anotou, dançou.

***

Marina não é um bebê precoce na coisa motora, na coisa de se movimentar. Ainda não engatinha – desliza no chão com a rapidez de um Fittipaldi, mas não engatinha. Vai, muito provavelmente, pular o engatinhar. O que não é problema algum. O pai também pulou o engatinhar, foi direto pro andar. A avó materna, que não é de sangue, DNA, mas é do coração, também esquipou o engatinhar – e tanto o pai quanto a avó materna do coração são pessoas um tanto chegadas a um brilhantismo.

À noite, quando contei sobre a netada, Mary comentou que andou lendo um guia de desenvolvimento de bebês na internet, e que Marina de fato não está adiantada nessa coisa de movimentação. No entanto, está adiantadíssima em algumas outras coisas, como, por exemplo, a capacidade de encaixar coisas.

Marina adora encaixar coisas. Tem vários brinquedos de encaixar objetos, e se dá extremamente bem com eles.

Tem uma capacidade fascinante – isso me impressiona há vários meses – de concentração. Concentra-se em um único brinquedo às vezes por períodos bem longos.

Acho isso extraordinário.

Nesta terça, por exemplo, interrompeu uma de nossas caminhadas pela casa para se dedicar à brincadeira de tirar e depois repor na estante vermelha baixinha da casa os seus suportes físicos – uns cinco DVDs e um conjunto de livrinhos. A estante é repleta de suportes físicos dos pais, algumas centenas que eles mantiveram depois da mudança para a casa nova. Marina não mexe no que não é dela: mexe apenas nos que são de sua propriedade, e acho isso também extraordinário: há limites estabelecidos, e Marina os respeita.

Com os suportes físicos de sua propriedade, brinca à vontade. Tira da estante, põe no chão, depois retorna com eles para a estante.

Na terça, apegou-se especialmente a um dos livrinhos, um que tem figuras de animais de fazenda, identificados pelo nome e pelo ruído que fazem. Há a vaca com o muuuu, o cachorro com o au-au, e assim por diante. Marina pegava o livrinho, passava uma página e olhava para nós (naquele momento, éramos três a babar por ela – o pai, num momento longe do trabalho, a Cláudia e o avô) e esperava que cada um de nós contasse para ela a historinha daquela página de livro. E então dizíamos o nome do bicho, e imitávamos a fala dele.

Marina ora entregava o livrinho para um, ora para outro, ora para outro. E às vezes ela também fazia o ruído dos bichos. O ruído do porco, deve ter aprendido com a Cláudia, mas o fato é que o oinc que ela faz é muito mais próximo ao dos porquinhos do que o que o avô sabe fazer.

Marina já folheia livros. E sabe que os adultos contam histórias a partir das páginas dos livros.

***

Não sou chegado a ficar imaginando a inteligência das crianças. Muito ao contrário. Até porque aprendi muito cedo, com minha então professora e que depois seria minha amiga para sempre Vivina, que a inteligência não é o valor primordial. Quando a gente é muito jovem – aprendi com Vivina, e jamais esqueci –, aprecia quem é belo. Depois, ali pela adolescência, passamos a admirar quem é inteligente. Mais tarde, quando amadurecemos (bem, se amadurecemos, é claro), passamos a entender que o valor mais importante não é a beleza ou a inteligência, e sim o caráter, a bondade, a generosidade.

Então, não fico muito preocupado em averiguar medidas de inteligência da minha neta. Não me interessa saber se ela terá Q.I. isso ou aquilo, se será tão brilhante quanto o pai, quanto a mãe. Claro que fico feliz por ela se demonstrar esperta, inteligente no mínimo como a média. Mas sei que estes não são os valores que mais importam.

Sólo le pido a Dios que Marina seja uma pessoa de bom caráter, uma pessoa de coração generoso. Exatamente como foi a avó materna que se foi tão cedo sem que se conhecessem.

Ela será, com toda certeza.

E o que dá para saber desde já é que Marina, assim como o avô com quem ela gosta de caminhar antes de saber caminhar sozinha, não conhecerá o tédio. Marina já demonstrou, à exaustão, que tem uma maravilhosa capacidade de concentração, e que é curiosa. Dá para apostar: Marina sempre vai querer aprender mais e mais.

Tem temperamento bom, sabe se concentrar, é curiosa. Está garantido: não saberá o que é tédio.

Muito provavelmente será feliz.

 26 de março de 2013

4 Comentários para “Da agenda do vô (47)”

  1. Bom texto Servaz, original, criativo, intimista e singelo!

    A foto da Marina, mostra a descendëncia, a testa do avô, olhos da mãe e a boquinha sem sombra de dúvidas do pai. A blusa verde remete a esperança de todos nós que amamos as duas!

    Marina nos influencia para o bem, para frente, ao futuro, afasts influências maléficas, pessimistas e destruidoras,
    instintivamente diz: ME PEGA VAMOS CAMINHAR!

  2. Marina, você é muito fofa! E sabe de uma coisa? O seu olhar não me engana: você sabe das coisas!
    Muitas beijocas,
    tia-bisa Maria Helena

  3. Oi, Sérgio, tudo certinho?
    Primeiramente, que lindo texto e que linda a menina Marina.
    Então, Sérgio, eu gostaria muito de entrar em contato com você. De verdade. Tem como você me passar um e-mail que cê tá sempre checando as mensagens? Agradeço desde já!

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.