Aqui os sinos não dobram mais

(…) a morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte da humanidade; assim, nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti. John Donne (1572-1631)

Somos diariamente feridos pelas notícias que vêm do Oriente Médio. Morrem às centenas, fuzilados, apedrejados, enforcados, bombardeados, decapitados. São guerras intermináveis, brutais, e o mundo dito civilizado, pranteia esses mortos.

Dos EUA recebemos, mês sim, mês não, notícias de tragédias inomináveis. As últimas vêm de Ferguson, Missouri, a morte de mais um jovem negro; e do Arizona, o relato sobre uma menina de nove anos que, em uma aula de tiro, treinava com uma submetralhadora quando perdeu o domínio sobre a arma e feriu mortalmente o instrutor.

As notícias, horrendas, rendem matérias na TV e nos jornais e já chorei com a mãe de um americano que pede pela vida de seu filho em mãos desses medonhos militantes do ISIS. Também já me surpreendi – para meu absoluto horror – desejando que uma bomba atômica acabasse com esse tal ISIS…

Nenhum homem é uma ilha, disse o poeta e pregador John Donne, mas sinto que aqui no Brasil estamos nos transformando em ilhas, sem alma, sem sentimentos. O que dói em você não dói em mim. E vice-versa.

As dezenove mortes no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, sobretudo as decapitações, escandalizaram, mas nenhuma medida séria foi tomada, tanto que já houve nova leva de decapitações.

Na cadeia de Cascavel, no Paraná, a 500 km de Curitiba, uma rebelião só terminou depois de mais de 45 horas, cinco mortos (dois atirados do telhado, dois decapitados, um cuja causa mortis não é conhecida) e sete desaparecidos, que ainda não se sabe se foram soterrados ou se fugiram.

O americano decapitado pelo ISIS era um jornalista que estava lá a trabalho. Os decapitados em Pedrinhas e Cascavel eram presidiários que certamente não estavam lá por roubar flores.

Não sei se seus algozes são brancos, negros ou pardos, usam panos na cabeça exatamente como os assassinos do ISIS.

Ao ler sobre as decapitações em Pedrinhas, associei a selvageria à ignorância e miséria do estado nordestino. Mas vem Cascavel para me desiludir: o Paraná é um estado rico e era tido por mim como um dos mais civilizados de nosso país.

Angustia saber que o noticiário que vem da Síria, do Iraque ou dos raios que os partam incomoda e perdura mais do que o que acontece em nossas prisões, verdadeiras masmorras medievais, sem higiene, sem trato algum, sem nada para aquelas pessoas fazerem, entra dia sai dia, durante anos, a não ser se odiar e odiar seus carcereiros.

Vamos votar em outubro. É urgente saber dos candidatos o que pretendem fazer a respeito desse câncer que nos corrói.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 29/8/2014.

 

2 Comentários para “Aqui os sinos não dobram mais”

  1. Destaque do texto:…”desejando que uma bomba atômica acabasse com esse tal ISIS”.

    Se isto viesse a acontecer a diplomacia anã iria condenar porque seria “força desproporcional”.

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