Vagando e divagando no carnaval

Passeio de carro pelas ruas vazias de gente e carnaval. Sei que é cedo ainda para os blocos se espalharem pelos vários cantos da cidade. A festa está crescendo por aqui, cada bairro organizando sua folia, a animação reúne vizinhos, amigos e famílias para as comemorações regadas a marchas e sambas de sempre.

Parece que, além de repetir o que se fazia antigamente, as pessoas se cansaram de ver e querem participar. São manifestações alegres, afastadas de qualquer violência.

Dá até para saborear algumas cervejas; quem pula no bloco não dirige. Os donos dos botequins esfregam as mão de contentamento, os quatro dias não são mais tempo de casa fechada.

Mas no meu caminho não há nada, só imaginação. Parado no sinal, vejo o prédio da Federação das Indústrias. Onde se ergue a construção moderna havia uma casa da Prefeitura que distribuía um sopão para os mendigos. Não havia exploração política, tanto que nem me lembro ao certo se era municipal mesmo ou particular aquele lugar bendito que alimentava os necessitados.

Sei que, voltando de minhas peladas, descia pela avenida e me encontrava com os homens e mulheres descansando à sombra dos fícus enormes. Chegavam um pouco antes da hora da comida. Depois de alimentados descansavam e, em seguida, seguiam seus rumos. No outro dia estavam de volta.

Havia o carnaval da timidez e do lança-perfume. Flertava-se à distância, mas cadê coragem para abordar a menina? Era preciso que a prima puxasse o medroso para o meio do salão. Misturado à confusão de samba e marcha-rancho, um ímpeto o levava a segurar uma das mãos da loura ou da morena e, com o consentimento dela, abraçá-la e sair bailando como se dono do mundo fosse. A felicidade daquele momento permaneceria por muito tempo, muito além de Momo, mesmo que a garota morasse em outra cidade ou bairro distante. Isso era até um alívio, pois evitava as formalidades de bater à sua porta, ficar com ela, puxar conversa que não julgava saber iniciar nem prosseguir. E se tivesse de falar com a os pais dela?

Isso seria demais para seu acanhamento.

Com o tempo tudo se ajeita. O primeiro amor e a primeira namorada é uma experiência que começa muito antes do encontro definitivo. Há um temor e um tremor antecipados , um sofrimento de incerteza quanto ao sucesso da investida. Mais saboroso, evidente , do que a tensão que cerca a primeira fala em público ou, ainda mais, o primeiro cantar em público.

Muita gente tira, ou parece tirar , isso de letra. Desinibidos, voluntariosos, destemidos.

Mas devagar ele chegou lá. Do seu jeito, calmamente, sem alarde ou propaganda, quase em silêncio. Silêncio como o dessa rua na manhã de domingo de carnaval.

Não há nem buzina, embora ele não tenha visto que o sinal está aberto.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em fevereiro de 2013. 

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