Três livros

Não alcanço as palavras justas para dizer de minha admiração pela Vera Brant, minha prima querida. Sua casa é paraíso da inteligência, sensibilidade e amizade. Recebi pelo correio seu mais recente presente, um livro com sua correspondência com Alice Brant, pseudônimo de Helena Morley, autora da obra-prima Minha vida de menina.

A conversa das duas é uma lição de vida, de carinho e bondade. A simplicidade e sabedoria de Alice, aquela adolescente de Diamantina que por três anos, de 1893 a 1895, descreveu seu cotidiano com uma genialidade que nos impressiona até hoje, se contrasta com a amiga mais jovem, sedenta de beber da experiência da parente mais vivida. Quanta graça nos casos que nos contam, quanta beleza.

Lido com prazer o livro publicado pela Vera, pego na estante a última reunião de poemas de Antônio Cícero, nosso candidato a imortal da Academia Brasileira de Letras. Em “Porventura”, a voz do poeta apresenta uma visão da mesma questão que, de forma diversa, Alice e Vera expressam em suas cartas. É o balanço do poeta: “a infância não foi uma manhã de sol:/ demorou vários séculos;/ e era pífia, em geral, a companhia. Foi melhor,/ em parte, a adolescência, pela delícia/ do pressentimento da felicidade/ na malícia, na molícia, na poesia,/no orgasmo, e pelos livros e amizades.”

Indo a Lisboa, não me encontrei com um outro poeta, português, mas ele me enviou, por amigos, sua poesia escolhida. Trata-se de José Jorge Letria, em livro síntese de seus quarenta anos de vida literária. Colho em sua obra versos que me encantaram. “ Minha linhagem”, por exemplo: ‘sou de uma estirpe desavinda com a terra/ de uma dinastia de comerciantes/ que vendeu carne aos balcões/ de mármore de bairros populosos e honrados/ de uma linhagem de heróis de bazófia/ de suicidas de fundo de quintal,/ de tias avós dizimadas no viço da idade/ pelas epidemias do alvorecer do século.”

Ou então esse belo “ Contacto”: “Eu chamo-te e não me ouves/ estarás atrás daquela estrela, disfarçado,/ ou oculto numa nebulosa/ à espera da palavra que te resgate?/….era como se as nuvens guardassem/ um sorriso teu no bojo de ventos e de chuvas./ Adormecia tranquilo no agasalho dessa crença/. Guardo numa gaveta de escrivaninha/ a tua carteira, os teus óculos, o lenço/ que usavas no dia que partiste. / E já se vão tantos, tantos anos./ De repente dei pela falta de teus telefonemas,/das perguntas inquietas que me controlavam/ as horas e as errâncias./ Tinhas medo, um medo terrível de me perder,/ e afinal fui eu que te perdi/. Dizem que foi/ a vontade de Deus./ E agora tu já não me ouves. Ou será que ouves/ e que a pequena estrela pálida, trêmula, esquiva/ que me ilumina a manhã é apenas/ uma forma de o céu escrever a palavra Pai?”

Passei a santa semana em boa companhia, longe do mundo e do Brasil da vida real.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em abril de 2013. 

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