Saudade do Vera Cruz

Recebo, por e-mail, um filme antigo do Governo chamado “condenado pelo progresso”. Uma insossa cantilena, com imagens de uma ferrovia quase abandonada, querendo justificar que o desenvolvimento do país não combinava com as estradas de ferro. Quanta mentira já se usou para justificar o injustificável.

O descaso dos vários administradores levaram à ruína um meio de transporte seguro e eficiente transformado em perigoso e antieconômico. O objetivo da peroração oficial era levar os brasileiros da época a concordar com a sentença de morte para mais de quatro mil quilômetros ferroviários.

Houve um tempo em que eu e meus amigos só viajávamos de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro no confortável Vera Cruz. Deixávamos as bagagens na cabine e íamos para o carro restaurante, onde comíamos e bebíamos a alegria e a amizade.

Eram os primeiros anos do regime militar e algumas vezes cheguei a discordar de burocratas da empresa estatal que comandava aquele transporte. Queriam me convencer da inviabilidade econômica do trem. Boas eram as rodovias, que não traziam prejuízo. Mas como não?, eu argumentava. Por acaso elas dão lucro? Pois todas elas eram construídas pelo Estado, custavam caro e necessitavam de constante manutenção. Fortunas do tesouro justificáveis pelo serviço que prestavam. Mas, em termos de dinheiro direto, não davam retorno.

Eram tempos autoritários e estatizantes e nem se cogitava em, nossas terras brasis, de aventar a hipótese de privatizações, de transferir a estrutura cara para a iniciativa privada. Tempos de Brasil grande e grandes obras feitas com o dinheiro de todos nós. Havia privatização sim, mas dos lucros para as grandes empreiteiras contratadas para realizar os sonhos imperiais dos generais.

Modernizar as ferrovias, dando-lhes condições de competir com os transportes rodoviários não passava pela cabeça dos poderosos da época. O Brasil potência que eles imaginavam não comportava essas ninharias, essas pequenas coisas que fazem a vida da gente comum. Acabaram com os pequenos ramais em todo o nosso território e passaram a investir em projetos faraônicos, como a Ferrovia do Aço, que gastou o que a Nação não tinha e com promessa de inauguração sempre adiada e jamais cumprida. Ficaram os esqueletos. E a Transamazônica, que desastre.

O fascínio pelo Brasil potência parece ter renascido. Nem vou falar da transposição do São Francisco, cada vez mais cara e que parece nunca vai ficar pronta e produzir o que se promete e muitos duvidam que virá.

O delírio do milagre de pastel de vento que foram os governos militares volta na forma de um trem bala perdido que prometem atirar em nossas cabeças, projeto que não anda a não ser no que se refere ao aumento do orçamento estimado. Entre este e trens urbanos para as metrópoles, a escolha racional é indiscutível.

Tenho muita saudade do Vera Cruz e nenhuma da Ferrovia do Aço.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em janeiro de 2013. 

3 Comentários para “Saudade do Vera Cruz”

  1. Estado e govêrno. O estado sempre foi desgovernado. As ferrovias são exemplos disto. A malha ferroviária sempre foi considerada decificitária. Privatizadas passaram a dar lucro às empresas. Hoje o lema de uma exploradora é “agente nunca para” alusão a sua eficiência em transportes. porque o estado não é eficiente? Porque não as ferrovias? As estradas? a eficiência?
    O esatado é um trem desgovernado, uai!

  2. Convém abordar o fato de que o setor privado não se mostra entusiasta dos investimentos de longo prazo: aqui, em Manaus, os investimentos em água e energia são, em grande parte, creditados às estatais (Cosama, Eletrobras); ao setor privado sobram os fantásticos lucros, com demanda inelástica.

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