O dr. Ruy chegava anônimo

Ruy Mesquita morreu. Ao ler a notícia, travei. E achei estranho isso. Nunca tive qualquer relação com o dr. Ruy Mesquita, seja no jornal O Estado de S. Paulo, em que trabalhei por alguns anos, na sucursal de Brasília e em São Paulo ou fora dele. Mas claro, não era o Ruy Mesquita, mas Mario Covas, a quem assessorei por quase 10 anos, fora e dentro do Governo do Estado, que me causou a emoção que senti.

Explico.

Rui Mesquita era uma visita frequente quando Covas estava internado no Incor. Esteve lá algumas muitas vezes. Sempre só, quieto, quase imperceptível, não fosse ele Ruy Mesquita. Jamais colocou o nome no livro de visitas que a competente cerimonialista Brasília Arruda Botelho criou para registrar todos que lá iam e que, impedidos pelo estado de saúde do governador, não chegavam perto de Covas, mas ali estavam. Enquanto tinha consciência – e, acreditem ou não foi até pertinho do último dia – Covas gostava de saber quem tinha ido lá. A filha lia os nomes, ele conferia, comentava, gostava.

O nome de Dr. Ruy nunca esteve nesta lista. Mas ele foi lá mais de uma, mais de duas, várias vezes.

Como jornalista do Estadão jamais vi o Dr. Ruy. Antes das idas ao Incor, que fiz questão de ciceronear sem que ele soubesse que eu já tinha trabalhado em seu jornal, estive com ele como assessora de Covas, acompanhando uma daquelas tradicionais visitas de governadores ao jornal.

Ali, na sala da diretoria, vi Covas e Dr. Ruy se digladiarem em torno de ideias. A bem da verdade não lembro o teor do debate, preocupada que estava com as tais relações públicas. Discutiram, foram duros, trocaram divergências, riram e se despediram. Na saída, Covas me disse que admirava democratas da estirpe do Dr. Ruy.  Claro que não disse desse jeito, com essas palavras. Mas didático como gostava de ser, enfatizou o prazer do debate, as diferenças, a riqueza do contraditório.

Covas morreu em 2001. Faz uma falta danada. Dr. Ruy, nesta terça-feira de maio de 2013. Se a democracia já tinha perdido um líder raro, perde agora mais um de seus grandes defensores.

Tempos difíceis virão por aí.

22 de maio de 2013

4 Comentários para “O dr. Ruy chegava anônimo”

  1. Que ricas recordações, querida Mary.
    Ruy Mesquita deve ter sido um sujeito fabuloso.

    Raro quem se porte assim ao visitar uma figura importante internada em hospital. Hoje levariam o fotógrafo oficial a tiracolo!

    Raro é o patrão de quem seus subordinados falam bem.

    Raro o chefão de um grande jornal que tenha tido a sua trajetória.

    Raro um responsável por um jornal que tenha tido sua atuação durante a ditadura. As capas do Estadão eram a nossa válvula de escape.

    É menos um.

    Estamos quase indigentes.

    Tem uns 8 ou 9 Jornalistas que merecem o J maiúsculo da parte dos leitores. Se é que não estou sendo muito Poliana.

  2. Resgatada as anonimas visitas e as divergências Covas/Mesquita. Tempos difíceis com falta de um, nem tanto com a de outro.

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