Jango

Era Semana Santa. Estava em Diamantina, depois de alguns anos de ausência. As mesmas pedras capistranas em que eu corria atrás de bola até meus nove anos estavam lá. As mesmas igrejas, a mesma paisagem, o mesmo povo simples. Diferente era, bares abertos na sexta-feira, o bispo Don Sigaud abençoando (será?) os frequentadores dos botequins. Eu tinha nas mãos uma inofensiva coca-cola, mas também fui atingido pelos gestos episcopais.

Meu irmão, estudante com índole de líder, agitava o seminário religioso com discurso inflamado contra o golpe que se anunciava.

Eu acompanhava os fatos nacionais e tinha uma impressão positiva da ação e das falas do gaúcho João Goulart. Sabia das prometidas reformas de base, que dividiam o país. Era um assunto essencial nos intervalos das aulas do Colégio Estadual. Lia os jornais de casa e assistira pela tevê ao comício do dia 13 de março, no Rio de Janeiro, quando uma multidão aplaudiu os oradores que defendiam as mudanças a serem feitas na estrutura do Brasil.

Já simpatizara, antes, com o jingle cantado por Jorge Goulart na eleição de 1960. “ Na hora de votar eu vou jangar, eu vou jangar, é o Jango, é o Jango, é o Jango Goulart”. Quando houve o plebiscito para se restabelecer o presidencialismo eu também me entusiasmei, mesmo não tendo ainda o direito de votar (sem saber, naquele tempo, que só participaria de eleições nacionais quase trinta anos mais tarde). Torci e cantei: “eu vou fazer um xis no quadrinho ao lado da palavra não, parlamentarismo não, o povo tem razão, eu vou fazer um não.” Em outras circunstâncias, outra realidade e mais conhecimento, eu iria votar no parlamentarismo já em tempos de democracia reconquistada.

Agora que o restos mortais de João Goulart chegam a Brasília, trinta e sete anos após sua suspeita morte no exílio e que seu papel em nossa história é oficialmente reconhecido, eu me lembro de um texto que escrevi para o filme Jango, de meu amigo Sílvio Tendler.

Sinto que vale a pena recordar.

“Os acontecimentos daqueles dias ainda estão claros na memória: fechado no escuro do quarto querendo fugir do mundo que me chegava pelo rádio eu, pouco mais que um menino, chorava como se fosse morte, a viagem-fuga do Presidente Jango. Os anos passados, a maturidade e a visão diária da injustiça e do ódio da opressão e do medo vieram confirmar meus sentimentos. Em nome da verdade e da História eu, adulto, reafirmo o menino: as lágrimas derramadas em 1964 continuam justas.”

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em novembro de 2013.  

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