A paradinha

Há momentos na vida que são tão surpreendentes, mas tão inesperados, que nossa cabeça e nosso coração dão uma paradinha, é coisa de nanosmilionésimos de segundos, mas tudo pára e ficamos meio atônitos…

Comigo aconteceu logo no Dia das Mulheres, logo eu que não sou chegada a festejar esse dia. Por dois motivos, sendo que o que mais me toca é o fato de eu não encontrar nenhuma justificativa para haver um dia das mulheres. Todos os dias são dos homens e das mulheres e dos bichos e das plantas. Mas se tem que haver o das Mulheres, eu acho que tinha que haver o dos Homens. Questão de preferência da minha parte… Sempre preferi os meninos…

O segundo motivo é muito ligado ao primeiro, embora não de todo. Não aderi ao feminismo talvez porque em minha família nunca houve essa história de homem pode, mulher não pode.

Claro está que me deram bonecas e suas casinhas quando eu era pequenina. Nunca me deram uma bola de futebol, nem um par de chuteiras. Mas não havia a nítida linha: só homem pode isso, só mulher pode aquilo.

Aprendi a dirigir na mesma idade que meus primos rapazes. E a fumar também. Quando quis estudar fora, as únicas objeções foram “depende onde e quanto vai custar”. Tenho a impressão que Moscou seria um entrave…

zzzzzmariahelenaLá em casa o melhor pudim de leite condensado era o de um primo que, aliás, fazia sucesso absoluto entre as moças pois era um lindo rapaz. Foi oficial aviador e sei lá o que andou aprontando pelos céus do Brasil. Teve cinco filhos, três rapazes e duas moças, e fazia questão que todos ajudassem a mãe em casa. São melhores ‘donas de casa’ do que eu, isso eu garanto pois fui sempre refratária a aprender as lides domésticas. Ao ser repreendida por não querer aprender a cozinhar sempre respondi: ‘para isso, aprender a ler basta’.

Claro que era uma respostinha malcriada de quem queria escapar do fogão, mas não é que funcionou? Quando me casei, fui morar no Recife. Ao abrir os “trunks” que traziam meu enxoval e os presentes de casamento que recebêramos, a primeira coisa que vi foi o livro da Maria Teresa Weiss e suas magníficas receitas, com um cartão: ‘Toca a ler!’

E não é que funcionou?

Nunca vou me esquecer de meu primeiro aniversário naquela cidade. Final da década de 60. Meu marido resolveu fazer uma festa. Meus pais (na foto) foram do Rio. O apartamento estava cheio. Pouco a pouco os convidados foram se organizando: mulheres na sala, homens no quarto que servia de escritório. A mamãe aguentou o quanto pôde o papo cricri até que foi para o escritório onde as gargalhadas imperavam.

Fim da festa. Ajudando a esvaziar cinzeiros e recolher copos, ela disse para meu marido: “A Lenita (meu apelido de infância) não vai aguentar isso não, hein? Ela não foi criada assim. Lá em casa não tem essa divisão…”.

E na nossa também nunca mais houve o espaço delas e o espaço deles. Nem em Pernambuco, nem quando viemos morar no Rio.

Por isso foi chocante ver que o poema “Aviso da Lua Que Menstrua”, de Elisa Lucinda, que começa assim “Moço, cuidado com ela! Há que se ter cautela com esta gente que menstrua…” ia causar um rebuliço tão grande em minha vida. Mas causou. Enorme. Virou tudo de ponta cabeça e partiu meu coração. Mas coração conserta, sabem. O meu não é a primeira vez que parte e não vai ser a última antes de ser novamente remendado até Deus decidir que está na hora de estalar de vez…

10 de março de 2013

(*) Já que pretendo de vez em quando aparecer por aqui, acho melhor me apresentar direito: Meu nome é Maria Helena, mas se quiserem me chamar de Lenita, tudo bem. Tenho um único filho, que é a minha paixão absoluta. Tenho 75 anos, adoro ler, jazz, chocolate e coca-cola, cinema e escrever.

Sou filha de João Rubinato, mais conhecido como Adoniran Barbosa, e desde os seis meses fui criada pela irmã dele, Ainez, e seu marido Eurico. Esses foram o meu papai e a minha mamãe, pais maravilhosos de quem sinto enorme, angustiante saudade. Custo a crer que alguém tivesse pais tão sensacionais… e com tanta paciência com uma adolescente como a que eu fui. Posso ser franca? Como a que até hoje sou…

Pronto, estamos devidamente apresentados.

4 Comentários para “A paradinha”

  1. Que bom te-la por estas bandas Lenita, escreva sempre. Parabéns pela charmosa e contagiante adolescência. Somente as mulheres possuem o poder de consertar as fissuras do coraçào, capacidade de perdoar é uma caracteristica das mulheres, nem sempre presente aos homens.

  2. Cá estou eu lendo você.
    Sabe que eu também não vejo nenhuma razão para existir um “dia das mulheres”? A mim me parece aquelas homenagens para minorias desfavorecidas, categoria na qual não me enquadro em absoluto.
    E concordo também quanto ao seu ponto de vista culinário que “para saber cozinhar basta saber ler”. Esta é uma frase que já usei muito ao longo da vida!

    Um grande beijo e lembre-se que coração tem conserto, sim.

  3. Cheguei e gostei. Vamos em frente Maria Helena, o mundo está diante de todos nós. Bjs

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