Um soco no estômago: “Precisamos Falar sobre o Kevin”

Lionel Shriver escreveu um thriller psicológico em que questiona o mito da maternidade, a ambivalência de uma mulher entre o casamento e a carreira e a formação de um psicopata. De forma ao mesmo tempo perturbadora e dilacerante.

A autora é americana, nasceu em maio de 1957 na Carolina do Norte, com o nome de Margaret Ann Shriver, mas o mudou para Lionel aos 15 anos por achá-lo mais sonoro. Formada e pós-graduada na Universidade de Columbia, viveu em Nairobi, Bangcoc e Belfast. Tem sete livros publicados: The Female of the Species; Checker and the Derailleurs; Ordinary Decent Criminals; Game Control; A Perfectly Good Family; e The Post- Birthday Word. No Brasil, temos traduzidos O Mundo Pós-Aniversário, Dupla Falta e este Precisamos Falar sobre o Kevin, que está ganhando agora nova edição com uma capa menos aterrorizante (à direita) que a anterior (à esquerda).

Os temas abordados nesse livro, o mito do amor materno e a formação de um psicopata, são assuntos que sempre despertaram muito o meu interesse, daí o prazer com que escrevi esta crítica, tarefa ao mesmo tempo difícil e deliciosa. É claro que a minha formação profissional me torna suspeita em termos de me interessar por mentes perturbadas e doentias, mas creio que todos se interessam pelos assuntos e gostariam de entendê-los melhor.

A autora utilizou um estilo bastante peculiar, em que a personagem principal, Eva, dois anos após o filho ter feito um massacre na quadra de esportes do colégio em que estudava, matando sete colegas, uma professora e um funcionário da cantina, numa quinta-feira, escreve cartas a um marido ausente e que, de forma misteriosa, nunca responde. Nelas, ela busca entender o motivo do acontecimento contando a sua história; começa com o mundo cruel e desolado em que vive hoje, em que é discriminada como a mãe de um assassino e vai lembrando de seu relacionamento feliz e apaixonado com o marido Franklin, suas dúvidas sobre a maternidade, a difícil escolha entre a carreira e a vida doméstica, o nascimento de Kevin e os momentos mais significativos da infância e adolescência de seu filho. Chega ao ponto de confessar, em sua sinceridade, os momentos em que considerou o marido um “babaca”, que ela não amava Kevin e que queria sua vida sem filhos de volta.

Apesar de sabermos de antemão como a história terminará, a autora nos reserva algumas surpresas impressionantes em seus capítulos finais, quando Eva detalha o dia do massacre. E, mesmo com essa linguagem diferente, que poderia tornar as 463 páginas do livro tediosas, sua leitura passa voando, dada a abordagem de temas tão intrigantes, de forma poderosa e envolvente; Lionel Shriver nos faz pensar muito no papel da família, na violência nas escolas, no mito da maternidade e em quais as causas da psicopatia.

O mito do amor materno

Em relação aos questionamentos de Eva sobre a maternidade, Lionel Shriver aborda um tema, no mínimo, polêmico. Em nossa sociedade, apesar de toda a liberação feminista, que envolve o uso da pílula e a possibilidade de ter ou não filhos, ainda existe uma idealização do papel de mãe. Muitos ainda consideram que a maternidade é um instinto e que, apesar dos sofrimentos a ela inerentes, “ser mãe é padecer no paraíso”.

A própria Eva foi levada a uma maternidade não desejada, de acordo com uma seqüência pré-determinada socialmente: infância, adolescência, vida adulta, casamento e filhos. Ela era, antes de engravidar, uma mulher que priorizava a realização profissional e a vida amorosa intensa que tinha alcançado. Era a fundadora e principal executiva de uma empresa de guias de turismo alternativo, sendo obrigada a abrir mão de uma vida de viagens e a se fixar em uma casa que odiava devido ao nascimento de Kevin.

Essa gestação não foi desejada desde o seu início. O parto foi difícil, durou 37 horas, em parte porque ela recusou a anestesia para provar que era “durona”, a criança não aceitou o leite materno nem quando colocado em mamadeira e chorava incessantemente, enlouquecendo Eva e assustando todas as babás. Apesar de não ter o famoso instinto materno, Eva esperava que, ao ter o filho nos braços, isso o despertasse, mas em momento algum isso aconteceu. Ela chegou a dizer a Kevin, claramente: “Eu era feliz antes de você nascer”. Ao contrário das contorções de desagrado que executou em seu peito, quando pego no colo pelo pai o recém-nascido Kevin se aninhou em seu pescoço como se tivesse encontrado seu verdadeiro protetor.

Sobre as características dos psicopatas

Intrigada com os diversos massacres cometidos por adolescentes em escolas, dos quais se destacou o “Massacre de Columbine” (EUA, 1988), Lionel Shriver se debruçou sobre dezenas de casos para escrever Precisamos Falar sobre Kevin, seu sétimo romance. O livro foi recusado por vários agentes literários e mais de 30 editoras, mas hoje é uma obra premiada e traduzida em vários idiomas. Ela ganhou com ele o Orange 2005, premiação inglesa de melhor romance do ano, o que o tornou um best seller internacional, tendo sido recentemente adaptado para o cinema, com o mesmo nome.

Analisando esses massacres, Lionel Shriver (na foto) relembra que sempre se questionou os hábitos dos assassinos, porém algumas dúvidas ficaram por responder. Por exemplo: quais as características de personalidade desses assassinos? Como foi a sua educação, como eram os pais que os criaram? À luz da Psicologia e da Psiquiatria, a explicação é, ao mesmo tempo, simples e complexa: todos eles são casos extremos de um transtorno de personalidade denominado psicopatia.

Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, um em cada 25 brasileiros apresenta esse transtorno. As principais características do psicopata são: 1) é manipulador; 2) não tem capacidade de empatia pelo outro; 3; cria personagens para cada grupo/pessoa convincentemente; 4; é um egoísta impiedoso; 5; não tem culpa nem remorso, sendo capaz de matar alguém que atrapalhe seus interesses; 6; tem inteligência acima da média; e 7) faz-se de vítima em situações que o comprometem.

A maioria das pessoas acredita que a psicopatia tem origem puramente genética, porém vários neurologistas já comprovaram que também existe um componente ambiental, relacionado a traumas na infância. Esses traumas podem estar associados a abandono físico e emocional, abusos sexuais, espancamento, expulsão do grupo etc. A predisposição genética e o ambiente atuam conjuntamente; como afirma a psiquiatra Terrie Moffit: “uma pode ser a dinamite e o outro o fósforo”.

A história de Kevin

De forma instigante, no decorrer do livro, relembrando toda a sua história familiar em busca de explicações para a fatídica quinta-feira, a própria Eva vai discorrendo sobre vários casos de chacinas ocorridos nos EUA, antes e após o cometido por Kevin, inclusive o célebre Columbine. Uma das coisas que a intriga é que, com exceção dos casos, que são a maioria, em que as vítimas são feitas aleatoriamente, existem algumas exceções, tais como mais tarde vai se ver será o massacre perpetrado por Kevin, em que “os candidatos” são escolhidos a dedo, por motivos pessoais. As vítimas de Kevin formaram um grupo, à primeira vista, disparatado: um jogador de basquete, um hispânico estudioso, um cinéfilo, um violinista clássico, um ator canastrão, um hacker, um gay que estudava balé, uma ativista política feiosa, uma beldade convencida que tinha rejeitado Kevin, um funcionário da cantina que estava lá por acaso (dano colateral) e uma professora de inglês. Todos foram escolhidos dentre 60 “candidatos” porque Kevin não gostava deles e eram favoritos de algum professor. E, como todo psicopata, Kevin não sentia remorso pela atrocidade que cometeu.

O livro Precisamos Falar sobre o Kevin ilustra, de forma magnífica, o que é um psicopata, desde a sua infância como uma criança maligna até a chacina fria e calculista que cometeu, aos 16 anos, no ginásio de seu colégio. O relacionamento entre Eva e Kevin foi complicado desde o início: ela era uma mulher armênia, independente e feliz no casamento, até que se curvou à pressão social e do marido e, a contragosto, engravidou. Ela se sentia realizada com o casamento mas o marido não, sentia um vazio que só Eva tendo um filho podia preencher. Para ela, o marido era suficiente, mas ela não bastava para ele. E Franklin colocou expectativas fantásticas em cima de uma criança, o que levou Eva ao seguinte questionamento: se não existe razão para viver sem ter um filho, como poderia haver razão para viver tendo um?

Ela considerava que, para uma criança, ter um pai tão disponível talvez não fosse uma coisa positiva, e essa dedicação irrestrita de Franklin a Kevin também pode ter distorcido seus valores, acentuando seu egoísmo e sua falta de empatia pelos outros. O próprio Kevin considerava seu relacionamento com o pai uma fraude, pois como amar alguém a quem você não conhece? Apesar de não ter desejado a gravidez, esperava amar a criança quando a tivesse em seus braços, mas isso não aconteceu. Assim, ela não se sentiu mãe nem se enganou quanto a isso. Por isso mesmo, desdobrou-se em cuidados com Kevin, que não foram retribuídos, pois ele procurava privá-la de qualquer sensação de ser útil como mãe. O livro questiona com ênfase uma questão até hoje considerada tabu: uma mãe pode não amar o seu próprio filho?

E, desde bebê, Kevin fazia tudo para atormentar a mãe, que era a única a quem mostrava a sua verdadeira face. Assim, aos quatro anos, destruiu com tintas vermelha e preta os mapas que ela levara meses para decorar seu escritório particular e que eram a sua maior paixão. Seu comportamento desde a infância era típico de um psicopata: não se interessava por brincadeiras próprias de sua idade, como jogar bola com a mãe; não tinha amigos, com exceção do pai, com quem exercitava arco e flecha (aliás, modus operandi da chacina); usou como arma de chantagem contra a mãe não contar ao pai que ela o jogara contra a parede e quebrara seu braço, irritada com o fato de Kevin ainda continuar sujando fraldas aos seis anos; acusou falsamente a professora de teatro de assédio sexual; finalmente causou a cegueira de um olho da irmã! Seus únicos passatempos eram os exercícios de arco e flecha e colecionar vírus para computador; foi com um desses, aliás, ao invadir o quarto de Kevin na esperança de descobrir que ele tinha pensamentos íntimos, que Eva infectou os computadores de sua empresa. Diversão mais destrutiva e maligna, não? Mas nenhum desses comportamentos causava espanto ao pai, que o considerava um grande companheiro, pois para ele Kevin vestia o personagem do menino/rapaz equilibrado e ajustado. O fato de o pai não perceber o conflito entre Eva e Kevin e sua personalidade fictícia, forjada especialmente para agradar a ele disfarçando sua índole maldosa, também são típicos da psicopatia.

Com o pai, Kevin se comportava exatamente da maneira que Franklin desejava, sendo um filho que achava o máximo tudo que o pai dizia e fazia; dizia ao pai, quando este chegava em casa: -“Oi, papai! Como foi o trabalho hoje?”, de forma entusiasmada e alegre; era uma pessoa manipuladora, cínica e calculista. Já com Eva, a única com quem Kevin não usava máscaras, ele mostrava o seu verdadeiro eu, era insolente, sarcástico e hipócrita; era duas caras, enfim. E irritava a Eva que Franklin fingisse que a família era perfeita, que aparentemente não percebesse as maldades e a premeditação por parte de Kevin em relação à chacina. Ele investia tempo e energia para manter a ficção de que a família, apesar de Kevin, era feliz. Ele elogiou, até, o tino comercial do filho quando este recebeu em casa cinco jogos de cadeados comprados na internet, alegando que iria revendê-los para os garotos da escola. Na verdade, porém, já faziam parte do seu plano para isolar as suas vítimas no ginásio e impedi-las de pedir socorro. Para qualquer pessoa, a família de Kevin seria percebida como aquelas de um comercial de margarina. Para Eva, tudo não passava de uma fachada. Com os próprios professores, apesar de suas lições serem impecáveis do ponto de vista formal, faltava-lhe aquele elemento mais pessoal e emocional que é o de que carece justamente o psicopata.

Eva chega a questionar até que ponto os pais consideram os filhos um investimento mais seguro do que as próprias mulheres – será que por parecerem precisar mais dos pais que as mulheres? Ou por não existir a figura de ex-pai, como existe a de ex-mulher? E relembra Franklin que devido às suas constantes viagens pelo mundo, antes do nascimento de Kevin, ele nunca confiou muito em que ela voltaria, esquecendo-se que as passagens eram sempre de ida e volta.

Quanto ao nome da personagem, Eva, sua escolha não foi arbitrária. A Eva bíblica é aquela que cometeu o grande erro de pegar e comer a maçã no Paraíso, sendo por isso expulsa dele. De forma similar, a Eva do livro em questão carrega uma culpa dilacerante como mãe que se questiona se o fato de não ter desejado nem amado Kevin o tornou um psicopata no seu pólo mais extremo, capaz de perpetrar uma chacina no ginásio de seu colégio. A chacina cometida por Kevin, apesar de anunciada logo no início do livro, só tem seus detalhes surpreendentes revelados ao seu final. Ela é totalmente diferente dos massacres dos quais já tomamos conhecimento, no sentido de ser muito mais bem planejada, calculada, impregnada de vinganças mesquinhas e com um desfecho imprevisível. Aliás, o seu final serviu de vingança contra Eva, a sua mãe, que se tornou uma prisioneira eterna do ato de covardia de Kevin, condenada a sofrer por ele pelo resto de sua vida.

O filme Precisamos Falar sobre Kevin

O filme Precisamos Falar sobre Kevin também é impactante e perturbador, como o livro, mas eu sempre achei que é muito difícil filme fazer justiça a livro, até porque no segundo os pensamentos dos personagens podem ser mais bem explorados, assim como seus sentimentos; nesse livro em especial a autora Lionel Shriver tem um estilo muito absorvente, que prende mesmo a atenção do leitor. Mesmo assim, vale a pena ver o filme pelo seu impacto visual, devido ao desempenho excepcional de Tilda Swinton no papel de Eva e pelo uso o tempo todo do vermelho como elemento simbólico da chacina que está por vir: a cena inicial da guerra de tomates, a tinta vermelha de Halloween com que crianças sujam a casa de Eva e a pilha de latas de molho de tomate na gôndola do mercado atrás da qual Eva se esconde de uma mãe de uma das vítimas de Kevin. O vermelho tem uma força simbólica evidente, sendo óbvia a relação entre essa cor e o sangue, revelando a culpa de Eva pelos atos de brutalidade do filho.

O desespero de Eva com um Kevin bebê que, até os três anos, chorava o dia inteiro, enlouquecendo a todos, também é bem ilustrado com a cena da britadeira. Nela, Eva passa por trabalhadores que estão consertando bueiros no meio da rua, fazendo um barulho infernal. Ela sai da calçada, estaciona o carrinho do bebê ao lado da britadeira cujo ruído é torturante e fica em êxtase porque, em vez de escutar aquele choro exasperante, está ouvindo o som de uma britadeira!

Enfim, o livro Precisamos falar sobre o Kevin, assim como o filme baseado nele, apresenta uma história perturbadoramente viciante; quando se inicia sua leitura, apesar do tamanho do livro (463 páginas), fica difícil largá-lo. Isso se deve ao estilo da escritora, que prende nossa atenção apesar da maneira diferente de se expressar, por meio de cartas a um marido estranhamente ausente (a explicação para essa ausência só é revelada ao final do livro) e aos temas abordados, muito originais: o mito do instinto materno, a necessidade de a mulher moderna escolher entre ser mãe ou profissional e a estruturação de uma personalidade psicopática, todos eles, evidentemente, interligados. O debate que desperta não é simples e, nem o livro nem o filme, apresentam uma resposta para a grande pergunta que surge: teria Kevin nascido mau ou foi a rejeição de Eva que o teriam tornado um psicopata em grau tão extremado que foi capaz de cometer uma chacina impiedosa e fria? E Eva, em suas cartas, tenta identificar a sua possível culpa na criação de um mostro, abordando uma proibição atávica: podemos odiar nossos próprios filhos? Enfim, fica a grande questão que todos lhe colocam, desde a sua família, até as mães dos outros presidiários: “O que levou Kevin a perpetrar tão bárbara chacina, por quê, por quê, por quê?”

(*) Guenia Bunchaft é graduada em Psicologia (UFRJ), com Mestrado (FGV) e Doutorado (UERJ), tendo-se especializado nas áreas de pesquisa, elaboração/adaptação de instrumentos de medida/pesquisa e no Teste de Rorschach. Autora da coleção Estatística sem Mistérios (4 volumes), Editora Vozes, e do livro Sob Medida : um guia para a elaboração de medidas de comportamento e suas aplicações, Editora Vetor, é membro das Sociedades Nacional e Internacional de Rorschach e outros Métodos Projetivos, professora universitária (UFRJ, UFF), pesquisadora, conferencista, consultora, palestrante. Mantém o site SOS Pesquisa e Rorschach.

 

3 Comentários para “Um soco no estômago: “Precisamos Falar sobre o Kevin””

  1. Gostei muito da análise do filme e das personagens. Depois que entrei em contato com a história através do filme fiquei realmente perturbada com a toda situação, o que me fez procurar por matérias que fizessem uma melhor análise à luz da Psicologia. Seu texto responde a maioria dos meus questionamentos. Obrigada por publicar.

  2. Não creio que o Kevin possa ser considerado psicopata, as características da psicopatia são imutáveis. E ao final do livro é nítido a mudança do comportamento dele

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