Tragédia de erros

A reintegração de posse da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos, foi a materialização da mais completa tragédia de erros ocorrida nos últimos tempos. Em diversas frentes:

1) O governo estadual seguiu a ordem judicial, como lhe cabia fazer, sem tomar o devido cuidado prévio de criar as mínimas condições materiais e humanas para acolher os desabrigados e proporcionar-lhes condições decentes de sobrevivência. A Prefeitura Municipal de São José dos Campos divide com o governo estadual o troféu de omissão e incompetência.

2) O governo federal, através do seu coroinha das boas causas, o ministro Gilberto Carvalho, correu a criticar a ação da reintegração de posse, dizendo que teria sido melhor agir de outra forma, sem dizer qual seria essa outra forma (desobedeceria a ordem judicial?). Mais uma vez, como ocorreu no episódio da Cracolândia, insinuou que o governo federal teria uma solução pacífica e boa para todos, guardada em alguma gaveta. Não disse qual seria a solução e muito menos porque ela não saiu da gaveta para ser posta na mesa.

3) A imprensa, desde o primeiro momento, não foi sequer capaz de noticiar com precisão e muito menos de esclarecer o que significava o conflito de jurisdição entre a Justiça federal e a Justiça estadual em torno da ação de reintegração de posse. Nos primeiros momentos da ação policial na área ocupada, a impressão que se tinha era a de que a PM estava descumprindo a ordem da Justiça federal e agindo arbitrariamente por decisão própria. Além de não conseguir sequer acompanhar cronologicamente a sucessão de ordens e contra ordens da Justiça, a imprensa foi incapaz de contextualizar a própria situação do Pinheirinho, de explicar qual é a origem da posse da área, como foi que o megaespeculador Naji Nahas se tornou seu dono, de quem a comprou, quando e como a comprou , o que é uma massa falida, quais são os direitos de uma massa falida, qual é o valor da área, de como se deu a ocupação da área por aquelas pessoas, quais foram as tentativas de acordo entre as partes envolvidas durante os oito anos de ocupação. A imprensa tampouco foi capaz de dimensionar o verdadeiro papel do líder do acampamento, o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos, Valdir Martins de Souza, o Marrom, militante do PSTU, na história do conflito e nas frustradas tentativas de acordo.

4) As chamadas “redes sociais” contribuíram notavelmente para a infantilização do debate sobre a ação de reintegração de posse, dando livre curso a um debate ideológico obscurantista e a um constrangedor festival de desinformação, com alguns lances patéticos de má-fé e ignorância factual sobre princípios básicos que regem a ordem jurídica do País. Para uma boa parte da simplória militância ideológica de esquerda, tratou-se simplesmente de uma maldade do governador tucano, que tomou a terra dos pobres para entregá-la de volta ao ricaço Naji Nahas, que , evidentemente, deve tê-la roubado de alguém. Na cabeça da torcida instalada na arquibancada ideológica, uma ação tão truculenta só poderia produzir vítimas. Na falta de um massacre concreto, inventou-se um, e um advogado dos invasores, falando em nome da OAB, desandou a denunciar mortes que não aconteceram. E a agência oficial de notícias do governo, irresponsavelmente, espalhou a notícia pelo país, sem dar-se ao trabalho de checar se era verdadeira ou não. No dia seguinte foi só publicar: o advogado fulano de tal não confirmou as mortes que ele divulgou ontem. Vida que segue, como se nada tivesse acontecido.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/1/2012.

 

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