Sinais de democracia adolescente

As prévias eleitorais são instrumentos inestimáveis de democracia interna dos partidos. São indispensáveis para dar voz à militância e permitir que os escolhidos representem a vontade da maioria.

As prévias eleitorais dos partidos de extração democrática têm apenas um pequeno inconveniente: quando não coincidem com a vontade dos caciques do partido, elas podem simplesmente ser desconsideradas, desmoralizadas e até mesmo anuladas, se for o caso.

Quando a vontade dos caciques do partido então for representada – ou substituída – com mais ênfase pela vontade do cacique dos caciques, é melhor nem realizar prévias, para evitar a possibilidade da ocorrência de desagradáveis mal entendidos.

Ou seja: o instrumento democrático das prévias não passa de uma fantasia para dar um verniz de participação popular a um processo que na verdade é a reafirmação contemporânea de um caciquismo político quase tão velho quanto a história do País.

Seria injusto atribuir ao PT o monopólio desse coronelismo tardio, uma vez que já é histórica a imagem das eminências pardas do PSDB decidindo alguma coisa importante sobre os rumos do partido numa mesa do restaurante Massimo, durante uma certa época refúgio do “haut monde” da política, da mídia e dos business paulistanos.

Os coronéis tucanos foram surpreendidos por um fotógrafo de jornal e constrangidamente posaram encobrindo com seus sorrisos amarelos a decisão “democrática” que se preparavam para impor ao partido.

Não se poderia esperar nada diferente de um partido acusado por seus adversários de representar as “ elites burguesas e reacionárias do País”.

Eles nasceram, como se sabe, para soterrar a vontade popular debaixo de seus conchavos espúrios.

Os partidos criados de baixo para cima, sob a inspiração da vontade popular, a quem representam, não se sujeitam a conchavos e arranjos desse tipo.

Os casos de João da Costa, de Recife, Marta Suplicy, de São Paulo, Vladimir Palmeira, do Rio, Domingos Dutra, do Maranhão, Raul Pont, em Porto Alegre, ou Olivio Dutra, no Rio Grande do Sul, foram apenas vítimas incidentais dos interesses superiores do partido que nasceu proclamando que era “diferente de tudo que aí está”.

A hipocrisia que reina em quase todas as instâncias do cenário politico brasileiro não poderia deixar passar incólumes os partidos que constituem, em última instância, o tecido organizacional que forma a sua essência.

Assim, em São Paulo, o PSDB fecha sem nenhum pudor um acordo com o PR, partido da base de sustentação do governo federal, ressentido por ter perdido postos importantes sob suspeita de corrupção e disposto a dar o troco a quem o desalojou.

E o PT, arauto da democracia das bases, impõe a seus filiados de São Paulo e de Recife candidatos biônicos escolhidos pela vontade soberana e pelo “dedazo” do chefe e pelas conveniências de uma aliança regional que joga no lixo sem nenhum peso na consciência um candidato natural à reeleição.

Sinais de que, depois de 30 anos, a democracia no Brasil ainda não saiu da adolescência.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 8/6/2012.

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