Os Beatles, o Karnak, as cores

Deve ser a coisa de Natal, de Ano Novo, mas, como dizia Caetano em “It’s a long way”, tenho acordado singing an old Beatles song. Acordado, e ao longo do dia inteiro lembrado de old Beatles songs.

Logo depois que escrevi a anotação sobre Minhas Beatles songs preferidas, reparei que ainda não tinha botado no iTunes as músicas do álbum Yellow Submarine. E aí ouvi “Only a Northern Song”, “It’s all too much” “Hey Bulldog” e “All Together Now”, as quatro únicas canções que só estão naquele álbum, e em nenhum outro dos discos oficiais dos Beatles. Todas maravilhosas, as quatro. As duas primeiras são George Harrison no mais experimental de toda sua carreira, nos Beatles e solo – estranhas, beirando a anti-canção, mas lindas, longe do experimentalismo chato de John Lennon em bobagens como “Number 9” (para não falar dos discos dos anos 60 com Yoko, Two Virgins e Life with the Lions, uma barulheira insuportável).

“Hey Bulldog” é Lennon, forte, impressionante.

E “All together now” é McCartney escarrado, escrachado, um dos maiores criadores de melodia da história, uma coisa gostosa, sincopada, balançante, quase dançante, brincalhona, bem humorada, de bem com a vida. Livre leve solta.

E que letra gostosa!

***

“One, two, three, four,

Can I have a little more,

Five, six, seven, eight, nine, ten,

I love you.

 

A, B, C, D,

Can I bring my friend to tea,

E, F, G, H, I, J,

I love you.

 

Bom bom bom bom-pa bom

Sail the ship bom-pa bom

Chop the tree bom-pa bom

Skip the rope bom-pa bom

Look at me.

 

All together now, all together now,

All together now, all together now,

 

Black, white, green, red,

Can I take my friend to bed,

Pink, brown, yellow, orange, and blue,

I love you.

 

All together now, all together now,

All together now, all together now,

All together now, all together now,

All together now, all together now,

 

Bom bom bom bom-pa bom

Sail the ship bom-pa bom

Chop the tree bom-pa bom

Skip the rope bom-pa bom

Look at me.

 

All together now, all together now,

All together now, all together now,

All together now!

***

Ao ouvir “All Together Now” agora, me peguei pensando que Paul McCartney antecipou-se algumas décadas a André Abujamra.

Claro que não dá para saber se Abujamra se inspirou conscientemente em “All Together Now” quando fez suas letras bem humoradamente anti-racistas – em especial na obra-prima “Alma não tem cor”. Claro que ele ouviu “All Together Now”. Mas pode perfeitamente ter escrito sua letra genial sem se lembrar da canção.

Mas as semelhanças estão lá.

Paul McCartney:

“Black, white, green, red, / Can I take my friend to bed, / Pink, brown, yellow, orange, and blue, / I love you.”

André Abujamra:

“Alma não tem cor

Porque eu sou branco

Alma não tem cor

Porque eu sou negro

Branquinho, neguinho

Branco, negão

Alma não tem cor

Porque eu sou branco

Alma não tem cor

Porque eu sou Jorge mautner

Percebam que a alma não tem cor

Ela é colorida

Ela é multicolor

Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom”

***

Bem mais tarde, Paul McCartney fez uma das mais maravilhosas canções anti-racistas da histórias, “Ebony and Ivory”, que cantou, ele, um azul, amarelo, verde, verdinho, marrom, pele clara, em dueto com o azul, amarelo, verde, verdinho, marrom Stevie Wonder, pele negra:

“Ebony and ivory live together in perfect harmony

Side by side on my piano keyboard, Oh Lord, why don’t we?”

Se o ébano e o marfim vivem juntos em perfeita harmonia, lado a lado, no teclado do piano, ó Deus, por que nós não?

A imagem que Paul McCartney criou é tão bela, na sua simplicidade absoluta, que o azul, amarelo, verde, verdinho, marrom, pele negra Milton Nascimento ficou puto: por que eu não tive essa idéia antes?, cantou ele, na bela “Certas canções”.

(Há no YouTube um reencontro de Paul McCartney e Stevie Wonder cantando “Ebony and Ivory” na Casa Branca, em 2011.)

***

Euzinho aqui, negro, branquinho, neguinho, branco, negão, azul, amarelo, verde, verdinho, marrom, lembrando de Beatles songs neste fim de ano, me lembro agora de “Preto Velho”, a canção genial dos Secos & Molhados feita de apenas de 22 palavras:

“Aquele preto tão preto com aquela barba branca tão preta e aquele olhar tão meigo de quem espera ganhar um sorriso incolor.”

E então, talvez pela lembranças de tantas belas canções, talvez pelo espírito de fim de ano, talvez porque seja um incurável esperançoso, “um otimista amargo, um pessimista alegre”, como diz o Moustaki, penso que talvez, quem sabe, a rigor, se a gente pensar bem, no fundo, no fundo, talvez a humanidade não seja uma invenção que de todo não deu certo.

 Dezembro de 2012

Um comentário para “Os Beatles, o Karnak, as cores”

  1. Ao Sérgio, aos amigos e colaboradores de “50anosdetextos”

    “Lá bem no alto do décimo segundo andar do ano
    Vive uma louca chamada esperança
    E ela pensa que quando todas as sirenas
    Todas as buzinas
    Todos os reco recos tocarem
    _ Ó delicioso vôo!
    Ela será encontrada
    Miraculosamente incólume na calçada.
    Outra vez criança…
    E em torno dela indagará o povo:
    _ Como é o teu nome,
    Menininha de olhos verdes?
    E ela lhes dirá
    (È preciso dizer-lhes de novo!)
    Ela lhes dirá bem devagarinho,
    Para que não esqueçam nunca:
    _ O meu nome é E-S-P-E-R-A-N-ÇA…”

    Mário Quintana

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