O jeito certo de pedir aumento

Tive um colega, quando ainda estava no começo da minha carreira no Jornal da Tarde, que não gostava de mim. Até hoje não sei o motivo, mas ele me hostilizava a toda hora. Antonio Carlos Fon havia sido, até então, e não sei havia quanto tempo, setorista da reportagem policial no DEIC, Departamento Estadual de Investigações Criminais. Traduzindo: se houvesse algum caso de relativa importância ali, ele tinha que fazer um relato à redação. Ok. Mas um dia ele foi transferido para a sede do jornal, junto aos demais repórteres.

Percival de Souza, que naquela época era o principal repórter policial do jornal, foi, certamente, o responsável por levar o Fon para a redação.

Naquela época eu fazia algumas boas matérias, embora também fizesse grandes bobagens. Cheguei a colocar o mar em Minas Gerais, reproduzindo, sem pensar, a declaração de uma garota que se drogava.

Mas o editor da Reportagem Geral, o Fernando Mitre, gostava do que eu fazia, e seus comentários provocaram uma aproximação minha com o redator-chefe, o Murilo Felisberto.

Bem, um dia o Fon fez uma matéria brilhante, entre várias outras – A Lei do Cão, detalhando, um a um, os códigos que pautavam o comportamento dos prisioneiros. Exemplo: quem tivesse barbarizado, morria. E barbarizar significava, entre outras barbaridades, matar uma criança, ou uma mãe.

O sucesso foi tão grande que o Murilo – e nunca houve caso semelhante – mandou um bilhetinho para ele dizendo: “Nunca vi nada tão bom desde o tempo em que eu mesmo era setorista de polícia”.

Ora, o Murilo nunca foi setorista, não que eu saiba. Mas o Fon não entendeu o elogio e, por incrível que pareça, o Percival também não. Perci, com o bilhetinho na mão, veio me perguntar: “Isso quer dizer que o Fon vai voltar para o DEIC?”

Quero acrescentar que superamos isso; hoje o Fon e eu somos bons amigos, e nos abraçamos calorosamente a cada encontro.

Lembrei-me dele ao ver um pequeno texto, neste mesmo site, sobre o Bill Duncan, ex-editor de Política, Economia, e posteriormente diretor de redação da sucursal do Estadão no Rio de Janeiro.

Já contei essa história em um site que alguém fez quando o Bill foi vítima de um câncer, há uns dois, três anos, mas pesquisei isso no Google, hoje, e não encontrei. Então conto outra vez.

Fon escreveu: “Ele era um sábio”. Assinei embaixo e conto aqui uma demonstração de sua genialidade em um episódio fútil, corriqueiro.

Eu era redator da Reportagem Geral, no Jornal da Tarde, e o Murilo Felisberto decidiu que eu deveria ser promovido. E me nomeou subeditor de Política. O editor era o Bill Duncan. Não me lembro se tive o aumento correspondente na época, mas o fato, algum tempo depois, era que eu deveria ganhar mais.

Falei com o Bill, porque era meu chefe, mas já sabia a resposta: eu deveria falar com o Murilo, que era quem decidia sobre todo e qualquer aumento. Respondi que iria até ele, e então o Bill me aconselhou:

— Barreto, não diga ao Murilo que você precisa de aumento porque seu aluguel aumentou ou qualquer outro motivo desse tipo. Diga que você quer um aumento porque quer freqüentar restaurantes melhores, beber melhores uísques… vá por aí.

Fiz exatamente o que o Bill disse. O Murilo me ouviu com aquele ar sério que só ele tinha, e quando terminei abriu um sorriso que só ele tinha.

Tive o aumento.

Abril de 2012

Em Histórias que os jornais não contam mais, uma coletânea de reportagens de Anélio Barreto.

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