O Cachoeira do Itaim-Bibi

Parece improvável, mas nunca se sabe, que Carlinhos Cachoeira venha a ter uma rua batizada com seu nome. Já João Cachoeira, que abria a porteira para o patrão passar, deu nome à mais conhecida rua do Itaim Bibi – o valorizado bairro no sudoeste de São Paulo.

Cachoeira, o Carlinhos, era filho de um motorista de caminhão que morava com a mulher e uma penca de filhos em uma fazenda de Araxá, Minas Gerais. O nome da fazenda era Cachoeira. O motorista chamava-se Sebastião Almeida Ramos, mas ficou conhecido como Tião Cachoeira.

Certo dia, Tião Cachoeira resolveu mudar de profissão e de cidade. Assim chegou a Anápolis, Goiás, com a família. Trabalhou um pouco como camelô, mas acabou se envolvendo com o jogo do bicho. Fez carreira. De cambista, que anota as apostas, passou a sócio de um bicheiro.

O nosso Cachoeira, o João, vivia em um lugar chamado Chácara do Itahy. As terras não valiam muito, por serem inundáveis. Em compensação, eram um paraíso para caçar e pescar, e apanhar frutas das incontáveis árvores. Cenário propício para um episódio que faria jus a um romance do nosso José de Alencar.

O dono das terras era um general, José Vieira de Couto Magalhães. O general nunca casou; viveu e morreu solteiro. Mas, em certo momento de sua vida, conheceu uma índia do Pará, e se relacionou com ela. Da aventura nasceu um menino, batizado José Couto de Magalhães. Quando o pai morreu, José herdou a chácara. Mas vendeu-a para um tio, irmão do general.

O filho deste, Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, um dos herdeiros, morou na chácara a vida toda.

Hoje dá nome a outra importante rua do Itaim Bibi. Destinos cruzados: a rua corta a João Cachoeira.

João vivia com a família de Leopoldo. O que se registra, hoje, é que era um agregado. Brincava com as crianças, contava histórias e cantava. Um de seus trabalhos era abrir a porteira da chácara, quando alguém da família saía ou chegava. “Mas quando procurado, onde está o João? A resposta era: o João está na cachoeira.”

É isto que conta um estudioso do bairro, o professor Helcias Bernardo de Pádua, presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim-Bibi. A cachoeira em questão era uma pequena queda d´água do Córrego do Sapateiro, que corria ali perto. O pequeno curso d’água ainda existe, mas não está mais à vista. Foi canalizado.

Há uma segunda versão, que Helcias considera menos provável. “João era alegre, violeiro e frequentador das vendinhas da época, onde bebia. Ficava sempre numa água só, ou seja, bêbado.” Seja como for, Cachoeira vivia bem. “Era muito querido pela família Couto de Magalhães e grande amigo, desde pequeno, de Leopoldo Couto de Magalhães Júnior.”

O Cachoeira dos escândalos de hoje, Carlinhos, tinha 13 irmãos. Quando seus pais se separaram, ainda nos primeiros tempos, quatro dos filhos ficaram com Cachoeira pai. Um deles, Cachoeira filho – Carlinhos. Como se disse, estavam em Anápolis. Tião Cachoeira e o sócio expandiram seus domínios do jogo do bicho pela cidade.

Carlinhos demonstrou talento para o negócio. Assumiu a parte do pai e não parou mais. Jogo do bicho, bingo eletrônico, caça-níqueis. Seu império não cabia mais em Anápolis. Mudou para Goiânia, a capital. Enredou políticos, empresários e policiais. A história toda deve ser contada na Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, em curso no Congresso Nacional.

Esta reportagem foi originalmente publicada no Diário do Comércio.

Um comentário para “O Cachoeira do Itaim-Bibi”

  1. Meu pai, Jorge, vem de uma família que na verdade é Pereira. Mas como meu avô registrou uma parte de seus 16 filhos, todos de minha avó, Elvira, registrou-os como Pereira, mas depois, na segunda leva…alguns ficaram com o Cachoeira, porque com o decorrer do tempo, o apelido de Cachoeira “pegou” tanto que ficou incorporado e oficializado. Meu pai é de 1922, na época, as famílias registravam os filhos de tempos em tempos, quando tinham filhos já crescidos…enfim, meu pai de descendência espanhola-moura e minha mãe de portugueses, com muita honra e de franceses judeus…está aí a nossa mistura brasileira…a história não pode se perder! Considero esta rua, a João Cachoeira em homenagem ao meu avô e a todos os brasileiros que têm suas histórias mescladas com as suas vidas e que contribuíram positivamente com nosso país.

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