Nelson Rodrigues

Esti­vesse vivo, teria feito 100 anos a 23 de Agosto. Res­sus­cito um texto antigo com um ou outro adjec­tivo novo.

O Anjo Pornográfico

“Ou a mulher é fria ou morde. Sem den­tada não há amor possível.”

Estava no meio de um almoço e entre gene­ra­li­za­ções disse que gos­tava de ser um escri­tor. “Batata!” rea­gi­ram os ami­gos com comi­se­ra­ção. Não é um escri­tor quem quer. Só é um escri­tor quem a bio­gra­fia ajuda.

Dou o exem­plo do per­nam­bu­cano Nel­son Rodri­gues. Bio­gra­fi­ca­mente ele vai ser sem­pre cari­oca, prova escar­rada de que só depois de viver­mos muito é que devía­mos deci­dir onde nas­cer. Para o que conta, para ser um escri­tor, Nel­son nas­ceu no Rio, viveu cari­oca e cari­oca morreu.

É só o começo. Um escri­tor inventa. Nel­son inven­tou o moderno tea­tro bra­si­leiro ao escre­ver Ves­tido de Noiva e ainda teve tempo para inven­tar, com seu irmão, jor­na­lista des­por­tivo, o derby do Rio, o Fla-Flu que ainda hoje, da campa onde se enerva, ele deve ver com muito dis­tor­cida pai­xão pó de arroz, já que, bem enten­dido, “a morte não exime nin­guém de seus deve­res clu­bís­ti­cos”.

Mas não é isto o que quero dizer. A bio­gra­fia tem de dar certo muito cedo. Nel­son tinha catorze irmãos. Esta sim, é já uma asser­ção bíblica, um arran­que lite­rá­rio. No Rio foram morar na Rua Ale­gre, facto bio­grá­fico de indis­far­çá­vel volú­pia. Nel­son era menino, pou­cos anos. A vizi­nha do lado, dona Cari­dade, entrou sem bons-dias pela casa de Nel­si­nho e decla­rou à mãe de catorze des­cen­den­tes: “Todos os seus filhos podem fre­quen­tar a minha casa, dona Esther. Menos o Nel­son.” O que Dona Cari­dade disse a seguir, é dito por quem sabe que está já a sub­si­diar uma voca­ção lite­rá­ria: vira Nel­son aos bei­jos em cima dos três ani­nhos de sua filha Odé­lia. Não em pé ou de lado; em cima, subli­nhou, e em movi­mento. Qual­quer um dirá: sem nunca se ter posto em cima, e só duas letras à frente no alfa­beto, Fer­nando Pes­soa é quem é.

Pre­nún­cio da tra­gé­dia cari­oca de que Nel­son faria a sua dra­ma­tur­gia, foi a redac­ção com que assom­brou a pro­fes­sora e uma escola inteira. O menino escre­veu uma his­tó­ria de adul­té­rio. Con­tou como um marido, com pressa de cha­mar “meu anjo” à esposa amada, a sur­pre­ende nua, esten­dida de ofe­re­cida na cama, enquanto um vulto, inso­lente mas só um vulto, sal­tava viril­mente pela janela para a madru­gada indi­fe­rente e cálida. Sem per­der um milí­me­tro de tanto amor, faca cega na mão, o marido mata a mulher e tomba ajo­e­lhado aos pés da cama, a pedir-lhe “perdoa-me por me traí­res”. Estava em jogo uma bio­gra­fia: a escola não dei­xou que nin­guém lesse mas concedeu-lhe pré­mio, pre­ve­nindo gló­ria futura.

Aos 13 anos, Nel­son come­çou a escre­ver repor­ta­gens poli­ci­ais no jor­nal de que seu pai era direc­tor. Num dia de Natal, final dos anos 20 do século que pas­sou, com falta de assunto para pri­meira página, o pai e outros três irmãos mais velhos, todos jor­na­lis­tas, deci­di­ram que a maté­ria de aber­tura seria o des­quite de um casal de pública cele­bri­dade. No dia seguinte, a dama visada avan­çou com toda a sua ofensa pela redac­ção. Não encon­trando o patri­arca, viu Roberto, o irmão mais velho, e puxou o gati­lho do revól­ver novi­nho da com­pra dessa manhã. Não sei se terá dito: “Tome o seu pre­sente de Natal!” À frente dos olhos de Nel­son, a tra­gé­dia cari­oca consumou-se: o irmão mor­reu e o pai ago­ni­za­ria 67 dias depois, con­su­mido pela dor e trom­bose cere­bral. Nesse dia, Nel­son só que­ria uma coisa: mor­rer. Ferida bio­grá­fica, nunca mais sarou.

Mesmo sabendo que não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo, Nel­son Rodri­gues amou. No começo, com a matu­ri­dade dos 14 anos e numa lógica ina­ta­cá­vel, apaixonava-se por actri­zes e dor­mia com pros­ti­tu­tas. Amo­res de bei­jos e solu­ços. A bai­la­rina argen­tina de olhos azuis, a estu­dante de Copa­ca­bana, a pro­fes­sora de Ipa­nema. Divi­diu com o irmão Jof­fre a pai­xão por outra bai­la­rina, Eros Volú­sia – vejam: com fac­tos bio­grá­fi­cos des­tes é fácil ser-se escritor.

Já a Rua Ale­gre lhe tinha dado ajuda em maté­ria sen­ti­men­tal. Nel­son sem­pre lem­brava o sujeito de bigo­di­nho (pode ser que não tivesse) que a mulher xin­gava à vista do bairro todo. Uma humi­lha­ção mul­ti­pli­cada, de anos. Um dia o sujei­ti­nho débil desa­mar­rou a culpa e, tam­bém na rua, bem no meio dela, bateu. De cinto, até. A vizi­nhança cor­reu para o espec­tá­culo: “bate mais, bate mais” pediam as mulhe­res. E ele bateu com a eufo­ria de um anjo, até se can­sar. Não foi só o mulhe­rio que aplau­diu. Ela, sofrida e orgu­lhosa, atirou-se-lhe aos pés e desa­tou a beijá-lo. “Toda mulher gosta de apa­nhar” filo­so­fou o ado­les­cente Nelson.

Sexo e morte, sublime e sór­dido – que outra coisa é que pode ser uma bio­gra­fia? Casou. Um dia, regres­sando ao jor­nal o Globo, depois de cura no sana­tó­rio, disseram-lhe: “Tem uma mulher na redac­ção, 19 anos, mora­dora do Está­cio e dura na queda”. “Pode dei­xar, está no papo” disse logo o des­lei­xado e indo­lente Nel­son. Era Elza, meia-siciliana, com uma famí­lia que a Nel­son nem vê-lo, numa rejei­ção que põe logo uma man­cha de honra numa bio­gra­fia. Casaram-se clan­des­ti­nos, no horá­rio de tra­ba­lho, come­mo­rando a café com leite e tor­ra­das, e jurando que noite de núp­cias só com o casa­mento reli­gi­oso. Cum­pri­ram. Des­ca­sa­riam muito mais tarde. Depois de outros dois casa­men­tos dele, vol­ta­ram a casar. Quando Nel­son mor­reu, Elza, ainda em vida, colo­cou como lhe pro­me­tera, o nome na lápide ao lado do nome dele, logo debaixo da ins­cri­ção: “Uni­dos para além da vida e da morte. É só.” Por­que, como toda a sua obra reclama, amor que acaba não era amor.

Podia con­ti­nuar: a bio­gra­fia de Nel­son Rodri­gues é inul­tra­pas­sá­vel de copi­osa. Angustia-me uma pequena dúvida:

foi mesmo a bio­gra­fia que o obri­gou a ser o escri­tor que é, cri­ando um ima­gi­ná­rio de sexo punido e puni­tivo, trai­ção, incesto, cru­eza, sen­ti­men­tos torturados,

ou é por ser o escri­tor que é, que Nel­son Rodri­gues teve esta bio­gra­fia exces­siva, auto-paródica, isenta de tédio e tão ter­ri­vel­mente cheia de quotidiano?!

Mas parece que não é bem assim e há mui­tas reservas…

Sim, mas há quem ponha reser­vas a Nel­son, segredam-me. Por patri­o­tismo lin­guís­tico, rejeito a mínima reserva, aviso já. Nenhuma reserva a Nel­son Rodri­gues é per­mi­tida, auto­ri­zada, mesmo a título de omis­são pre­sente ou inten­ção futura! Pecado.

Reserva polí­tica? Atire a pri­meira pedra o que sou­ber resol­ver o dilema de quem era amigo de gene­rais e pai de guer­ri­lheiro. O tea­tro, coisa e tal? Mas vejam e quem não viu por­que não pode, leia que foi o que eu fiz, o “Álbum de Famí­lia”! Oh, o fim do 2º acto com Gui­lherme dis­pa­rando o revól­ver sobre a irmã Glo­ri­nha – duas vezes, meus ami­gos, duas vezes – com ciú­mes do pai. E leiam a “Engra­ça­di­nha!” e as cró­ni­cas. Des­me­su­rado, injusto, con­tra­di­tó­rio, o que seja, o autor cari­oca foi sobre­tudo alguém que reve­lou — antes do tempo — algu­mas arma­di­lhas do pen­sa­mento então domi­nante (se me per­mi­tem des­taco dois dos mai­o­res equí­vo­cos do pen­sa­mento político-mediático da altura, Sar­tre e Dom Hél­der da Câmara, que ele tra­tou como duas bes­tas qua­dra­das). Aben­ço­a­da­mente incor­recto nessa maté­ria, Nel­son foi cor­rec­tís­simo a escre­ver sobre o tumulto das rela­ções fami­li­a­res e amo­ro­sas. Adi­vi­nhou tudo: o dead end da classe média, o inferno dos trau­mas fami­li­a­res, o fim de um mundo base­ado na len­ti­dão dos “bon­des que não che­gam nunca”.

Foi ele mesmo que disse: “O artista tem que ser génio para alguns e imbe­cil para outros. Se puder ser imbe­cil para todos, melhor ainda.” Seja­mos unâ­ni­mes e con­ce­da­mos a Nel­son o esta­tuto de “melhor ainda” que é o que faz dele um dos mai­o­res pro­sa­do­res da lín­gua por­tu­guesa do século XX. Não se me ponham a olhar para os lírios do campo: olhem mas é para cada uma das fra­ses dele, para a adjec­ti­vada jus­tiça que as molda rindo-se das subs­tan­ti­vas injus­ti­ças que por­ven­tura con­te­nham. Ah, o que ainda hoje, sau­dosa, a lín­gua chora por ter per­dido a desar­vo­rada exci­ta­ção e afro­di­síaca sur­presa de um amante assim. Faz-lhe muita falta um homem lá em casa. À língua.

Este texto foi originalmente publicado em Escrever é Triste

 

Um comentário para “Nelson Rodrigues”

  1. Entre as inúmeras boboseiras ditas em homenagem a Nélson Rodrigues enfim um texto que sem babação barata faz justiça ao talento lingüistico do inesquecível escritor.O texto de Manuel S.Fonseca deve fazer parte, com justiça,da seleção “50 anos de textos”. Compilação que respeito!

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