Murilo Felisberto e o repórter iniciante

Quando comecei a trabalhar no Jornal da Tarde, efetivado, depois de meses como estagiário, decidiram que eu seria repórter de polícia. Quando me lembro disso hoje, décadas depois, acho que foi uma boa decisão, já que minha atração em termos de leitura hoje, e desde há muito, são novelas policiais. Embora as minhas melhores matérias não tenham tido esse motivo.

Enfim, aqui estão reunidas duas historinhas que, acho eu, têm a ver, ainda que diferentemente, com isso.

Fui enviado para narrar um caso em que um sujeito, frentista de um poço de gasolina, matou um amigo e escondeu o corpo na vala em que estava enterrado o próprio contêiner de gasolina.

É preciso dizer aqui que as histórias (matérias) policiais que o JT publicava na época não tinham nada a ver, mas nada mesmo, com os textos que os jornais de hoje publicam. Elas contavam a história, e não apenas o cru resultado, como se mostra hoje.

Então, voltando ao caso. O assassino havia sido ator e herói em um filme (se não me engano, do Zé do Caixão, mas, repito, posso estar enganado). Bem, havia o filme, que me foi exibido, e eu resolvi intercalar, no texto que escrevi, a ação do herói cinematográfico com ação dele matando o amigo.

A matéria ficou boa, pelo que me lembro, tanto que foi publicada e, no dia seguinte, o editor-chefe, Murilo Felisberto, perguntou ao doutor Ruy Mesquita, dono do jornal, se ele a havia lido. A resposta, pelo que me lembro do que o Murilo me contou, foi a seguinte:

— Boa, mas um tanto sofisticada.

O Murilo riu e respondeu:

— Sofisticada? O senhor precisa conhecer o Anélio.

Naquela época (falamos de 1968, ou 9) eu tinha, como tenho ainda agora, inúmeros defeitos, menos o da sofisticação.

E é aqui que mudo de história, mas não de personagens. Em um final de tarde, acho que não muito tempo depois, o Murilo me convidou para um drink no Paddock, ali do outro lado da Rua da Consolação.

Sentamos, e ele me disse que queria pedir dry martini, e perguntou se eu gostava. Eu nunca (perdoem, eu era um moleque vindo do interior) havia sequer, se bem me lembro, ouvido falar em dry martini.

Concordei, e o Murilo pediu, com a devida orientação: taças geladas, gim gelado, mas nenhuma pedra de gelo. Como, aprendi ali, deve ser sempre.

Bebemos alegremente, achei maravilhoso, e então o Murilo pediu mais dois. Quando terminamos aqueles dois, ele me disse:

— Anélio, dizem que o que distingue um cavalheiro é que ele nunca pede três martinis. Vamos pedir o terceiro?

Pedimos.

Abril de 2012

Em Histórias que os jornais não contam mais, uma coletânea de reportagens de Anélio Barreto.

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