Dar a volta por cima

Vi Antó­nio das Mor­tes no cinema Fla­mingo, no Lobito. A auto­ria é do sin­cré­tico Glau­ber Rocha, tão mata­dor de can­ga­cei­ros que fez um filme para matar Corisco, outro para matar Coi­rana. Mal sabia, nesse ano de inde­pen­dên­cia, quem era o bra­si­leiro que fil­mava san­gue como só Godard fil­mou san­gue e que encos­tava cada cena a can­ções que, ali onde elas can­ta­vam, qual­quer um chorava.

Antó­nio das Mor­tes, tam­bém cha­mado O Dra­gão da Mal­dade Con­tra o Santo Guer­reiro, tinha mui­tas can­ções. Uma, “Dar a Volta Por Cima”, é ines­que­cí­vel. Se algum dia tiver de aju­dar alguém que pre­cise de ajuda mas não queira que lhe dêem a mão, estenda-lhe essa can­ção. Parece críp­tico: mas basta ouvir os ver­sos falando de um homem de moral que morde a poeira do chão e percebe-se logo.

Antó­nio é jagunço, assas­sino: a soldo de coro­néis para matar can­ga­cei­ros des­co­man­da­dos. O Bra­sil do pas­sado, tal­vez a Europa do futuro. Como o jagunço, tam­bém o can­ga­ceiro pode ser um cri­mi­noso a mando. Só que, quando deixa de ser­vir um senhor, o can­ga­ceiro con­ti­nua cri­mi­noso e converte-se num telú­rico espí­rito livre. O can­ga­ceiro brota do seco Nor­deste como o mais obs­ti­nado dos arbus­tos. O crime dele agarra-se ao ser­tão, à crespa pai­sa­gem. A sede dele sabe onde encon­trar a sobrante, rara, gota de água. O can­ga­ceiro é gémeo de uma Natu­reza mise­rá­vel e inós­pita. Comun­gam a escas­sez, o desapossamento.

Uma sebenta capa cin­zenta a cobrir-lhe o corpo vasto, espin­garda assas­sina colada à mão, Antó­nio, que em Deus e o Diabo na Terra do Sol já matara Corisco, her­deiro de Lam­pião o prín­cipe dos can­ga­cei­ros, volta agora e volta para matar Coi­rana, o último rebelde. Por­que lhe pagam. É um jagunço: serve os que têm, matando os que nada têm. É esse o mani­queísmo antro­po­fá­gico do filme de Glau­ber. Como num wes­tern cruel de Pec­kin­pah. Com mais música, uma música ino­cente e impi­e­dosa, cami­li­ana. De cordel.

Quando a voz sam­bista de Noite Ilus­trada canta “dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava”, vemos Antó­nio na sua estrada de Damasco, no meio de camiões de luz, a sofrer a con­ver­são e a mudar de campo. Os negó­cios de polí­tica pas­sam a ser com os outros, os dele só com Deus, o Deus mís­tico dos que nada têm.

Na única, bre­vís­sima con­versa que tive com Glau­ber devia ter-lhe per­gun­tado por­que é que a lágrima que no cinema do Lobito juro ter visto Antó­nio cho­rar, nunca mais a encon­trei ao rever o filme. Glau­ber ligara do hos­pi­tal para a Cine­ma­teca, a dias de mor­rer tão jovem. Atendi-o por aci­dente e ouvi-lhe mais a nítida res­pi­ra­ção arfante do que a lon­gín­qua voz. Não o podia cansar.

Ainda hoje pro­curo a lágrima que Antó­nio das Mor­tes cho­rou só para mim num cinema de Angola. Uma lágrima de dois lados. De um lado peni­tên­cia, do outro esperança.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

msfonseca@netcabo.pt

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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