Como aglutinar as pessoas de bem?

– “Do you like Dylan?”

Foi a Lalá que trouxe a informação. Tinha passado seis meses (ou seria um ano?) nos Estados Unidos, num intercâmbio cultural – American Fields, chamava-se na época. Um monte de gente do Aplicação fez American Fields, mas acho que Lalá foi a primeira. Esteve lá em 1964, o ano do golpe, e até o início de 1965. Na volta, trouxe o Bringing it All Back Home, o disco novíssimo de Bob Dylan, lançado lá em março daquele ano. Botou pra gente ouvir – e ficamos lá tontos diante daquilo.

Não me lembro exatamente quantos éramos, quem éramos. Um grupo assim de umas cinco ou seis pessoas: Loló, Cuca, Mercedes, eu, mais alguém de quem não me lembro.

Nosso inglês não era nem de longe tão bom quanto o dela, claro, depois que ela havia passado seis meses vivendo entre os gringos. Não entendemos nem dez por cento do que aquela voz roufenha, fanha, dizia, mas juro que guardo até hoje a lembrança de ter ficado impressionado com aquilo.

E a Lalá nos explicou que, para as pessoas com quem ela conviveu lá, Dylan era a coisa certa. Que era assim uma espécie de senha: os jovens estudantes americanos de 1964, 1965 se dividiam entre os que gostavam de Dylan e os que não gostavam de Dylan.

Para definir se alguém era in ou out, se era gente boa, inteligente, que sabia das coisas, ou se era uma toupeira alienada, ou um reaça, bastava perguntar:

– “Do you like Dylan?”

***

Isso era meados de 1965. O grupo que Lalá chamou para a casa dela foi seguramente dos primeiros a ouvir Bringing it All Back Home no Brasil. Bem, pelo menos em Belo Horizonte.

No início de 1967 me mudei de Belo Horizonte para Curitiba. Não por minha vontade, até porque vontade de menino não conta, ou não contava, mas por determinação dos meus irmãos mais velhos.

Acho que foi em 1967 que a então CBS, a subsidiária brasileira da Columbia, lançou pela primeira vez no Brasil um disco de Dylan. Meus poucos amigos de Curitiba já haviam falar nele, é claro. Me lembro perfeitamente de ter contado para um deles, um colega do Colégio Estadual do Paraná, Sérgio Augusto, um homônimo do grande jornalista, a história do “Do you like Dylan?” Sérgio Augusto, um jovem intelectual da província (naquela época, Curitiba ainda era uma província), comentou (e juro que me lembro bem disso): – “Interessante. No Brasil, não temos uma senha assim”.

***

Esses fatos tão distantes me vieram à cabeça hoje, de repente, ao chegar em casa depois de um encontro com um pequeno grupo de pessoas.

Uma delas, que eu estava vendo pela segunda vez, apenas, é um homo politicus: Antônio Sérgio Martins, do blog Pitacos Políticos. Só pensa em política, 24 horas por dia. Foi comunista na juventude, graças a Deus, foi preso pela ditadura, permaneceu preso por dois anos. Manteve-se idealista através das décadas, e, como acontece com todo idealista neste país, tornou-se, nos últimos anos, um virulento adversário do PT.

Ele apresenta as seguintes questões:

Como conseguir reunir pessoas que pensam mais ou menos da mesma forma que você? Não exatamente da mesma forma, mas mais ou menos – gente parecida com você? Gente que tenha basicamente os mesmos ideais?

Como achar o mínimo múltiplo comum, ou o máximo divisor comum das pessoas?

***

Esse meu novo amigo pensa em tentar aglutinar as pessoas da esquerda democrática, pluralista, progressista, pró-direitos humanos.

Tarefa difícil, aglutinar pessoas.

Tarefa dificílima, aglutinar pessoas da esquerda democrática, pluralista, progressista, pró-direitos humanos.

Muitas das que acreditavam nisso arranjaram empregos no governo.

Muitas ficaram ricas, e se esqueceram dos princípios.

Muitas ficaram velhas, cansadas.

Muitas morreram.

Umas duas ou três não abandonaram os sonhos, mas ainda acreditram que o lulo-petismo, apesar de seus problemas, a roubalheira, e tal, até que está conseguindo melhorar a distribuição de renda.

***

Falta uma senha. Falta um “Do you like Dylan?”

Falta algo que faça a distinção entre as pessoas. Os epítetos direita e esquerda, criados em 1789, como diz Fred Navarro, já não se prestam mais.

Uma possível senha de hoje talvez fosse a seguinte: “Você tem caráter, ou quer dinheiro do governo?”

Humm… Má tentativa. Ninguém admitiria não ter caráter e querer dinheiro do governo.

Talvez a senha de hoje pudesse ser assim: – “Você é petista? Tem emprego no governo?”

Quem respondesse sim às duas questões não seria convidado a participar de qualquer tentativa de transformar este país em algo melhor, mais digno, mais são.

17 de maio de 2012

Rápido no gatilo, Antônio Sérgio Martins respondeu a este meu textinho, este meu suelto, com boas considerações. Estão aí abaixo.

Um comentário para “Como aglutinar as pessoas de bem?”

  1. Sérgio

    Seu post é muito rico e emocionante.

    Excedeu na generosidade comigo. Não tocou nos defeitos, brutais. Mas talvez tenha captado a vontade de mudar o mundo que ainda me assalta, já sessentão e certamente setentão, oitentão …. Mudamos muito ao longo da vida, em praticamente todos os planos, mas o dolo da vida, o que a justifica para nós mesmos, acredito que não.

    Tenho só uma observação, certamente longa (a síntese é quase inatingível para este escriba).

    Não devemos cair no binômio “corrupto/aproveitador” x “pessoas do bem” (e o tudo que significa).

    A questão moral (no melhor sentido) não é predicado de esquerda ou de direita, ou de centro (claro, refiro-me ao campo democrático).

    É pressuposto da cidadania. E da transmissão do bom legado às gerações que nos sucedem.

    Existem pessoas de direita com valores morais do bem. Trancredo Neves, por exemplo.

    Da mesma forma, existem pessoas de esquerda (democrática, sempre, sempre, sempre) com valores morais do bem. Mandela.

    Cito esses dois seres emblemáticos para radicalizar a discussão. Mas teríamos muitos nessa Terra Brasilis.

    Também não caracteriza, no campo democrático, esquerda, direita e centro e suas nuances, a questão social. Alguém imagina que Tancredo Neves seria cúmplice do nosso sistema de saúde pública, ou do nosso sistema educacional? Ou ainda de como o tecido urbano existe nas periferias?

    As divergências, sempre no campo democrático, são no como resolver essas grandes questões. Uns privilegiam, ou melhor, têm o viés do estado Hobin Hood, outros têm o viés do mercado como última instância para a indução do desenvolvimento, em todos os planos. Como existe a rotação no poder, ora uns, ora outros, melhoram seus países (às vezes pioram ….).

    Essas divergências e esses caminhos caracterizam, sim, do ponto de vista deste escriba os quadrantes esquerda, direita, centro, centro-direita, centro-esquerda etc.

    Na América Latina (e em particular no Brasil) a esquerda totalitária e/ou de viés autoritário conseguiu, nas mentes, cravar o termo “esquerda” como se fosse sinônimo de práticas totalitárias e autoritárias.

    Isso nada tem a ver com a tradição mundial do movimento de esquerda, institucionalizado por Marx, nos anos oitocentos, e plasmado na Internacional, que se dividiu, décadas depois, em socialdemocracia (mais trabalhismo, mas socialismo democrático) e comunismo (Lênin e Trotsky na cabeça). O primeiro, de reforma democrática do capitalismo. O segundo, mudanças via a revolução. Deu no que deu. Os primeiros, em nações capitalistas democráticas (não sem exploração, desigualdades etc). Os outros, implicaram em regimes totalitários e economicamente em capitalismo de estado coexistindo com ilhas de socialismo na economia.

    Com a ruína do sistema soviético, os primeiros, os socialdemocratas/trabalhistas/socialistas-democráticos venceram e conquistaram a vigência história. Os seguidores de Lênin e de Trotsky cairam no isolamento e na absoluta minoria (não se pode, a rigor, dizer que a China é continuadora desta tradição “vermelha”. Ela é outra coisa).

    O PT brasileiro acrescentou uma pecha particular à noção da esquerda, tal qual o viés totalitarista e autoritário reivindica. É a corrupção como sistema de construção de alianças políticas, de manutenção das máquinas partidárias e, não menos importante, como locupletação de operadores dos esquemas. E, adicionalmente, relações incestuosas com o crime organizado, com as máfias que estavam incrustradas nos esquemas de governo e que agora adquiriam dimensão nacional.

    Meu caro Sérgio. Existe sim, a esquerda democrática e ela tem, felizmente, dimensão mundial. Não podemos, nós, entregar esse vasto movimento histórico que mudou a face da civilização ocidental (claro, com o apoio e contribuições essenciais também da direita democrática, vide Churchill, Konrad Adenauer, De Gaulle) e continua sendo a grande esperança de avanço universalizador de direitos e deveres. Não podemos entregar a uma concepção totalitária e autoritária forte na América Latina (vide Cuba, Chavez, peronismo de esquerda, Tupac isso, Tupac aquilo, Farc, Evo Morales, aquele equatoriano e outros) esse patrimônio histórico.

    Gorbachov, por exemplo, aderiu à socialdemocracia, explicitamente, ainda nos anos noventa. O Partido Comunista Italiano (mutou-se geneticamente para Partido Democrático de Esquerda e, na atualidade, Partido Democrático) seguiu na mesma direção. E muitos e muitos outros.

    No Brasil, o PPS tenta seguir esse caminho, limitado por seus contornos históricos, mas lutador nesse caminho. Áreas expressivas do PSDB, idem. Idem para a parte sadia dos verdes. Há pedetistas e membros do PSB muito sérios. No PMDB, idem (estes cada vez mais periféricos). Muita, muita, muita gente inorganizada, Brasilzão afora messe espectro. Até mesmo nas fileiras petistas há gente dessa área de pensamento, uns iludidos, outros acovardados, ou ainda lutando para sobreviver. Mas há.

    Não dá para coligar todo o campo democrático (direita, centro e esquerda) sem “faróis” diversos, múltiplos, plurais e diferenciados. No terreno democrático, FHC, Serra e Roberto Freire (e mesmo Marina) não estão no mesmo campo de, por exemplo, políticos sérios do PSD (Kátia Abreu, Kassab, por exemplo) e do DEM. Para que os próximos se coliguem, é necessário que os mais próximos se explicitem. Unidade séria e, sempre, unidade na diversidade, com campos determinados.

    Desculpe o texto longo, em torrente, tal qual o pensamento fluiu.

    Mas, devido à profundidade do texto que você escreveu no seu blog, senti-me compelido a explicitar.

    Acho que a contradição “avançados/progressistas” x “reacionários”, ou “caras do bem” x “corruptos e aproveitadores”, ou oposições do gênero, captam aspectos da realidade política, mas não a totalidade. Melhor, a diversidade.

    Por fim, como pernambucano (cidadão do mundo deste que formada aquela Capitania), penso sempre no mundo. Era da corrente comunista mundial, na esfera chinesa (pouquíssimo tempo), depois soviética (melhor), no final “Gorbacheviano” (já via a luz) e finalmente, antes que tarde, aderi de corpo e almo à socialdemocracia, na melhor tradição dos italianos, espanhóis, ingleses e, sobretudo, os vitoriosos do norte da Europa. Ser “mundial”, não só faz muito bem a um lusopernambucano (tenho dupla nacionalidade), mas, tenho orgulho, está no meu DNA, quem sabe desde o ventre.

    Grande abraço,

    Antônio Sérgio

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