Voltei à cachaça

Nas férias de outubro, voltei à cachaça.

A frase é a mais pura expressão da verdade, embora seja necessário dar duas explicações.

A primeira: estou aposentado há uns quatro anos, e portanto a noção de férias é algo meio esquisito. Quem tirou férias, as primeiras de um mês inteiro em mais de dez anos, foi a Mary; eu apenas a acompanhei nas férias dela, já que aposentado, a princípio, está em férias eternas – embora, é claro, o eternas não seja a expressão da realidade dos fatos.

A segunda explicação necessária é que, a rigor, nunca tinha abandonado a cachaça, e portanto não poderia propriamente ter voltado a ela.

Férias, para o aposentado aqui, são extremamente cansativas

São figuras de linguagem, tanto as férias quanto o retorno à cachaça – ou talvez não exatamente.

Os aposentados, a princípio, por princípio, não fazem nada. Tem um amigo meu, motorista do ponto de táxi na Apiacás com João Ramalho, que toda vez que me encontra pergunta: “E aí? Tá acordando cedo pra ter mais tempo pra não fazer nada, como dizia meu tio?”

Porém, se os apontados passam o ano inteiro sem fazer nada, é uma danada de uma rotina. Então, é preciso tirar férias da rotina. Mas, como o aposentado não produz mais nada, só sai de férias quando a mulher, mais jovem, que trabalha feito uma condenada, consegue sair de férias.

Deu-se então que Mary conseguiu sair de férias e me carregou para Belo Horizonte, e depois Congonhas, e depois Tiradentes, e depois Belo Horizonte de novo, e depois de volta a São Paulo, e depois (que energia tem essa mulher) para Juquehy. E depois de volta a São Paulo de novo, onde cheguei exausto, precisando de férias.

Mas eu queria falar não era sobre aposentadoria, nem férias, mas da cachaça.

Cachaça, ou booze: qualquer bebida forte pra cacete. Coisa de pobre, de bêbado

Cachaça, para mim – assim como para muita gente boa – é o substantivo comum para designar bebida.

O inglês, essa língua maravilhosa, riquíssima, expressiva, que alguns detestam por ser a língua dos imperialistas exploradores filhos da puta, tem um substantivo comum para designar bebida: booze.

Booze é qualquer bebida alcoólica, segundo meu Longman, o ótimo Dictionary of English Language and Culture. O Longman não diz, logo ele que é dicionário não só da língua, e também da cultura, mas eu sei que booze é uma palavra forte, pesada. Booze, que segundo o Longman é apenas “alcoholic drink”, na verdade é bebida alcoólica forte, pesada. Booze não é usada para um copo de vinho, de champagne – sequer para quatro garrafas seguidas de vinho ou champagne. Booze é coisa forte. Booze é coisa de pobre – ou de bêbado.

Para mim, o sinônimo em português de booze é cachaça. Quando a gente diz: “tomei uma cachaça, e aí então…”, a cachaça pode ser uísque de 8 anos, de 12 anos, vodca nacional, vodca russa, polonesa, finlandesa, grapa italiana, bagaceira portuguesa, akvavit dinamarquesa – ou até mesmo cachaça, pinga, esse troço feito no Brasil.

Vixe. Me alonguei nos prolegômenos. O que eu queria dizer é que, nestas férias de outubro, voltei à cachaça. Literalmente falando.

Feijão tropeiro com costeleta de porco pede uma cachaça

A culpa, na primeira vez, foi de Minas Gerais.

Minas produziu e produz muita coisa boa, e exporta pro mundo inteiro: além de queijo e pão de queijo, também minérios e mineiros, minérios, que o digam, respectivamente, a Vale do Rio Doce e Governador Valadares. E também cachaça.

Então, no Ora Pro Nobis, restaurante de comida mineira tradicional em Tiradentes, onde almojantamos um feijão tropeiro com costeleta de porco das 5 da tarde da sexta-feira até não tenho a menor idéia de que horas, pedi uma cachaça – a bebida perfeita, ideal, única, para acompanhar comida mineira.

As opções eram várias, várias demais, e então perguntei qual era a mais indicada pela casa. Aí veio uma cachaça em copo grande, imenso. Mary se assustou. Eu também me assustei. Fiquei bêbado só de olhar o tamanho da dose de cachaça.

Aí lembrei do que diziam sobre meu pai, cachaceiro profissional, e então, como ele, dei uma generosa dose pro santo. Só depois de ter diminuído o volume gigantesco foi que beberiquei um tiquinho da marvada pinga.

Pedi nova dose. E, da nova dose, doei pro santo bem pouquinho.

“Esse negócio de cachaça tem virado uma mania, uma coisa séria, né?”

Corta, passa para nova seqüência. Muda o cenário.

Estávamos na segunda fase das férias, num belo hotel em Juquehy, lugar caro. (Verdade que, em termos da relação custo/benefício, muito bom – mas, de qualquer forma, caro.) Mineiro, pão-duro, tinha levado uma garrafa de cachaça escocesa de 8 anos comprada no Pão de Açúcar ali do bairro pra beber sem ter que pagar os preços mais caros do hotel da praia de gente digamos assim não propriamente pobre.

A cachaça escocesa tem sido minha bebida predileta há muitos anos, décadas. (Tinha começado, jovem, com pinga mesmo, depois tinha passado pra vodca, e depois estacionei na escocesa. Só muito de vez em quando tomava, nos últimos tempos, uma Espírito de Minas, ou até umas Havanas que herdei do Seu Jamil.)

Cachaça boa, a que aquele povo ao norte da Inglaterra produz. Não tenho predileção especial; minha favorita é a de oito anos mais barata no momento em que estiver comprando, seja Johnny Walker Red Label, Cutty Sark, White Horse, Black & White, William Lawson’s, The Famous Grouse. Whatever. Não tenho gosto refinado. Qualquer uma – a que esteja mais barata no momento naquele supermercado, naquela adega.

Mas o menu do belo hotel da praia de elite, ou quase elite, tinha – não sei dizer o número exato, mas eram uns 20 rótulos de cachaça. Pinga. Manguaça.

Corta, flashback. Tiradentes de novo, primeira metade das férias do mês de outubro. Estávamos pagando a conta na pousada. Conversávamos com o Leonardo, àquela altura amigo de muito tempo, pessoa legal, garotão jovem, empreendedor paulista que trocou a loucura de São Paulo pela loucura de trabalhar feito um escravo em seu próprio empreendimento nas Minas Gerais. Ele nos oferece como brinde de despedida uma garrafa de cachaça, uma premiada por não sei quem.

Flashback dentro do flashback. Em várias lojas de Tiradentes, vimos exposição de cem, duzentos tipos de cachaçam como na foto abaixo – e reproduções do ranking da Playboy das melhores cachaças.

Volta ao flashback anterior. O garotão Leonardo diz: “Esse negócio de cachaça tem virado uma mania, uma coisa séria, né?, nos últimos, sei lá, cinco, seis anos”.

Faz tempo que a cachaça vem virando coisa elegante

Como todo garoto jovem, Leonardo se engana.

Eu não saberia dizer com exatidão quando foi que a cachaça, a pinga, a manguaça, começou a deixar de ser a bebida dos bêbados, dos pobres, para adquirir o status de coisa fina – mas certamente foi há bem mais do que os seis anos que o jovem Leonardo recorda.

Faz tempo que a cachaça vem virando coisa chique.

Como será que os historiadores conseguem definir as datas exatas?

Quando fiz cursinho – belíssimo cursinho, professores extraordinários, de quem serei fã para sempre –, a História Contemporânea acabava em 1945, ano do fim da Segunda Guerra. O que vinha depois de 1945 já não era História, era Atualidades, com outro professor, igualmente extraordinário.

Os historiadores dizem que o Império Romano começou a decair no ano tal. A História deixa de ser da Antiguidade para a Moderna no dia da queda de Constantinopla.

Como eles conseguem definir essas datas?

Povo doido, os historiadores.

Uma caipirinha de cachaça sem gelo, sem limão, sem açúcar

Não consigo me lembrar sequer do ano em que Anélio Barreto fundiu a cuca do povo do Well’s da Brigadeiro.

Ainda era no tempo do Estadão na Major Quedinho, bem no Centro – portanto, pré-1976. Sei bem que foi em 1976 que nos mudamos da Major Quedinho para a beira do Tietê; isso eu sei sem dúvida alguma.

Fechávamos o Jornal da Tarde lá pelas 2 da manhã, e saíamos para beber. Abriram um grande supermercado na Brigadeiro quase esquina com Cincinato Braga, e, junto dele, surgiu a primeira, ou uma das primeiras Well’s, uma lanchonete/restaurante 24 horas. Fomos lá muitas vezes, meio pra curtir a novidade, meio para mudar a rotina de Mutamba todas as noites.

Como era uma rede americana, e queria atrair um público bom, respeitável, não servia pinga, cachaça, manguaça – servia todo tipo de destilado, menos cachaça. Não queriam pinguços lá dentro. Nego podia ir lá e tomar uma garrafa de uísque – mas não podia pedir pinga.

No entanto, o cardápio do Well’s continha caipirinha.

E então, numa madrugada pós-fechamento, Anélio Barreto, muito sério, pediu para a moça: “Eu quero uma caipirinha de cachaça, sem gelo, sem limão, sem açúcar”. A moça anotou o pedido. Foi andando, foi indo, foi indo, e aí: tóim! Voltou e falou: “Mas isso que o senhor está pedindo é cachaça. E cachaça a gente não serve”.

O próprio Anélio me aconselha a registrar, pelo bem da verdade, que o episódio teve uma continuação. Ao saber do incidente, o maître do Well’s foi até a nossa mesa, conversou conosco, e abriu uma exceção para nós, passando, a partir daí, a servir cachaça para a mesa dos jornalistas.

Ah, o jus sperneandi…

Me ocorre agora, enquanto escrevo sobre esse episódio que achei que tivesse esquecido, que a hipocrisia do Well’s, rede americana, imperialista, safada, é pequena diante da hipocrisia do PCdoB, que se diz comunista quando tudo o que quer e faz é socializar a perda de dinheiro dos 190 milhões de brasileiros ao mesmo tempo em que capitaliza o lucro entre uns poucos.

Mas este aqui é um texto para ser, ou ao menos tentar ser divertido, sem política, essa coisa chata.

“Se misturar cerveja vira coisa de bêbado!”

Então, voltando à cachaça.

Jamais vou me esquecer da degustação de cachaça na casa do Bernardo Carvalho em Salvador.

Acabávamos de passar vários dias maravilhosos na Praia do Forte. Estávamos hospedados na casa do Bernardo por dois dias, antes de voltar pra São Paulo – um gostoso apartamento em prédio de três andares diante da Praia do Flamengo, logo ao norte de Itapoã, lugar delicioso, quase chegando já em Lauro de Freitas. E ele, festeiro eterno, marcou para a noite de sábado, sem nos consultar, uma degustação de cachaça. Convidou uma dúzia de amigos.

Bernardo é um seriíssimo apreciador de cachaça. Bem, Bernardo é seriíssimo em tudo que faz. Ainda nos anos 80, final dos anos 80, foi sócio de uma cachaçaria em Pinheiros, uma das primeiras cachaçarias de São Paulo, se não estou muito enganado. Hoje há dezenas. Naquela época, não.

Mas então Bernardo marcou uma degustação de cachaça na casa dele.

Mary, diferentemente de mim, não é chegada à booze brasileira. Sugeriu ao Bernardo comprar umas cervejas. Ele foi peremptório:

– “Ah, não! Se misturar cerveja vira coisa de bêbado. Vamos fazer uma degustação de cachaça!”

Como não tinha nada para beber, fiquei sóbrio a noite inteira

Bernardo serviu uns 12, 15 rótulos diferentes, talvez mais. Os convidados e convidadas tomavam um tiquitinho mínimo, em caçambinhas mínimas, e faziam observações iguais às dos sommeliers: ah, esta aqui tem um bouquet que faz lembrar um pouco um leve gosto de carvalho. Esta outra tem um flavour levemente mais adocicado, penetrante. Esta é levemente frutada…

Eu olhava aquele povo como se estivesse sendo apresentado a um bando de E.Ts vindos de diferentes galáxias, como no bar que George Lucas inventou num dos primeiros filmes da série Guerra nas Estrelas. E, como não tinha nada para beber, a não ser aquelas microdoses, fiquei sóbrio a noite inteira.

Às cinco da manhã, não tinha ninguém bêbado. Os convidados iam se retirando sobriamente, comentando que aquela tal era melhor do que a outra fulana. E marcando uma nova degustação para daí a algumas semanas.

Algumas pessoas bebem demais e são viciadas, outras bebem o mesmo tanto e não são

Em Tiradentes, tinha garrafa de cachaça de R$ 400,00. Em Juquehy, tinha dose de cachaça de R$ 30,00.

E aí me lembro de Don Birnan, o personagem interpretado por Ray Milland em Farrapo Humano/The Lost Weekend, de Billy Wilder. Lá pelas tantas, Don Birnan confessa, desesperado, que quer uma garrafa de booze – não importa a marca, que se dane a marca. Quer é uma garrafa da booze mais barata que houver, pra encher a cara.

Quando tinha 21 anos, e era um repórter iniciante, tive o primeiro contato com um alcoólatra, então lutando para deixar o vício. Na casa dele, no extremo Oeste do Estado de São Paulo, não podia haver nada de álcool, coisa alguma, nunca. Aquilo me impressionou demais. (Mais tarde, a vida é mesmo cheia de surpresas, fui me apaixonar pela irmã dele, mulher fantástica, extraordinária. Mas essa é outra história.)

Jamais vou compreender os muitos, tantos, mistérios da vida. E não estou falando dos maiores, mais importantes – quem sou, onde estou, para onde vou. Esses são complexos demais.

Me refiro apenas a mistérios bem menores. Tipo por que algumas pessoas bebem demais e são viciadas, e por que algumas outras bebem o mesmo tanto e não são.

Se fosse pra falar muito sério, eu diria que vício – qualquer um – é degradante.

Tenho o maior respeito pelas pessoas que abandonam o vício – qualquer um, crack, cocaína, álcool, tabaco.

Tenho o maior respeito por todos os AAs, NAs.

E então estou começando a alternar o booze escocês com o mineiro

Mas, como este era um texto para ser bem humorado, brincalhão, e como o meu alcoolismo é suave, volto ao início: nas férias, agora em outubro, voltei à cachaça.

Chequei no supermercado ali pertinho: eles têm uns 30 rótulos diferentes de cachaça. Os preços variam demais, do acessível ao muito caro.

Vou continuar preferindo o booze escocês, tão gostoso on the rocks quanto cowboy, a seco, puro. Mas a verdade dos fatos é que, no cowboy, no a seco, puro, já comecei a alternar o booze escocês com o booze mineiro.

Tomados cowboy, são tão bons quanto, o escocês e o mineiro.

Não sou nacionalista. Na verdade, tenho imenso, gigantesco horror a nacionalismos, de qualquer tipo. Nacionalismo me lembra nacional-socialismo, nazismo.

É apenas uma questão de gosto, e de bolso. Os preços e o gosto do escocês e do mineiro se equivalem.

O único problema é que, como são caros, esses boozes bons, e sou um mineiro pão-duro, seja o booze mineiro ou escocês, o santo fica a seco.

São Paulo, outubro/novembro de 2011.

3 Comentários para “Voltei à cachaça”

  1. Que texto divertidíssimo. Já sei o que levar na próxima vez que for encontrar vocês ;-)

    Meu pai – que se garantia na cerveja – abandonou-a por um leve bebericar de cachaça…o que torna tudo mais econômico (pra ele).

  2. UM, você está cada vez melhor. Que coisa, o tempo, para nos aperfeiçoar e, quando não é demais, nos dar como companhia o tal do Alzheimer ou de seu confrade Parkinson. Uma sugestão: reduza os intertitulos, que às vezes atrapalham o fluir da leitura.

  3. Sergio Vaz, quando vi que você estava fazendo o flashback do flashback pensei: ele seguiu meu conselho de tomar três doses para dissipar as dúvidas. Nada, é só uma brincadeira. Ficou ótimo. Mas murmurei mesmo, como faz minha cunhada Dena, “Ai, meu Pai”, quando você enveredou pela rede americana safada e o PC do B. Felizmente era uma pequena inserção do juz, muito justa. Caro amigo: o texto ficou ótimo e me proporcionou grande prazer. Gostar de escrever é mesmo uma cachaça.

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