Um dia ponho uma lauda na Remington

Preciso mandar um texto para o Servaz, faz tempo que não me dou ao prazer. Muita correria… O que há de agradável na minha mente (de ruim, basta o noticiário), para botar no papel?

Papel? Um dia ponho uma lauda na minha velha Remington e saio a escrever com ela como se estivesse acelerando um Chevrolet coupê da época do velho Al (Capone). Vou ter a garantia de chegar ao fim do texto, mesmo que à luz de vela.

No domingo, há dois dias, despencou mais um oceano sobre Guarulhos, temporal diluviano, com raios de filme de terror, e apedrejamento por granizo (felizmente, pouco). Depois de flanar o fim de semana no interior, coisa de besta, ficamos em um hotel executivo meio chique, em São José dos Campos, pa-ra des-can-sar, eu disse à Haydée que se era para ficar lendo livro no apartamento não precisaríamos dos apelos à natureza das pousadas do interior, do tipo hotel fazenda, que de fazenda só tem cavalo para alugar, e eu estou fora desse negócio de cavalo, que não sou John Wayne, e Haydée não é Barbara Stanwyck (ainda bem, ô mulher feia), se fosse seria um fiasco, jamais chegaria perto de um equino (o trema, que falta faz o trema), e ainda tem a tal comida caseira, quem come fica três dias sem sair de casa (velha piada), o que não acontece em hotéis executivos, que, se você tiver sorte, não tem nenhuma convenção de vendedores de seguro para fazer barulho no lobby e no restaurante, embora, no restaurante, fatalmente estará montado o buffet do almoço, com a desvariedade de sempre, mas, escolhendo bem o hotel, à noite haverá um tranqüilo serviço à la carte, com o garçom errando o uísque e o filé pedido, que se revelará, sob o molho parmegiana, um guerreiro contra-filé, como nos aconteceu, embora tenha se estabelecido depois que a culpa foi do cozinheiro plantonista, que ficou sem saber o que fazer com a carência do mignon, o foca, ele podia ter mandado explicar que só tinha contra-filé, se não quiséssemos ficaríamos com outros pratos do cardápio, variado, mas nessa altura eu também não ia pedir peixe, estava lá: robalo, mas vai que viesse merlusa, é impressionante como a gente gosta de falar do restaurante, quando o quarto era bem interessante, e deu para nos enfadonharmos com alguma classe, e a Haydée assistir à novela num desses televisores finos que deixa as pessoas na tela gordas, mas não foi por isso que deixamos o hotel cedo, e fomos almoçar (onde, onde, bom Senhor?) no shopping e logo nos picamos, de modo que à tarde eu já estava no computador para tocar a matéria do Diário do Comércio sobre o homem que fez a bandeira da cidade de São Paulo, ele é um vexilologista, Deus o ampare, uma pessoa discreta, mas que dá bandeira (ah, ah, ah), mas não fui longe com o texto porque a borrasca caiu duas vezes e a luz acabou três, e fui deitar sem ter terminado com o vexilo(bandeira)logista

Se estivesse batendo à máquina, à luz de vela, a matéria teria ficado pronta.

Janeiro de 2011

2 Comentários para “Um dia ponho uma lauda na Remington”

  1. Adoro, de verdade, seu humor fino, sutil, sensacional. Nada como um texto desse para coroar o final de semana prolongada em que tivemos pane total no computador, engolido por virus malígnos.

    Se fosse na velha e boa Olivetti…..

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