O menino e o cavalo

Viver é perigoso, como disse Guimarães Rosa, mas é muito perigoso mesmo. Às vezes nos damos conta de que já vivemos um monte de dias, e queremos sempre mais, e nos lembramos de trapalhadas e estripulias em que nos metemos, saindo ilesos, ou quase, de todas. Minha mãe, como todas as mães, dizia que havia um anjo da guarda protegendo cada criança. Um para cada uma, senão a tarefa seria impossível.

Mania de subir em muros altos e caminhar em cima deles como se fosse o chão, andar e andar sem medo de cair. No meu caso, eu tinha a prática de percorrer distâncias me equilibrando na linha do trem, em Diamantina.

Meu pai cuidava da digestão caminhando após o almoço e eu, a seu lado, o seguia em cima do trilho da estrada de ferro. Até hoje, andando por Copacabana, no Rio, quando passo pela Avenida Atlântica, eu observo um prédio, numa esquina, e me arrepio de imaginar que, para abrir a porta do apartamento de um tio, eu percorri alguns metros de um parapeito do décimo andar.

Nas peladas de rua eu era driblador, com destino certo para o gol. Minhas camisas eram rasgadas naquela correria louca, mas eu preferia ser agarrado do que calçado. Cair no asfalto ou no calçamento de pedras, sem estar esperando, poderia ser um desastre. Pontos na cabeça, joelhos estropiados, isso era normal. Ainda me lembro de uma redação que fiz na aula de francês contando que tinha trincado o braço (nunca quebrei nenhum osso): “ j’ai felé mon bras”. Êta sucesso.

Recordo-me de um verso de Manuel Bandeira: “os cavalinhos correndo e nós cavalões comendo”. É o que fazemos em volta da mesa, botando a conversa em dia, assuntando sobre passado, presente e futuro. Alguém fala de uma vez em que caiu do cavalo, atolado no brejo. O animal ficou preso e o cavaleiro passou por cima indo, também, se esborrachar na lama podre.

E se fala de amigos que, ultimamente, sem consequências mais agudas, têm fraturado costelas, clavículas e omoplatas praticando esportes equestres.

Aí eu contei a minha história. Como eu cavalguei pela última vez. Menino, visitava meus avós maternos em Pitangui e fui, com um monte de primos, à fazenda do tio Rochinha, sábio político do velho PSD mineiro. Eu não poderia perder a oportunidade de cavalgar pelos campos do oeste. Lá fui eu, com um animal que, me garantiram, era manso. No início do passeio tudo estava sob controle.

Até que comecei a perceber que o bicho trotava tranquilamente desde que nenhum outro passasse à sua frente. Quando ultrapassado, ele apressava o trote. Até que, a cem metros da porteira da fazenda, um primo acelerou o seu animal. O meu começou a galopar, disparou em direção da porteira que estava fechada, eu me agarrei a ele, que era o dono da situação. A porteira chegando, chegou. E ele saltou por cima dela. Eu agarrado a ele, no corpo e nas cordas. Finda a façanha, ele estancou e eu desci. Para nunca mais subir em nenhum cavalo, por mais manso e belo que seja.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em agosto de 2011.

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