Meu reino por uma causa

Um jovem é um ser imaculado por natureza, e por ser puro é inimputável.

Antes de crescer, ele tem direito a uma cota de desatino que já lhe é concedida não só pela natureza mas pela má consciência dos adultos, que vêem neles a encarnação dos sonhos que perseguiram na juventude e abandonaram para tocar a maldita, prosaica e material vida.

Por isso é muito malvado e reacionário querer impor freios à natural energia criadora dos jovens.

É isso que faz, por exemplo, o repórter da TV Globo chamar de “meninos” meia dúzia de marmanjos jubilados que usam o campus da universidade para exercitar seu peculiar senso de democracia, onde 300 se acham no direito de dizer o que os outros 84.700 devem fazer ou pensar da vida.

É muito “libertador” querer expulsar do campus universitário uma polícia que foi chamada para reprimir o crime (e conseguiu reduzi-lo em quase 90%) mas que não pode aplicar a mesma lei a todos, porque, como sabemos, no nosso modelo de democracia, todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais que os outros.

A lei é para os comuns, e alguns vetustos senadores e alguns sobredotados estudantes universitários são incomuns – portanto, fora do alcance da lei.

Desde maio de 1968 a efervescência política juvenil foi alçada à categoria de pensamento, ainda que a memória daquela época não tenha deixado legados muito mais concretos do que a mitificação de alguns danny-le-rouges e alguns filmes épico-existenciais de Godard e Bertolucci.

O episódio da reitoria da USP está mais para uma estética J.B.Tanko do que uma estética Bertolucci, mas mesmo assim é compreensível que jovens ajam como jovens e demonstrem toda a sua monumental ignorância histórica comparando o chega-pra-lá da PM com a repressão da ditadura e chamando de “tortura” as duas horas de calorão forçado dentro de um ônibus.

O cômico quase desaparecimento de um aluno filho de pai militante, que esteve a ponto de transformar em mártir o pimpolho que estava bem protegido na casa da mamãe, encerrou com chave de ouro a épica jornada dos estudantes à procura de uma causa.

A desocupação da reitoria, em cumprimento a uma decisão judicial de reintegração de posse, foi executada com a devida serenidade e cautela pela tropa da PM, e os estudantes e seus apoiadores procuraram com minúcias um hematoma que fosse para transformar em bandeira, mas não conseguiram achar sequer um mísero arranhão para chamar de arbitrariedade ou violência. Um fiasco.

Ao ver aqueles meninos e alguns nem-tão-meninos privilegiados olhando para a polícia com o desdém que os oprimidos dedicam aos opressores, foi impossível não lembrar do intelectual comunista italiano Pier Paolo Pasolini e seu famoso poema sobre a Batalha do Valle Giulia, um embate entre policiais e estudantes da Universidade de Roma ocorrido em março de 1968, no contexto da revolta estudantil que abalou toda a Europa.

Naquela batalha, dizia o marxista Pasolini, ele simpatizava com os policiais, pois eles eram os verdadeiros filhos de famílias pobres, e os estudantes eram os filhos da burguesia.

A eles disse:

“Vocês são medrosos, inseguros, desesperados (muito bem)

mas sabem também como ser

prepotentes, chantagistas, seguros

prerrogativas pequeno-burguesas, amigos.”

 Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 11/11/2011.

2 Comentários para “Meu reino por uma causa”

  1. Texto espetacular. Parabéns!
    Nesse episódio, os baderneiros representam apenas a si mesmos e a suas agremiações esquerdistas.
    Os alunos de verdade querem é estudar!
    Os centros academicos da FEA e do Centro de Engenharia Eletrica ja emitiram notas contrarias à invasao de predios publicos e à greve, criticando o DCE. E os alunos de Letras romperam o piquete grevista e foram assistir aula (video no Youtube!).
    Como era de se esperar, quem apoiou os baderneiros foi um politico petista!

    Abraco!

  2. Bem, talvez a “pureza jovial” ocorresse nos anos 60, antes de a ditadura conseguir incutir valores ianques na atual juventude (carreira, status, sucesso individual, sei-la-o-quê individual etc.), que transformam os atuais jovens em “empreendedores” sem nenhum escrúpulo.

    Não se observa pureza na juventude, desde os tempos da Legião Urbana. A ideia do Vaia é anacrônica.

    Lamento profundamente o texto do RAFAEL (“Os alunos de verdade querem é estudar”). Pois os alunos de História e Sociologia não querem apenas estudar, mas também produzir algo para a coletividade, para o seu meio. Se necessário, ganham as ruas, com ou sem petismo. Muito infeliz a tal frase.

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