Maníaco sexual, eu?

Num fim de tarde, chegamos a Ribeirão Preto cansados, depois de um dia correndo atrás da notícia. Se não me engano era coisinha leve, um rapaz de boa aparência, bem vestido, que se insinuava a moças de família da região, como médico. Tão educado, que as escolhidas logo se apaixonavam e pensavam em casamento. Acabavam vítimas de um serial killer, tal era a verdadeira natureza do boa pinta.

Bem, a esta altura seria mais interessante contar a historia do serial, mas, já que comecei com a minha, sigo em frente. “Chegamos a Ribeirão” eram este que vos escreve e o fotógrafo Antonio Carlos Mafalda, um gaúcho barbudo vindo da Zero Hora, de Porto Alegre.

Na volta das viagens, na redação, eu me divertia contando (com exagero) como ficava traduzindo o gauchês do Mafalda. “No restaurante ele pediu ao garçom: ’Índio véio, me traga um salsichão’, e eu traduzi: amigo, me traz uma linguiça.” Fora o fato, verdadeiro, de chamar PM de brigadiano (de Brigada Militar, a PM gaúcha).

Em Ribeirão Preto não conseguimos um único quarto de hotel. Havia uma convenção de dentistas (ou seriam médicos?) e até mesmo o bom Stream Palace, a duas quadras do Pinguim, estava lotado. Acho que foi um motorista de táxi quem deu a dica. Subimos pela Rua da Saudades (tínhamos um carro alugado) e chegamos a um motel.

Imagine um gauchão parando na recepção com outro homem. Não imagine, porque Mafalda, ao volante, não parou. Passou batido e estacionou uns cinco metros adiante. Desci do carro, caminhei até a janela da recepção, falei sobre os hotéis lotados (eu também não queria ficar mal na fita com outro barbudo) e pedi dois quartos.

Nos hospedamos. Investiguei o banheiro, boa cara. Tirei a roupa, para o banho. Fui ligar a luz do quarto e… onde? Não achei o interruptor. Vasculhei a cabeceira, havia ali comando de rádio e TV e outros botões. Um deles me pareceu um interruptor. Apertei. Nada.

Procurei com mais cuidado na parede, perto da porta de entrada. Nem sombra de interruptor. Então pensei (a gente tem cada idéia de jerico): vai ver está no lado de fora. Abri um pouco a porta, o suficiente para estender um braço para fora. E comecei a busca pela parede. Procurava, arrastava a mão, e não achava nada. Acabei pondo meio tronco – nu – para fora, acho que até um pedaço de perna. Tateei, tateei, mais uma vez sem resultado.

Fechei a porta e estava a caminho do telefone, para exigir uma explicação de quem atendesse, mas esse “quem” foi mais rápido. O telefone tocou. Era uma moça.

– Está tudo bem? O senhor precisa de alguma coisa?

Ainda irritado vociferei contra a má qualidade do projeto do quarto, que transformou o simples acender de luz em um quebra-cabeças, etc.,etc.. A funcionária me ouviu educadamente. Quando parei, me orientou para aquele botão da cabeceira que parecia um interruptor.

– Já apertei esse, moça. Não adiantou nada.

Ela, atenciosa.

РO senhor ṇo aperte, ele ̩ para girar.

Girei e o quarto se iluminou. No banho, repassou ligado (antigo caiu a ficha): o que a pessoa que me viu, e deu o alerta (e atraiu sabe Deus quantos outros), achou da minha performance? Um sujeito pelado, encoxando um batente, e passando a mão na parede de fora de um quarto de motel? Imaginei a testemunha contando para os amigos: “Já vi muita coisa, mas uma tara como essa nunca”.

Bem, hoje penso o seguinte do que aconteceu em Ribeirão Preto. Diante de um serial keller, um maníaco sexual por acidente pode ser perdoado.

Setembro de 2011

2 Comentários para “Maníaco sexual, eu?”

  1. Mas eu exijo, como seu leitor há mais de 40 anos (inclusive privilegiado, lia tudo antes do público) que você conte a história do serial keller, pois fiquei ligadíssimo no assunto… (Naturalmente, adorei sua tara inédita).

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