Luzes, câmera, faxina

Poucos temas são tão capazes de convergir para a absoluta unanimidade como o combate à corrupção. Ninguém vai ver ninguém defendendo publicamente a roubalheira. Muitos o fazem, mas entre quatro paredes, de preferência blindadas. Outros fingem que não sabem de nada. Mas a maioria, incluindo corruptos de carteirinha, esbraveja contra a bandidagem e sai em defesa de punição, “doa a quem doer”.

Antes de tudo, faxina ética é algo popular, com farta aprovação na classe média e entre escolarizados. Quem se associa a ela dificilmente deixará de colher frutos. Essa parece ser a inspiração publicitária: identificar a presidente como líder dessa cruzada.

Curiosamente, Dilma tem conseguido brilhar mais no bloco dos contrários do que entre os seus. Em São Paulo angariou apoio dos governadores do denso colégio eleitoral do Sudeste, dominado pelo PSDB, e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a quem ela faz questão de demonstrar especial apreço. Antes, no Alvorada, recebeu o prefeito da capital paulista.

Do governador Geraldo Alckmin, colheu loas, até um tanto exageradas. De Gilberto Kassab, apoio explícito. De FHC, a certeza de que pode contar com ele na batalha contra os larápios do dinheiro público. Ele estaria recomendando armistício aos tucanos quanto à CPI da corrupção.

A idéia, como tudo dentro do PSDB, divide o partido. Mas, como tudo que FHC diz, provoca. Assanha a oposição que, tirando uma meia dúzia de combatentes aguerridos, quase nove anos depois continua sem saber o que fazer.

A dislexia oposicionista é tamanha que na quinta-feira – e vale aqui a digressão – o deputado ACM Neto, líder do DEM, atacou as privatizações, e parlamentares unidos do PSDB-DEM-PPS votaram contra um projeto para os Correios que, originalmente, é da lavra de Sérgio Motta, ministro das Comunicações de FHC.

Não menos estranho é ver o PT, partido de Dilma, falar pouco ou quase nada sobre a ação dita saneadora. Quer fazer crer que se comporta assim para preservar Lula, a quem seria atribuída a herança maldita de ministérios imundos. Como o ex tem linha popular direta e nunca precisou desse tipo de defesa, o mais provável é que os petistas temam serem pegos, eles próprios, com a boca na botija.

Embora mais um ministro tenha despencado – o quarto em dois meses e meio -, a semana que passou foi ouro em pó para Dilma. Começou com conselhos de Lula, terminou com carinhos de FHC.

Quanto à propalada faxina, os movimentos são tímidos, punem uns, preservam outros. Passam longe de enjaular corruptos. Mas garantem a personagem e a propaganda.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 21/8/2011.

Um comentário para “Luzes, câmera, faxina”

  1. Muito bom; apresenta uma abordagem sucinta e completa, diante da exiguidade do espaço, sem qualquer viés partidário. Gostei; acrescento um trechinho de outro samba: “se gritar ‘pega ladrão’, não fica um , meu irmão”

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