Incomunicável e estrangeiro (2)

Foi um pavor, para mim, minhas primeiras horas no Rio de Janeiro. Sem o telefone e o Moleskine, não estava preocupado, pois poderia ligar para minha casa e pedir os números de algumas pessoas que eu deveria encontrar naquele dia. Fui lá para isso. Mas como desgraça pouca é bobagem, chegando ao meu lar carioca descubro que o telefone fixo não está funcionando. Só mais tarde saberia que um curto-circuito emudecera o aparelho. O que fazer se, desacostumado de memorizar números nos últimos meses, estou órfão de contato? Eu tinha tempo para os meus compromissos e ainda esperança de que o telefone de casa voltasse a funcionar.

Fiz o que deveria fazer no momento. Nas mãos carregava o novo livro de Bartolomeu Campos de Queirós. Fui almoçar vinho, carne e literatura. Carregava grandes esperanças, mas começava a me preocupar com o isolamento em que me sentia. Gosto do Rio e tinha compromissos, mas se fosse em Belo Horizonte, o meu lugar, eu voltava para casa e tudo se resolveria. Sentia uma tensão inexplicável que só o texto do Bartô aliviava.

Volto para o apartamento e a comunicação continua não existindo. O telefone está mudo. Saio para a rua e compro cartões para os orelhões. Primeiro ligo para minha casa em Beagá. Quer dizer, tento ligar, pois nenhum orelhão funciona. Rodo quarteirões em busca de algum que esteja livre do vandalismo ou da falta de manutenção. O calor está bravo e a ansiedade aumenta. Agora, um dá sinal. Minha casa não atende. Preciso saber os telefones de cinco pessoas, que eu sabia de cor mas não sei mais. Espero um tempo e volto a ligar para casa. Alguém atende, mas o raio da ligação cai.

Tento novamente. Nada. Vou em busca de outros aparelhos. Uma luz de esperança me chega, não sei de que escaninho: o número do Ronaldo Bastos bate na cabeça. No quarto orelhão eu consigo falar com ele, mas ele está na rua e não tem o endereço do compromisso noturno. Me pede dez minutos, quando deve chegar em casa. Tento novamente a minha casa: ocupado. Tento mais uma vez: o orelhão não dá linha. Passaram-se quinze minutos: quando o Ronaldo ia passar o endereço, a ligação cai. Ligo imediatamente: ocupado. Minha casa em Belo Horizonte: ocupado. Ando de orelhão em orelhão, testo todos. Ligo e religo.

O que estou fazendo nessa cidade brasileira, incomunicável como se estrangeiro fosse?

Me lembro de uma vez em São Paulo, há muitos anos, perdido na Avenida Ipiranga, sem possibilidade de pegar táxi e sem conhecer os ônibus. Voltei para casa, arrumei a mala e fui para a Rodoviária. De volta pra casa. E meu amigo Milton Nascimento não deve ter entendido nada. O fato é que passei horas muito ruins, estranhas, perdido.

Chegando em casa, luzes acesas, minha querida filha me pôs no bom caminho, me informou o que eu precisava saber e me olhou com aquele olhar lindo que me apaziguou com o Rio de Janeiro. Ela e o maravilhoso “Vermelho Amargo” do Bartolomeu, que me protegeu das feras naquele dia.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas.

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