De rabo preso

Corrupção não é exclusividade deste governo e muito menos do Brasil. Existe desde sempre em qualquer parte do mundo. Rouba-se menos na Dinamarca ou na Finlândia, mas rouba-se. Rouba-se menos no Chile – país latino-americano com menor índice de corrupção no ranking da Ong Transparência Internacional -, mas rouba-se.

Quase como regra, rouba-se muito mais em países autocráticos, em regimes fechados, sem imprensa livre. E nas nações em que a educação chega a poucas pessoas.

No Brasil, rouba-se escandalosamente. E a um passo tão acelerado que assusta.

Elencar motivos pelos quais a ladroagem grassa no país é tarefa para lá de árdua. Há até os que definem a corrupção como endêmica. Um jeito cômodo para desculpar autoridades e instituições que deveriam zelar pela lisura no trato da coisa pública.

Dizer que a corrupção está no sangue e na alma dos brasileiros é endossar a ausência de fiscalização, o compadrio. É aceitar a pior leitura do franciscanismo e a impunidade eterna. É tolerar. E, ainda que seja lugar comum, corrupção exige tolerância zero.

Ser permissivo com quem rouba também não é invenção deste governo. Mas a insistência em se perdoar malfeitos de companheiros – ou porque o crime é prática corrente, todo mundo faz, ou simplesmente porque é um companheiro e um companheiro tem licença para pecar – é um estímulo à bandidagem.

O ex-presidente Lula inaugurou o estilo. Dilma Rousseff ora faz que não, ora prende-se ao modelito do seu criador. Foi assim ao demorar mais de 20 dias para demitir o ex-ministro Antonio Palocci, reincidente em estripulias, e agora.

Primeiro, pareceu que fecharia o balcão de negócios do Ministério dos Transportes, mas manteve o ministro. Depois, demitiu-o, mas manteve o PR, dono da lojinha desde 2003, com a faca e o queijo na mão para fazer o sucessor.

Tudo em nome da governabilidade. Um termo que se tornou sinônimo de complacência com o mal, popularizado para justificar atitudes nada republicanas do governo e da oposição.

No biênio 2005/2006, a tal da governabilidade foi usada como desculpa para a oposição se esconder diante do maior e mais bem elaborado esquema de corrupção de que se tem notícia.

Na época, poupou Lula. Agora, com desfaçatez, o ex pode até insistir que o mensalão nunca existiu.

Pragas não são fáceis de serem extirpadas. Mas pode-se tentar frear a velocidade e o tamanho da roubalheira. Se o governo tem pouco ou quase nenhum interesse em fazê-lo, os órgãos de controle deveriam agir com maior celeridade. E a oposição poderia parar de correr tanto atrás de seu próprio rabo.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/7/2011.

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