Billy Blanco

Cresci ouvindo músicas brasileiras que entraram definitivamente em minha alma de menino e me acompanham até hoje. Canções e pessoas, naturalmente. Enquanto jogava bola na rua, suava no sobe e desce de nossas ladeiras, o olhar atento guardou muita coisa, mas os ouvidos também. Ouvir Caymmi, precoces cabelos brancos, sussurrando melodias maracangalhas e saudades da Bahia, deve ter me ajudado muito em meu destino de palavras, minha sina musical. Dorival se foi e hoje estarei cantando coisas suas na praça da Liberdade.

Mas eu quero falar mesmo é de quem nos deixou na semana passada, o querido Billy Blanco. Eu ouvi Dolores Duran cantando a “Banca do Distinto”. Talvez eu ainda usasse calças curtas, e de cara me encantei com aquela reprimenda ácida a esse tipo de gente preconceituosa e metida a besta, “que não fala com pobre, não dá mão a preto, não carrega embrulho”, cujo destino é terminar com a terra por cima e na horizontal.

Cronista inspirado, cantou como poucos o Rio de Janeiro, sozinho ou com o mestre Jobim. Falou de amor, “eu pra você fui mais um, você foi tudo pra mim.” E inventaram a Teresa, que foi de um no inverno, de outro no verão, mas não era de ninguém, como cantaram Dick Farney e Lúcio Alves.

Ironizou todos os ridículos personagens de nossa vida social, nos anos 50 e 60 do século passado e que existem até hoje, por aí, nas festas e nas ruas, esses mocinhos bonitos que aceleram e matam no asfalto e se exibem nas colunas de jornais.

A obra do paraense Billy Blanco, “se a gente grande soubesse o que consegue a voz mansa”, está definitivamente guardada no que de melhor se fez em várias décadas, antes e depois da bossa nova. Sorrateiramente ele foi criando suas preciosidades que, simples e inteligentes, foram se aninhando nas lembranças dos brasileiros de bom gosto. São canções elaboradas, feitas daquele jeito descompromissado de quem não força a barra, simplesmente compõe o que sente, o que pensa, o que ama.

“Faço da minha tristeza um carnaval de beleza que noutras terras não tem. Toda riqueza do mundo não vale um terreiro onde faço meu samba com simplicidade, com as pastoras na rua, com um pedaço de lua e a palavra saudade”.

A história da música popular brasileira está repleta de gente assim. Criadores de belezas que amenizam a vida de todos. A música e a poesia de Billy ficam, como fica seu exemplo de batalhador pelos direitos dos autores.

Termino com outros versos-canção dele: “na vida há sempre um pedaço de saudade escondida num vulto de mulher; ninguém consegue escolher felicidade, porém aquela é a dor que a gente quer”.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em julho de 2011.

 

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