Todo amor para a guerra

Não, meus amigos. Isto não é uma declaração belicista. É um problema de acento. Como ocorreu na segunda-feira, 21/12. Washington já estava coberta de neve, e o portal do Globo dava o título: “Neve para a capital dos Estados Unidos”. Mais neve, não chegava tanto?  Claro, eu quis dizer “Todo amor pára a guerra” e o portal, “Neve pára a capital dos Estados Unidos.” O pobre acento agudo, que nos orientava, não estava a postos. Foi retirado à força, e eliminado. 

É hora de reagirmos. Reportariado do mundo todo, uni-vos. Vamos à desobediência cívico-lexical. À rebelião da língua. Uma revolução. Fundemos a Frente Farabundo Marti de Libertação do Acento Agudo, FMLAA. Melhor não, vai politizar. Então, a VTAM, Vai Tirar o Acento da Mãe. Radicalizou. Que tal pelo menos criar um slogan, para escrever nos cartazes do movimento: “Pára com o para. Exigimos a volta do pára.” Confuso. Talvez “Para não, pára sim”. Pior. “Para Pedro, Pedro para só com acento.”

Bem, a sugestão está aí e espero decididas adesões. Da minha parte, faço meu movimento particular. A partir de agora, escrevo pára de parar assim. PÁRA. Sem acento, só para mandar esses filólogos para os quintos dos infernos, ora pois.

Em nome da nomenclatura

A Secretaria da Educação informa a todos os estabelecimentos da rede o que se segue. Nos trabalhos de redação, ficam vetadas formas obsoletas como “a bela ginasiana surgiu à janela”, ou “grupos de colegiais corriam pelo pátio.” Em respeito à nomenclatura de ascensão do corpo discente, devem ser observadas as seguintes formas: “A bela quintasserista do ensino fundamental surgiu à janela”. “Grupos de integrantes do ensino médio corriam pelo pátio.”

Os alunos que desobedecerem esta norma serão colocados de joelho sobre o milho, no canto da sala.

                       Facada no texto        

A editora contratou um copydesk para revisar os textos de seus autores. O copy, hoje chamado fechador, é aquele profissional importantíssimo que lê os textos na redação dos jornais, e pega incorreções. Dele, não escapa nada. Os mais fervorosos (pouquíssimos, felizmente) mantêm obediência cega ao manual de redação. O que reza ali é lei.

Ribeirinho era um copy excelente. Dava bons títulos (outra atribuição do cargo), pegava escorregões a que a língua portuguesa às vezes nos leva. “Seu Carlinhos (chamava tudo mundo de ‘seu’), vem cá. Uma obra pode ser de vulto, mas vultuosa não é. Grave bem: é vultosa. Vultosa, ouviu?”

Os repórteres novos cometiam deslizes, que os velhos já conheciam. Ribeirinho não admitia. Pegou, num texto: “Por outro lado, a queda dos preços pode trazer benefício…”. Foi à mesa do repórter: “Seu André, aprenda de uma vez por todas: por outro lado é sexo anal.” Assim, “pelo visto” era braguilha aberta e “via de regra”, nem te conto, se você pensar nas regras da mulher.  

O primeiro texto que pegou, na editora, era uma história de suspense, com cenários sombrios. O tom vinha logo nas primeiras linhas. “Meia-noite. Um homem empunhando uma faca esgueira-se por um beco sinistro. Ele…” 

“O que é isso?”, o autor quase cai da cadeira, ao ler o texto revisado.  Leu e releu, não estava louco. O texto dizia: “24h. Um homem empunhando uma faca…”

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