Pouco, quase nada

De vez em quando, por e-mail ou pelo correio, alguns estudantes pedem minha biografia. Capas e contracapas de livros dizem pouco, quase nada, garantem.

Penso que a culpa pode não estar em capas nem em contracapas. Afinal, nem sei se tenho biografia.

Sei, sim, que tenho mãe, três irmãos (eram quatro), três filhos, alguns sobrinhos, cunhados, nenhum neto.

Se ainda tivesse pai, sei que conversaríamos sobre chuva, sol, vacas, livros, jornais, horário de verão, política, políticos, coisas úteis, inúteis.

Cultivo alguns medos (altura, avião, carro, ônibus, terremotos), outras tantas coragens (andar a pé, a cavalo, de trem, dormir no escuro), certas esperanças (os livros ainda mudam o mundo), descrenças (de que jeito, com analfabetos sobrando?)

Nasci no sossego mineiro – arraial do Morro do Ferro – em uma fazenda chamada Jacaré, às margens do rio do mesmo nome, como dizem os livros de Geografia.

Saí de lá com dois anos, sem carregar nenhuma das lembranças sempre evocadas, com saudade, por meus irmãos mais velhos.

Um dia, muitos anos depois, voltando à antiga casa, conheci o quarto em que vim ao mundo. Em vão tentei me lembrar de mim.

Cresci – a gente cresce? – em liberdade, nos espaços largos de outra fazenda – Santa Luzia – lá pelos caminhos de São Tiago.

Viajei um pouco, às vezes a gente viaja. Longe, me lembrava da casa, dos livros, das leituras, das conversas, da família, dos amigos. Das músicas sem as quais não se vive, Paulinho da Viola dizendo que as coisas estão no mundo, Lupicínio Rodrigues garantindo que o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa.

Voa tanto, que talvez imagine possuir uma biografia. Acanhada, remendada. Escondida. Quieta, calada, pensativa. Buscando, seja o que for.

 As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site primeiroprograma.com.br, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.

2 Comentários para “Pouco, quase nada”

  1. As pessoas pedem sua biografia porque a adoram. Pelo o que li aqui, você é extraordinariamente admirável e respeitável. Mas tem uma qualidade maior: é contida, como só os bons são.

  2. Gloria,

    te agradeço, ainda que não mereça tanto. Você me leu com olhos generosos, e isso também é marca dos bons.

    Beijo carinhoso
    Vivina.

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