Pecado de omissão

Desde que o jornalista José Casado, de O Globo, trouxe à tona, no início deste ano, detalhes do quase inacreditável terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, assinado “sem ler” pelo presidente Lula no apagar das luzes de 2009, o PNDH-3 tornou-se um dos principais temas em debate no país. Quase não se fala de outra coisa.

Por mais absurdo que possa parecer, seu conteúdo de espírito autoritário, por vezes beligerante, tem lá seus méritos. Mesmo sendo jogo de cena para dar ares de esquerda a Lula e agradar grupelhos radicais, o Plano desnudou o PT e o Governo, e abriu, ainda que por linhas tortas, a discussão sobre polêmicas das quais as lideranças políticas do país se esquivam. E continuam a se esquivar.

De todos os setores da sociedade vieram análises, críticas e defesas veementes. Só não se ouviu a voz daqueles que pretendem o voto dos brasileiros para chegar à presidência nas eleições de outubro. Da ministra Dilma Rousseff, do governador José Serra, da ex-ministra Marina Silva e nem mesmo do sempre arretado Ciro Gomes saiu uma palavra sequer.

Noutros tempos, Ciro sairia atirando para todos os lados. Mas preferiu calar-se, absolutamente submisso à figura de Lula. Faz o que o chefe mandar. Marina, possivelmente defensora das tais comissões de conciliação nos conflitos de terra, é sabidamente contrária a questões como aborto, portanto sumiu do mapa.

Até Heloísa Helena do PSOL, detentora de 12% dos votos na eleição presidencial de 2006 e porta-voz daqueles que são contra tudo e todos, muitos deles dissidentes desiludidos do velho PT, calou-se.
Adiando, como lhe convém, qualquer debate que antecipe a sua campanha, Serra também preferiu a mudez. Entendeu que esta é uma pendenga criada pelo Governo Lula e que não tem de se meter nela. Nem mesmo sobre a revisão da Lei da Anistia da qual foi beneficiário – que acabou sendo amenizada por pressão dos militares sobre Lula – o governador emitiu sinais.

Na verdade, ninguém sabe o que Serra pensa sobre qualquer um dos itens do plano. Joga com a lógica puramente eleitoral e condena seus eleitores à orfandade, sem ter quem os lidere.

Mais grave é a boca fechada da ministra Dilma, já que suas tarefas administrativas incluem a avaliação de cada ato que o presidente da República assina.

Embora o decreto tenha ganhado vida com o aval de seu gabinete e ser tido por muitos de seus apoiadores como uma pré-plataforma de governo, a candidata de Lula fingiu e finge que não é com ela. Não se dignou a dar um pio, privando o país de conhecer suas posições, se é que ela tem ou poderá ter posição sobre alguma coisa.

Tutelada por Lula, sob precisa orientação marqueteira que se embasa em pesquisas de opinião diárias, a candidata oficial abusa dos ingredientes que alimentam o estrondoso sucesso do presidente: jamais descer do palanque e falar só o que lhe convém, mesmo sem lastro algum. Distanciar-se de tudo que possa fazer qualquer marola e atribuir a outro o que lhe pode afetar diretamente.

Nesse absoluto vácuo de líderes que, no mínimo, pecam por omissão (e deviam pagar um justo preço por isso), felizmente o país conta com juristas, filósofos, cientistas políticos, um sem número de blogueiros e, principalmente, jornalistas – aqueles que o governo Lula insiste em querer calar – que nos brindam diariamente com suas análises. Impedem assim que a ignorância, que tanto alegra boa parte dos políticos, seja a voz dominante.

Este artigo foi escrito para o Blog do Noblat

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