O partido político como imprensa

Jorge Castañeda, o intelectual mexicano que foi ministro do Exterior do seu país, numa célebre reflexão, dividiu a esquerda latino-americana, hoje hegemônica nos governos do subcontinente, em duas categorias: os carnívoros e os vegetarianos. Entre os primeiros, os mais vorazes e barulhentos, como Evo Morales, Hugo Chávez e Rafael Correa. Entre os segundos, os mais pacíficos e cordatos, como Lula e os já ex Michelle Bachelet e Tabaré Vasquez.

Castañeda conhece Lula, sabe que ele é economicamente inofensivo. Segue, fingindo que não segue, a cartilha do Consenso de Washington – é um ortodoxo na ação e um heterodoxo nas palavras. Como animador de auditório é perfeito. Segue mansamente os dogmas do mercado, mas mantém a sua militância em permanente estado de fervor alimentando-a com bravatas, como o barulho das vuvuzuelas mantêm excitada a torcida da seleção sul-africana de futebol.

Este Observatório (*) é uma perfeita arena para essa militância excitada. Coloca-se um texto de um, por assim dizer, intelectual de esquerda, questionando e colocando sob suspeição a imprensa livre e independente, e abre-se a porteira para que os mesmos de sempre listem, repetidamente, as platitudes de sempre: PIG, burguesia, liberdade dos proprietários, imprensa partidária, manipulação, distorção, toda aquela velha lista de lugares comuns, tantos quantos eles sejam capazes de repetir – aquilo que o professor Roberto Romano chama de “palavras-embreagem”, destinadas a preencher vazios conceituais com mudanças de velocidade da rotação do motor só para ganhar tempo entre a recitação de um slogan e outro.

Teses prontas

Argumentos não, porque argumentos exigem alguma elaboração, cansativos raciocínios, busca e apresentação de provas – tudo tão insuportavelmente chato. Para que existem os estilemas ideológicos, as palavras de ordem e os clichês? Exatamente para isso, para evitar a mão de obra de argumentar, comprovar, mostrar, convencer. Ademais, não é preciso convencer quem já está de antemão convencido.

Como as maiorias costumam ser silenciosas e não se dão ao incômodo de enfrentar turbas uníssonas, raramente se dispõem a trocar caneladas (porque argumentos para troca são escassos) com a quase unanimidade militante – o que passa a falsa impressão de que a rejeição ao jornalismo independente é uma hegemonia, só porque o barulho da vuvuzuela é mais estridente.

Quando alguém ousa (como faço muitas vezes para exercitar um pouco a dissonância) contrapor-se aos argumentos majoritários, há gente que não hesita em mandá-los, muito democraticamente, “cantar em outra freguesia” (tenho isso documentado). A área tem que ser exclusiva dos que rezam pelo mesmo breviário ideológico. O coral afinado desqualifica o contraditório com a fé dos monges que se defendem do assédio da dúvida com a impenetrabilidade da fé do claustro.

Pois todos os que não são eles são retrógrados e reacionários. Na verdade, eles não defendem a censura, porque é uma palavra muito feia, que no Brasil tem maus antecedentes, ainda que seja praticada com desembaraço em outros mausoléus onde jazem os ossos de suas utopias. Querem uma imprensa “isenta” (no estranho universo semiótico deles, “isento” é quem escreve o que eles querem ler) e de preferência alheia aos fatos, quando estes não são suficientemente favoráveis às teses que eles já têm prontas, catalogadas e organizadas em ordem alfabética.

Não interessa

Esta semana acessei este Observatório e senti falta de comentários a respeito da retirada do ar do jingle comemorativo dos 45 anos da Rede Globo, atendendo a pressões de áreas petistas que viram na publicidade um perigoso e subliminar subtexto pró-PSDB e pró-José Serra, pelo escabroso fato de que a emissora de TV completa exatos e suspeitíssimos 45 anos – o que, evidentemente, induz o telespectador a votar no número 45 nas próximas eleições. Quem é tão lesado e néscio a ponto de não perceber a óbvia ligação entre as duas coisas? A Globo faz 45 anos, logo vou votar em José Serra. A relação causa-efeito é escandalosamente clara e se você der a isso o nome de paranóia prepare-se para ser linchado.

Em compensação, o OI traz conversas abundantemente comentadas e abundantemente unânimes a respeito da metáfora descuidada da presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito – que de resto nem jornalista é – a respeito do papel dos jornais que, segundo ela, estariam substituindo a oposição partidária e exercendo um papel para a qual ela – oposição – politicamente fragilizada, não estaria à altura. (E se fosse Millôr Fernandes repetindo seu histórico refrão de que “imprensa é oposição e o resto é armazém de secos e molhados”?).

Claro que Judith, com sua esgarçada metáfora, cruzou a bola na área direto na cabeça dos que decidiram levar a sua frase ao pé da letra. E eles resolveram mandá-la direto às redes, mesmo que tenha sido necessário desviar sua trajetória com ligeiro toque de mão, como na sublime gatunagem de Maradona no famoso embate contra a Inglaterra, na Copa de 1986. Claro, na guerra de posições, como desperdiçar uma bola dessas? Num debate intelectualmente maduro e não contaminado pelo panfletarismo ideológico partidário, nem pela mano de Diós, seria muito fácil concluir da fala de Judith que, pressionada pela aprovação popular esmagadora que o governo tem, a oposição, acuada, teme assumir as suas verdadeiras responsabilidades. E esse papel acaba sendo assumido pela instituição imprensa, que não depende de votos para cumprir a sua tarefa (ainda que um dos perspicazes comentadores tenha testemunhado, por escrito, que ele não votou em nenhum jornal para representá-lo, numa prova da profunda compreensão do papel da imprensa numa democracia).

A tese central que deveria estar em discussão, se houvesse disposição de discuti-la honestamente, é essa: a fragilidade institucional dos nossos partidos políticos, incapazes de contrapor princípios e diretrizes éticas e programáticas diante de uma avalanche de manipulação populista. Mas isso é assunto para cientistas políticos, não para ativistas.

No facilitário ideológico-partidário, discutir teses a sério é o que menos interessa. Vale mais aproveitar um mote para construir um bom manifesto e açular a torcida para o alarido das vuvuzuelas do que falar sério, com alguma responsabilidade.

Mentes livres

O jingle dos 45 anos da TV Globo foi retirado do ar por uma manifestação paranóica de intolerância ideológica que se aproxima pateticamente do ridículo e ninguém se manifestou?

Se alguém consegue tirar do ar um jingle – com a conivência covarde dos próprios autores, que acharam mais cômodo vergar a espinha – é possível imaginar a espécie de jihad que essa gente é capaz de fazer quando perceber como é difícil controlar as mentes livres. E Castañeda aprenderá como podem ser carnívoros os vegetarianos descontrolados.

Pior do que a imprensa como partido político talvez seja o partido político como imprensa.

21/4/2010

(*) Este artigo foi originalmente publicado no Observatório da Imprensa

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