O mistério de Villa-Lobos

No dia 17 de novembro passado, fez 50 anos que Heitor Villa-Lobos morreu. Tido como o maior compositor brasileiro de todos os tempos, muito já foi escrito sobre ele, até um filme contando sua saga resvalou pelas telas. Porém, por incrível que pareça, a maior parte das mais de 1.000 obras que deixou permanece desconhecida para muita gente, com efeitos mais danosos para seus cultores, naturalmente. Neste ponto, certos experts na chamada música clássica vêem alguma semelhança entra o mestre carioca e o austríaco Franz Schubert (1797-1828). Que só entre 1810 e as vésperas de sua morte compôs cerca de um milheiro de peças. Com apenas umas 100 publicadas até a data do falecimento.

Com Villas-Lobos não tem sido diferente, e há quem diga que sua situação é mais grave do que a do europeu acima citado. Isso porque quase meio século após o seu desaparecimento ele ainda aguarda a publicação de parte significativa do que deixou. Isso ocorre pelo fato de ter doado seus direitos ao editor Max Eschig, na Paris de 1927. Em troca de ter 14 partituras divulgadas…

Na verdade estou contando isso porque por uma dessas exóticas tramas do destino fui um dos participantes da última entrevista que Villa-Lobos concedeu, em 1959, mês de agosto, se bem lembro. Ele morreu pouco mais de dois meses depois.

Bom, à época da entrevista eu ainda nem era jornalista profissional, cursava o último ano da Cásper Líbero para conseguir o diploma que o ministro Gilmar Mendes cassou. E o encontro pintou porque o compositor participou de um almoço no roof do jornal A Gazeta, que sustentava a faculdade. Os alunos em final de curso foram convocados para uma coletiva que sairia na edição do jornalzinho A Imprensa, que nós mesmos editávamos.

Assim nos acomodamos com o maestro ao redor de um belo piano Stenway de cauda, para um longo e inesquecível bate-papo. Que culminou com ele sentando diante do teclado para nos dizer que faria “um improviso que dedico aos futuros jornalistas”. Durante uns bons 10 minutos tocou de forma inesquecível. Por onde andará a peça, gravada?

Bom, na minha vez de perguntar quis saber de Villa qual era o compositor que ele escutava nas horas de descanso, em casa, a derrubar um uisquinho envolvido pelas fumaças do charuto, sua marca registrada. Ele respondeu rapidamente, em cima:

– Olha, se não tivesse existido Puccini não teria existido Villa-Lobos.

Esta frase durante os anos que se seguiram, até hoje, de vez em quando emerge na minha cabeça. Pela simples e boa razão que não encontro, nos trabalhos do brasileiro, qualquer traço de influência do compositor italiano. E sobre o tema, como não sou do ramo, consultei alguns que são, como o maestro Benito Juarez, que, por largos anos, dirigiu a Sinfônica de Campinas. Ele também não consegue identificar traços visíveis do autor de Madame Butterfly na obra de Villa. Idem outros regentes também conhecidos com quem falei, entre eles Isaac Karabtchevsky e Roberto Minczuc. Cabe ainda citar entre os consultados a soprano brasileira Márcia Aliverti, que já cantou em São Paulo, e é considerada uma das melhores interpretes da “Bachiana Número 5”.

Nessas condições, a fim de desvendar definitivamente, para uso pessoal, o que para mim passou a ser um mistério, voltei tarde destas, em que curtia a fresca da tarde e uma cervejinha no bar do seu Fernando, à pergunta que fiz a Villa-Lobos no já longínquo 1959. Ou seja, qual o compositor que ele escutava nas horas de descanso a bebericar um uisquinho com o charuto a fumegar ao lado. Imaginei então a cena a partir do meu gosto pessoal. Vi o maestro chegando em casa, cansado, louco pra dissipar o calor carioca com um bom banho. Isso feito, lá vai ele para o som (vitrola, à época), a fim de escolher uma boa música para relaxar. Num primeiro momento coloca para tocar “Nessun Dorma”, a mais conhecida ária do Turandot, a inacabada ópera do compositor italiano. Ouve, desfruta e, depois de mais um gole e algumas baforadas, vira o elepê para curtir “E Lucevan le Stelle”, belíssimo diamante encravado na Tosca. Já se sentindo descansado, e em estado de graça, Villa-Lobos murmura, para si mesmo:

– Ah, Puccini, para me devolver a paz numa hora dessas, nem sei o que seria de mim se não fosse você… 

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

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