O eixo perdido

Se há divergências entre os geofísicos quanto aos níveis de deslocamento do eixo terrestre, tema que ganhou repercussão depois dos terremotos do Haiti e do Chile, difícil é ter dúvidas quanto à movimentação do eixo que deveria balizar a política.

Parece ser um fenômeno mundial. Nos Estados Unidos, a oposição ao democrata Barack Obama pinta-o como um comunista de carteirinha. Na Europa, berço da social-democracia, a onda conservadora continua a banhar a maior parte dos países do continente. Na América Latina convive-se, em pleno século 21, com um esquerdismo primário e juvenil encabeçado pela ditadura Chávez.

No Brasil então, o eixo virou pelo avesso, perdeu-se. Já nem pode mais ter seus graus aferidos. Tudo está fora de lugar, seja no terreno ideológico, legal, constitucional ou moral.

Do ponto de vista partidário, o PT arrota regras de cima para baixo, incentivando todo tipo de peleguismo político. Um partido que abriu mão de qualquer princípio ideológico – se é que realmente os tinha – em nome de se perpetuar no poder. Mesmo que seja com Dilma Rousseff, cristã-nova, mas que, imposta goela abaixo pelo presidente Lula, tudo merece.

E não há greve de fome ou desfiliações de petistas históricos capazes de consertar o eixo torto. O partido se rendeu ao pragmatismo de Lula, vendendo-se aos Sarneys, Jaders, Collors e Malufs. Rendeu-se a tudo. Arrepia-se com a hipótese, hoje tida como remota, de perder o conforto dos cargos públicos para milhares dos seus.

Mas, mesmo aliado ao que há de mais retrógrado na política nacional, o petismo continua bradando-se como a única esquerda confiável do país. E não se cansa de tentar constranger os que ousam dele discordar.

O PSDB, a anos luz de distância das premissas da social-democracia e do parlamentarismo que pregava, nem mesmo sabe onde guardou a bússola. Distancia-se cada vez mais do DEM, seu aliado histórico e debita todos os reveses da campanha presidencial ao candidato José Serra, sem fazer mea-culpa de sua omissão.

Não ousou a se opor à popularidade de Lula quando podia e quer agora, em pouco mais de 20 dias, fazer o que não fez em oito anos. Uma missão quase impossível.

Nem Marina Silva escapa. Após 3 de outubro, pouco deverá sobrar do seu véu de santidade e pureza. E o PV, ao qual se filiou na bacia das almas, há muito abriu os seus filtros ideológicos para conseguir melhores resultados eleitorais. A assunção de Marina na sigla foi apenas mais um deles.

As campanhas? Essas então são um desatino total. Nunca antes neste país se viu eleição tão despolitizada. Algo que só favorece a candidata oficial, cujo papel ensaiado é o de expor um país de cinema, uma Hollywood, ainda que tropical. Mostram-se números e realizações, em geral sem lastro; um futuro promissor, de Brasil grande. A mesma cara do Brasil dos militares, do “ame-o ou deixe-o”, base do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao reclamar da “turma do contra” que não ama a pátria.

O absurdo é tamanho que o presidente da República transforma o “Brasil, um país de todos”, slogan original de seu governo, em “Brasil, um país daqueles que estão do lado do Lula”. E tem o desplante de taxar como preconceituosos todos os cidadãos que não apóiam a sua candidata e a ele próprio.

Setembro de 2010

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

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