O capoeirista

Ao advertir que neste ano não encarnará o “Lulinha paz e amor” e que está pronto para revidar o “jogo rasteiro” da oposição e os chutes “do peito para cima”, o presidente Lula propositadamente elevou o tom, antecipando a escala e os instrumentos que pretende usar para tentar eleger a sua sucessora.

Mesmo sem intimidade alguma com essa dança-jogo-luta e seus maravilhosos e criativos golpes – rabo-de-arraia, meia-lua, queixada, bênção, martelo e tantos outros –, há tempos Lula pratica o que há de mais precioso na capoeira: a ginga.

Com maestria, ginga entre falar uma coisa e fazer outra – embalado não pela cadência do berimbau, mas pelo som de sua própria voz.

Esconde-se na hora certa, sabe tudo e, quando lhe convém, nada sabe. Acusa outros por delitos que lhe estão por demais próximos e move-se habilmente entre ofensores e ofendidos, entre seus ricos hábitos e os daqueles que vivem na miséria.

Consegue fazer agrados à direita e à esquerda e cria, quando lhe é útil, antagonismos ideológicos, não raro há muito superados.

Sua destreza é espantosa, de dar inveja a grandes mestres como Binha e Pastinha, idolatrados pelos capoeiristas brasileiros e africanos, terra base dessa belíssima arte.

No primeiro palanque do ano, montado para a assinatura de protocolos do programa Minha casa, minha vida, Lula mais uma vez mostrou o seu gingado diante das câmeras de TV e de quase mil convivas.

Comportou-se como candidato e, sem qualquer pudor, não escondeu o papel de coadjuvante que imagina para a ministra Dilma Rousseff, mesmo se ela chegar a Presidência da República.

Como reina absoluto e não necessita se encaixar nos padrões marqueteiros de campanha, Lula repassou a Dilma o seu figurino de maior sucesso nas duas eleições anteriores.

E, enquanto a ministra da Casa Civil tenta, ainda que sem a mesma desenvoltura do chefe, vestir-se de “Dilminha paz e amor”, Lula desafia qualquer um que dele discorde ou possa vir a discordar.

Lança ameaças ao vento para, antecipadamente, proteger a sua pupila.

Usa uma estrela (um dos nomes que os capoeiristas dão à esquiva para uma rasteira), e se diz pronto para se defender de chibatas e voadoras (exemplos de golpes em que, depois de um giro no ar ou de um Aú, se atinge adversário com a sola ou a parte externa do pé).

Chama para a briga adversários que não tem e não terá.

Sem ter opositores, a propaganda de suas habilidades como capoeirista assemelha-se às exibições turísticas tão comuns no Pelourinho de Salvador, produzidas para inglês ver.

Em mais de sete anos, Lula e o seu Governo contaram sempre com a docilidade dos adversários, cada dia mais tementes em desafiar a fabulosa popularidade do presidente.

Não experimentou também qualquer ferocidade nas campanhas em que foi eleito e reeleito. Nas disputas eleitorais, o único golpe baixo (e põe baixo nisso) de que foi vítima veio do ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello, hoje um aliado que ginga no ritmo ditado por Lula.

Cintura-dura e em quase nada flexível, o governador José Serra, o rival, não tem ginga alguma. Mas desta vez, talvez isso não lhe faça a falta que fez em 2004. É Dilma, e não Lula, que estará na roda. E dificilmente ela conseguirá, por mais esforço que faça nos treinos, adquirir molejo.

Já o presidente continua a mostrar a sua incrível agilidade. Entre quatro paredes, dois dias depois dos arroubos, desculpou-se junto ao governador de Minas Gerais, Aécio Neves – a velha tática de consertar no privado os estragos e ameaças que fez em público.

Como na capoeira, deu um passo para trás para poder disparar outro golpe qualquer quando e se os candidatos subirem ao ringue – arena que Dilma e Serra tentarão evitar.

* Os nomes de golpes e a tentativa de explicá-los foram fruto de pesquisa, já que, ao contrário do presidente, não sou capoeirista.

Este artigo foi escrito para o Blog do Noblat

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