No Brasil ninguém lê ficção brasileira

Olho, com tristeza, mas uma tristeza inominável e profunda, a lista de livros mais vendidos. Pego como referência a revista Veja de fins de abril de 2010: na ficção, lá estão os leitores brasileiros prestigiando nada menos do que 10 entre 10 estrangeiros. Haja tradutores e tomara que pelo menos estes sejam bons. Não sei, porque não li nenhum livro entre os 10 mais vendidos neste momento: três livros de um autor chamado Rick Riordan, dois de Stephenie Meyer, que descobriu a mina nos vampiros, e outros menos votados. Puxado pelo filme, Alice, de Lewis Carroll, é o único que marca um tento de qualidade.

Para mim, fica uma cruel pergunta no ar: não temos nenhum ficcionista que mereça ser lido por nós mesmos, os brasileiros?

Sem resposta.

Volto no tempo e busco os livros mais lidos no quesito ficção, na mesma revista Veja, em junho de 1980. Há três décadas, os brasileiros liam A Tragédia da Rua das Flores, um romance do maravilhoso Eça de Queiroz que teve lançamento póstumo. Palmas para nós, brasileiros. Devo dizer, sem nenhuma modéstia, que estava entre esses leitores, e ainda havia comprado uma edição especial, ilustrada e linda. Além dele, naquela lista, estava bem representados Fernando Sabino (O Grande Mentecapto), nosso cronista de plantão, e Jorge Amado comum de seus últimos escritos, Farda, Fardão, Camisola de Dormir.  Alguns podem dizer: nem era tão bom assim, três em dez… Verdade, mas a qualidade ainda vinha marcada pela presença de Erich Segal e Graham Greene. Importados assim são sempre bem vindos.

Cinco anos depois, os brasileiros – que excelente notícia –, tomavam para si nada menos do que seis lugares entre os dez livros mais vendidos (falo de 1985, na lista da mesma Veja). É preciso dizer: 60% dos livros mais vendidos eram de literatura de ficção nacional!

Estou sendo bairrista?

Não. Se pelos menos entre os dez mais vendidos de hoje marcassem presença os que marcavam naquele momento os importados de altíssima qualidade: Vargas Llosa e Milan Kundera (com o inesquecível A Insustentável Leveza do Ser), além de Irving Wallace e Arthur Haklley (nada é perfeito). Os seis que ali estavam sendo prestigiados pelos leitores de seu próprio país eram os grandes Jorge Amado (Tocaia Grande), Márcio Souza, João Ubaldo Ribeiro (vivo e produzindo, mas hoje pouco lido), Carlos Drummond de Andrade Josué Montello e Rubem Braga. Só.

Pergunto ainda uma vez: onde estão nossos ficcionistas?

Morreram, alguém mais cético responderia.

E outros não nasceram.

O Brasil é um país que não produz ficcionistas ou, se é que os produz, não os prestigia. Não os lê. Não se interessa por – sequer – conhecê-los.

Vamos ver a lista dos mais vendidos de 1995?

Dez anos depois daquela lista gloriosa, tenho a informar que Paulo Coelho estava no pódio em primeiro e segundo lugares, com Maktub e Nas Margens do Rio Piedra… e no sétimo lugar com O Alquimista. Três lugares entre os 10 mais vendidos foram para as mãos desse escritor discutido, elogiado e criticado. Sou da turma da crítica, acho a qualidade baixa. No entanto, não seria pior, acredito, do que o para mim desconhecido William Young, que escreveu A Cabana. O primeiro colocado de 2010.

Mas voltemos a 1995. Estavam lá, marcando uma presença melancólica para a cultura do país: James Redfield (você sabe quem seria? Nem eu), Sidney Sheldon e Danielle Steel. Presenças que nos honravam: Umberto Eco, o intelectual italiano, Luis Fernando Veríssimo de primorosa prosa e o saudoso Caio Fernando Abreu, que cedo partiu e deixou uma obra pequena, mas marcante. Tanto que seus contos, hoje, viram filmes.

Para não ficar amolando muito, pulo mais dez anos e constato (Veja, junho de 2005), com maior tristeza do que antes, que entre os dez livros de ficção mais lidos no país apenas três eram de autores nacionais: Jô Soares estava plantado num honroso segundo lugar (Assassinato na Academia Brasileira de Letras) e, pasmem, Carlos Drummond de Andrade, com Declaração de Amor! Lia-se poesia no Brasil! Fantástico! E inusitado. O terceiro brasileiro era Paulo Coelho, mas ele nem se conta, é café-com-leite. Naquele anos, antes da era dos vampiros que enfrentamos agora cabisbaixos, havia sido descoberto o fenômeno Dan Brown, de O Código da Vinci.

Como todos puderam constatar, pelas minhas desafortunadas pesquisas, o número de brasileiros entre os mais vendidos exibe o que os economistas chamariam de “viés descendente”: vai caindo, caindo, até simplesmente, em 2010, desaparecer.

Conclusão infeliz: os brasileiros não gostam de ler livros de brasileiros. Espero, ansiosa, a lista dos mais vendidos de 2015.

Maio de 2010

Um comentário para “No Brasil ninguém lê ficção brasileira”

  1. gosto de trema (¨), então quem tem trema no nome deve ser interessante…
    sugiro, se é que posso, que acompanhando o sucesso que fazem os vampiros pelo mundo afora, voce aproveite os nossos sacis, caiporas e chupa-cabras e escreva alguma ficção para nós. Lembrei do Dias Gomes que uma vez os reproduziu numa novela, acho que Saramandaia, e foi ótimo. Que tal…

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