Não é verdade o que disse Gaspari

O respeitadíssimo Elio Gaspari cometeu um erro na sua coluna deste domingo, 10 de outubro. Afirma que a questão do aborto foi levantada pela oposição ao governo Lula e à candidatura Dilma. É falso. Está errado. Não é verdade.

Gaspari compara o uso de Miriam Cordeiro, mãe de Lurian, a primogênita de Lula, na campanha presidencial de 1989, com o uso do tema aborto hoje pela campanha do PSDB. É injusta a comparação.

“Em 1989, a questão do aborto foi fertilizada pelo comando da campanha de Fernando Collor”, escreve Gaspari. “Desta vez, reapareceu com o mesmo formato oportunista, trazida pela infantaria do tucanato.”

É falso. Está errado. Não é verdade.

Na mesma edição em que publica a coluna de Gaspari com essa inverdade, O Globo bota os pingos nos is, em reportagem assinada por Carolina Benevides e Tatiana Farah. “A então candidata do PV, Marina Silva, foi a primeira a se posicionar sobre o aborto. Ainda em junho, Marina declarou que, se fosse eleita, faria um plebiscito para decidir sobre a descriminalização.”

Não foi Serra, não foi a campanha de Serra que trouxe o tema aborto para a campanha presidencial.

Depois que Marina levantou o tema, surgiram, na internet e na imprensa, diversas referências ao fato de que Dilma e o PT no passado defenderam a descriminalização do aborto. Aí Dilma tentou negar a verdade óbvia, que pode ser vista no YouTube, nas matérias de jornais reproduzidas na internet, nos jornais de papel.

Stálin mandava retirar os personagens caídos em desgraça das fotos. Não dá para Dilma retirar o que disse das coleções de jornais, da revista Marie Claire, dos filmes feitos durante sabatina realizada pela Folha de S. Paulo.

Dilma e o PT defendiam a descriminalização do aborto. Agora, tentam desmentir a verdade. Mentem.

Foi só depois que o tema veio à baila, e que Dilma tentou negar a verdade dos fatos, que Serra e sua campanha passaram a acusar a adversária de mudar de opinião por conveniência política.

Gaspari, portanto, fez afirmação falsa.

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Eu pessoalmente acho, e já escrevi aqui por duas vezes, que é errado transformar a questão do aborto em grande tema da campanha eleitoral. Dilma é uma candidata ruim à Presidência da República por mil razões, mas não por ter defendido a descriminalização do aborto. Dilma não merece o voto, entre outras mil razões, porque mente sobre esse tema, como já mentiu em tantas outras ocasiões. (Para ler uma tabela com algumas das mentiras de Dilma, clique aqui.) Mas não por ter defendido a descriminalização do aborto.

O tema é importante, mas não é a hora nem o foro correto discuti-lo agora, nas poucas semanas antes do segundo turno. Há temas muito mais fundamentais, e que são – ao contrário da legislação sobre o aborto – atribuição específica do futuro presidente da República.

“Debatido como tema religioso, o melhor acordo seria tirar o aborto da agenda”, diz, no Globo deste domingo a pesquisadora da UnB Débora Diniz, uma das responsáveis pela Pesquisa Nacional de Aborto. “Melhor o silêncio do que tratar a saúde da mulher como moeda de troca.”

Corretíssimo. Perfeito. Irretorquível.

Mas dizer que foi o PSDB que trouxe a o tema para o debate é errado, não é verdadeiro, é falso.

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Foi só depois que postei esta anotação que vi que Reinaldo Azevedo já havia contestado, item por item, o que disse Elio Gaspari. Clique aqui para ler o texto de Reinaldo Azevedo. Ele é contra o direito ao aborto. Tem direito à opinião dele, é claro. Para mim, o que importa é que ele contesta a veracidade do que Gaspari diz em relação ao PSDB e o aborto.

10 de outubro de 2010

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