Meu irmão de longe

Não nascemos do mesmo pai nem da mesma mãe, mas tenho, cada dia mais, certeza de que nos sentíamos irmãos.

Não nascemos nem no mesmo país, mas tenho, cada dia mais, certeza de que falávamos a mesma língua.

Seus olhos viviam me dizendo que ele gostava de mim. Os meus nunca lhe disseram outra coisa.

Uma vez, uma só, estive em Salima, sua terra, encravada nas montanhas do Líbano. Beijei sua mãe, abracei suas irmãs, cunhados, sobrinhos. Quando voltei, seus olhos molhados me pediam que dividisse os beijos, os abraços, os afagos.

Eu poderia me lembrar dele como o anfitrião perfeito, que só sabia abrir a porta da casa com olhos profundamente sorridentes. Ou como o companheiro de viagem entusiasmado – ou guloso? –, que, nos caminhos entre Belo Horizonte e São João del-Rei, não resistia à tentação das taças de arroz-doce guardadas – há quantos dias? – nos balcões dos restaurantes.

Eu poderia me lembrar dele como o tio que saía pelo mercado procurando o melão preferido por um sobrinho, ou preocupado em presentear o outro, que gosta de rezar, com um velho terço, herança de família.

E o pai que, de manhã cedinho, continuava preparando as torradas dos filhos adultos – todos trabalhando –, como se ainda fossem as suas crianças?

E o companheiro solidário que, poupando a mulher, começou assumindo os lanches de domingo, depois também os de sábado, e, depois, os de sempre?

Sei que poderia me lembrar dele trabalhando, fazendo, organizando, mas a lembrança que me acompanha é a de seus olhos molhados, naquele dia e em muitos outros, me pedindo que tornasse a contar como sua mãe, libanesa de 84 anos, ainda picava a salsinha para o tabule.

Ah, uma coisa, uma só, não vou poder perdoar. Houve uma noite, vindo de Belo Horizonte, em que ele dormiu, dentro do carro, debaixo da minha janela paulistana. Tocou a campainha de manhã cedinho, perguntando se já tinha café. E contou.

– Cheguei muito tarde, não quis incomodar.

Preciso dizer ao meu concunhado Abdo Saadallah, onde estiver, que ele tinha o direito de chegar quando quisesse, com olhos sorridentes ou molhados.

Mas ir assim, pra sempre, tão cedo, tão rápido, sem aviso nenhum, sem nem ao menos um pãozinho de queijo de despedida, podia?

 Este texto foi originalmente publicado no Estado de Minas. As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o jornal estão sendo republicadas pelo site primeiroprograma.com.br, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata. Publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada (MGuarnieri Editorial), Leonel está recuperando as crônicas que Vivina publicou no jornal mineiro entre 1990 e 2000. Com a autorização de Vivina, estou aproveitando o trabalho de Leonel Prata e republicando também aqui os textos.

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