Buganvílias x Primaveras

Uma vez, alguns anos após me arranchar em São Paulo, me convidaram pra ir a São José dos Campos.

Um de meus livros, história de uma joaninha capturada na escola e levada pra casa, com cuidados especiais, por um menino, certamente comovera a professora. Acontece.

Na escola, oito horas da manhã, primeira aula, todas ligadas, falando ao mesmo tempo, as crianças queriam saber o de sempre. Se a história era de verdade, se o menino era meu filho, quantos anos ele tinha, se eu tinha mais livros, mais filhos, se escrever era fácil, se era muito difícil, como era, onde eu morava, casa, apartamento, cidade, pai, mãe, marido, carro, cachorro, gostava de música? De livro? Dos meus ou dos não meus? Meu livro preferido era São Bernardo? Livro de santo? Eu gostava de vida de santo? Já tinha lido a de Santa Teresinha?

O almoço seria – e foi – na casa da professora. Fomos a pé, como convém em distâncias possíveis. Conversando, como convém em momentos especiais. Importante as crianças conhecerem um autor, ela disse. Importantíssimo conhecer leitores, garanti. Elas aprenderam muito, continuou. Aprendi mais, duvida? – afirmei e perguntei, dobrando a esquina.

— Meu Deus! Que buganvília linda! Naquela casa, lá no fim da rua, tá vendo? Ah, se minha mãe estivesse aqui, ah!

A professora me analisava, calada.

Eu a observava, incrédula. Se, há poucos minutos, ela se emocionava com a história de uma joaninha que morria afogada em um copo de água, como conseguia ser indiferente à exuberância daquela buganvília, colírio colorido para olhos avisados e desavisados?

— Isso não pode estar acontecendo – pensei alto.

— Como? – a professora se aproximava da buganvília como se aquela maravilha fosse parte da vida dela. Nem olhava.

Meus olhos desavisados não se despregavam do muro alto, vermelho-verde, verde-vermelho, folhas-e-flores, tudo junto, misturado. Beleza, harmonia. Sintonia.

—Já vi milhares de buganvílias, milhares, mas essa…

A professora, que devia estar pensando na joaninha – com a buganvília, decididamente, ela não perderia tempo –, parou, abriu o portão. Com um gesto, me disse entre.

— Você mora aqui?

— Moro.

— Aqui???

— Aqui, por quê?

— Pô! Tô falando nessa buganvília desde a esquina, e você calada, sem dizer nada…

— Falando em quê???

— Na buganvília!

— Em quê???

— Nessa sua buganvília, pô!

— Desculpe, não tô entendendo! Você tá falando dessa primavera?

 As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site primeiroprograma.com.br, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.

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