As cartas conversavam

Minha mãe, que se foi há alguns anos, sempre gostou de uma boa conversa.

Especialistas em signos, luas, sóis e mapas astrais talvez pudessem explicar sua extraordinária vocação verbal. Até quando escrevia, conversava.

Suas cartas – não há como esquecê-las – chegavam com o som de sua voz, o tom. Exclamações, interrogações, reticências, sustos.

Neste domingo paulistano, garoa do lado de lá da janela, me pergunto se signos, mapas, luas e sóis explicariam a saudade de uma carta. De uma conversa.

Minha mãe nunca deixou de conversar comigo, desde que saí de casa a caminho do internato, criança de tudo, nem nove anos.

Eterna repórter, ela me alimentava, quase semanalmente, com os cheiros e jeitos de nosso universo rural, tão longe, tão perdido, tão escondido.

Proibida de atravessar os portões – sempre trancados – que separavam o silêncio do colégio do burburinho da rua, eu lia a letra firme de minha mãe me relatando, quase semanalmente, tudo o que acontecia naquele nosso fim de mundo. Tudo o que acontecia com nossas gentes e nossos bichos.

Quem nascera, morrera, saíra do hospital. Quem acabara se casando.

Qual vaca caíra no buraco, qual cachorro matara os pintinhos ali, no meio do terreiro, quais paineiras, mangueiras, ipês e buganvílias estavam florindo.

Eu sabia se as formigas destruíam o jardim, se os carros atolavam na lama das estradas, se os mata-burros – de madeira – se quebravam.

Eu sempre sabia da chuva, do sol, do calor, do frio, da geada. Todos os ventos, todas as ventanias.

Neste domingo de inverno paulistano, garoa, férias, ruas quase vazias, ventinho frio, sonho com a chegada de uma carta.

 Talvez os sóis e as luas possam acordar minha mãe, habitante das nuvens.

Talvez ela me escreva, conte do mundo. O outro, o seu. Fale da rotina. Reclame de monotonia. Enalteça imensidões, espaços, brancuras. Explique ausência de portas, janelas.

Ou, então, pode ser que ela me escreva sobre o nada.

As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site primeiroprograma.com.br, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.

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